Internacional

Hong Kong em cenário de guerrilha urbana

Polícia apenas deixa sair de um ponto específico e exige a rendição dos estudantes. Milhares saíram à rua para os socorrer.

 

Hong Kong caiu num cenário de autêntica guerrilha urbana, desde domingo, em confrontos sem precedentes entre os ativistas antigovernamentais e a polícia. O jogo do gato e do rato entre as autoridades e os estudantes encurralados no campus da Universidade Politécnica de Hong Kong, que já dura dois dias, parece não ter fim. Em desespero, 50 manifestantes desceram uma ponte usando cordas.

Um grupo de centenas de manifestantes ocupou o campus universitário, na semana passada, e usou-o como quartel-general da desobediência.

Cercados pela polícia no domingo à noite, erigiram barricadas, atearam fogo à entrada do politécnico - e a uma ponte que dá acesso a este - para impedir que a polícia entrasse. Com isto, deflagraram incêndios de grandes proporções, lançaram flechas a arder - atingindo um agente -, tijolos e bombas incendiárias: muitas vezes de catapultas montadas nos telhados dos prédios do campus, segundo o South China Morning Post.

A polícia apenas permite uma única saída, através de uma ponte. E exige que os estudantes se rendam larguem as armas improvisadas, retirem as máscaras e os capuzes que lhes cobrem o rosto. Após negociações, alguns menores foram autorizadaos a sair.  

Enquanto o impasse decorre, milhares de pessoas saíram à rua numa onda de solidariedade para com os estudantes. “Vai para a PolyU e salva os estudantes!”, gritaram em direção ao politécnico. A polícia lançou gás lacrimogéneo para impedir que se dirigissem para o local.

Algumas dezenas de estudantes encurralados encontravam-se feridos, outros asfixiavam devido ao gás lacrimogéneo e outros ainda sofriam de hipotermia devido aos canhões de água utilizados pela polícia.

Às 8h de segunda-feira (16h em Portugal continental) os manifestantes tentaram sair do campus em grupo, mas encontraram rapidamente o gás lacrimogéneo e as balas de borracha da polícia - apesar de o presidente do politécnico ter garantido uma saída segura. A partir daí fizeram várias tentativas, mas, dado que as autoridades fecharam os acessos chave, foram forçados a recuar diversas vezes. 

A polícia não se mostra disposta a ceder e mantém uma postura intransigente, oferecendo apenas uma saída e ameaçando utilizar a força se necessário. “Se [os estudantes] largarem as suas armas, seguirem as instruções da polícia e arcarem com a responsabilidade legal, a polícia não usará a força”, sublinhou o superintendente chefe Kwok Ka-chuen. Caso se entreguem, os estudantes arriscam penas de 10 anos de prisão.

“Não conseguíamos mexer-nos. A polícia não parou (...) eles ainda usavam balas de borracha e granadas de esponja para atacar-nos. Estamos a falar de um metro de distância”, disse um manifestante ao South China Morning Post.

Seze Li estava dentro do politécnico quando falou com o Guardian. “Toda a gente está às voltas a correr, à procura de saídas. Ouvimos que os manifestantes [que querem desbloquear o cerco] estão a caminho. Estamos só à espera deles”, disse, acrescentando que nem todos conseguem trepar para sair, como muitos fizeram.

Mais de 400 pessoas foram detidas desde domingo e os confrontos já provocaram cerca de 40 feridos, segundo a Hospital Authority.

Esta segunda-feira a lei de proibição das máscaras, ativada pelo Governo em outubro e que causou a fúria dos ativistas contra o Governo, foi considerada inconstitucional. Segundo a instância responsável pela decisão, a proibição é "tão ampla no seu escopo, a atribuição de poderes tão completa, suas condições de invocação tão incertas e subjetivas" e o controlo da Conselho Legislativo sobre a lei "tão precário", que não acredita "que seja compatível com a Lei de Base".