Internacional

Guaidó ao SOL: ‘A única sanção que existe sobre a Venezuela é a ditadura’

Numa entrevista por telefone, durante 25 minutos, Juan Guaidó contou ao SOL as dificuldades que enfrentam os venezuelanos e de como a repressão se sente no quotidiano. O autoproclamado Presidente interino da Venezuela garante ter o apoio da maioria da população.

Os venezuelanos «não têm água, comida, luz», no país de onde fugiram milhões, por entre a repressão do regime de Nicolás Maduro, sumariza Juan Guaidó, autoproclamado Presidente da Venezuela. «Não foi resultado de um furacão, de um terramoto, de um tsunami. Não, foi causada por fatores humanos». O único terramoto foi político, com a proclamação do Presidente da Assembleia Nacional como Presidente reconhecido por mais de 50 países, incluindo os Estados Unidos, passando pela União Europeia. O mundo observou as mudanças à espera de um climax que nunca chegou: a oposição saiu à rua com militares, em abril, anunciando o derrube de Maduro, e falhou; o Governo prendeu dirigentes da oposição, ameaçou Guaidó, mas não concretizou. «Estou sempre a caminhar pelas ruas, rodeado de gente que quer ser livre», assegurou Guaidó, em entrevista ao SOL, via telefone, após mais uma manifestação, que juntou estudantes, enfermeiros e professores. Mas nada pode ficar para sempre no impasse, muito menos na América Latina. Entre a conversa e a publicação desta entrevista, Jeanine Añez, vice-presidente do Senado da Bolívia, autoproclamou-se Presidente – deixando uma sensação de deja vú. «São uma inspiração para o nosso país», escreveu Guaidó no Twitter. A diferença entre a Venezuela e a Bolívia foi o facto da oposição boliviana ter o apoio da Polícia e das Forças Armadas, que obrigaram o Presidente Evo Morales, aliado próximo de Maduro, a demitir-se (ver pág. 51). «As Forças Armadas são um fator fundamental em qualquer transição», reconheceu Guaidó.

Depois de anunciar que o fim do regime estava ao virar da esquina, seguiu-se um impasse, durante meses, que afastou a Venezuela do ciclo mediático. O que se passa no terreno?

Ainda há uns minutos estava numa manifestação com sindicatos, ordens profissionais, trabalhadores. Nós enfrentamos uma ditadura. Mas, apesar disso, estamos mobilizados. Por exemplo, os professores têm estado em greve. O regime de Maduro tenta mostrar uma normalidade que não se vive na Venezuela, onde um professor tem um salário de poucos dólares por mês; cinco milhões de emigrantes; 83% da população não tem água canalizada; não há luz em vários estados... E onde há censura, tortura e a perseguição aos opositores. Mas mantemo-nos mobilizados e vivos, continuamos a ser a maioria. Hoje, não há luta por este Governo, é certo. Noutra altura, poderíamos falar de um país polarizado, mas hoje 90% da população quer uma mudança, pede-a.

Quando diz que 90% da população está contra o regime, é com base em sondagens ou o sentimento que vê nas ruas?

As sondagens [Datanálisis] dão 85% de rejeição a Maduro, a este socialismo no século XXI. Mas o sentimento é mais forte. E ainda mais importante que isso é esta junção de setores. Tanto de professores a convocarem greves, enfermeiros manifestando-se, greves nos transportes, estudantes manifestando-se, por iniciativa própria. Continuamos juntos.

Apesar de toda a oposição interna e externa, Maduro mantém o controlo do aparelho de Estado. Qual é o plano para derrubar o regime?

Bem, aparenta ter o controlo do Estado. Mas fundamentalmente, o Estado desapareceu. Não há uma relação de cidadão e Estado. Não providencia segurança, não providencia serviços básicos. Rouba-se o ouro, é contrabandeado, não controlam o território. E, na Venezuela, o narcotráfico envolve as mais altas esferas do Governo. Hoje o que existe é um aparato de repressão e perseguição, aparentando uma normalidade que não existe na Venezuela. Há cinco milhões de emigrantes, sete milhões até ao final do próximo ano, é uma catástrofe. Mas estamos a resistir e a lutar. O nosso plano tem vários pontos. Primeiro, mantermo-nos unidos. Segundo mobilizados, seguindo em frente. E aumentar a pressão da Europa, que terá muito a dizer nesse sentido, para que o regime não continue a roubar-nos o dinheiro e o utilize na Europa, para contornar sanções a violadores dos direitos humanos e corruptos. Ainda temos muito trabalho, eu como Presidente interino e cidadão.

Mas como pretende retirar a Maduro o controlo desse aparato de repressão de que fala?

Protestando, ao mesmo tempo que eles continuam a alimentar as suas contradições. Temos uma proposta muito clara de transição, para que haja eleições livres na Venezuela. A sociedade quer eleições presidenciais, as eleições de 2018 foram sequestradas pela ditadura. É por isso que temos lutado, e porque destruíram a nossa produção de coisas básicas como farinha. Não têm sequer como manter o Estado, lamentavelmente. Digo lamentável porque deveriam encarregar-se da segurança social, providenciar serviços e bens aos venezuelanos. No mínimo, segurança, e hoje não o fazem. Só alimentam os que os mantêm no poder.

Face a esse descontentamento, pensa tentar mobilizar os militares venezuelanos, como tentou no final de abril?

As Forças Armadas são um fator fundamental em qualquer transição. Podemos ver na Bolívia, é sempre um fator de pressão. É um dos elementos, não é o único. E é fundamental trazê-las para o nosso lado, e que não se calem, apesar do medo. Por exemplo, a ditadura assassinou Edmundo Rada [dirigente do partido de Guaidó] há três semanas. As forças armadas são um fator central, mas também o é a mobilização, os cidadãos, ter forças de oposição unidas. É isso que permitirá uma transição ordenada, pacífica e democrática.

Com é que essa repressão do regime afeta os venezuelanos, no seu quotidiano?

Não têm comida, luz, água. Os professores são investigados pelas polícia secreta, política, a SEBIN. Andam atrás dos políticos, de quem protesta. Verificam quem chega e quem sai de Caracas. Visitaram os líderes que organizaram as manifestações no Estado de Lara. Aos militares torturam-nos. Além disso, como verificou Michelle Bachelet, há extorsão através do subsídio de alimentação. É utilizado para controlar e instigar medo nos venezuelanos. Continuamos com um quotidiano de tortura, repressão, selvajaria. Algo que, evidentemente, não pode ser o quotidiano.

Nos últimos tempos, muitos dos portugueses na Venezuela regressaram a Portugal. A sua saída arrisca a empobrecer o país?

Na Venezuela temos uma comunidade portuguesa muito interessante, muito rica e diversa.

Apesar do Governo português o reconhecer como Presidente interino da Venezuela, à semelhança da União Europeia, mantém ligações diplomáticas com o regime. O que pensa disso?

É parte de procurar uma solução. Há que procurar soluções, que passam por uma eleição presidencial livre.

Mantém algum tipo de negociações com o regime de Maduro?

Só sobre a possibilidade de uma eleição presidencial verdadeiramente livre. Essa é a única possibilidade de solução do conflito. O regime tratou de tentar mediar uma solução, mas também foi a ditadura que se afastou desse espaço e o abandonou, porque têm medo de eleições verdadeiramente livres.

Com o impasse, pensa que será a figura chave dessa transição, ou cada vez mais é visto como um entre os vários líderes da oposição venezuelana, como Henrique Capriles (Primeiro Justiça, 22 deputados) ou Omar Barboza (Um Tempo Novo, 20 deputados)?

Hoje, todos os venezuelanos estão unidos, primeiro por uma causa, que é a nossa dignidade, a nossa normalidade, recuperar a democracia e legitimidade. Sou encarregado da Venezuela, presidente do Parlamento. E nas sondagens de opinião vê-se o meu valor como uma opção clara para avançar. Como fizemos hoje, saindo à rua, com professores, enfermeiros, médicos, engenheiros, camionistas, construtores, trabalhadores, estudantes e com a Igreja.

Quando olha para trás, depois de todos os confrontos e dificuldades, arrepende-se de se ter proclamado Presidente?

Toda a vida fui um servidor público. Tenho 36 anos, mas desde os tempos da universidade que estou ao serviço do serviço público. Formei-me em administração pública com cargos de eleição popular. Sou ativista desde muito jovem. É assim porque sempre enfrentámos uma ditadura. Pelo direito a viver dos cidadãos, por direitos humanos, liberdade de expressão e democracia. É uma honra, um orgulho e um dever, poder servir desta maneira o meu país e com o apoio e confiança do Parlamento, que me mandatou até que acabe a usurpação.

Mencionou a sua educação, uma parte dela foi nos Estados Unidos, na universidade George Washington. Acha que esse facto reforça as acusações de Maduro de que está ao serviço dos norte-americanos?

O regime trata de desvirtuar qualquer coisa. A ditadura pretende é servir-se disso para esconder a sua carência. Tenho interlocutores em todo o mundo, incluindo nos Estados Unidos, nos diferentes países que me apoiam, tudo para proteger o meu país. Já o regime, dependente dos serviços de informação e contrainformação de Cuba, é que tem uma dependência política.

Pede sanções sobre o regime de Maduro. Não o preocupa que essas sanções afetem os venezuelanos?

A única sanção que existe na Venezuela é a ditadura. Já tem seis anos consecutivos de contração do PIB. Maduro é um ditador, um ladrão que roubou o dinheiro dos venezuelanos – essa é a sanção imposta por ele e por [Hugo] Chávez. Durante oito anos endividaram a PDVSA [empresa petrolífera estatal venezuelana], destruíram-na, a produção petrolífera desceu a pique. E nada disso tem a ver com sanções. São apenas a pressão do mundo livre sobre violadores de direitos humanos e corruptos. De lhes impedir acesso a onde têm o dinheiro dos venezuelanos, que lhes roubaram. Além disso, violaram as leis dos direitos humanos, segundo Michelle Bachelet, Alta Comissária dos Direitos Humanos.

Michelle Bachelet também alertou que as sanções dos EUA são demasiado amplas e que podem afetar o acesso dos venezuelanos a medicamentos ou alimentos.

Poderiam agravar a situação pré-existente de emergência humanitária na Venezuela. Sublinho, pré-existente.

Mas isso não o preocupa?

Em 2016, o Parlamento nacional decretou emergência humanitária completa na Venezuela. Já lá vão três anos. O regime negou-o, disse que aceitando a emergência beneficiaria alguns, com a presença da Cruz Vermelha na Venezuela, o que era uma mentira completa, como sabe. E esta emergência não foi resultado de um furacão, de um terramoto, de um tsunami. Não, foi causada por fatores humanos. Em 2016 votámos para que chegasse ajuda humanitária, para que o desastre fosse reconhecido. Felizmente, hoje a ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados] e Michelle Bachelet e outros já o reconhecem, e esse é um passo importante para resolvê-la. E a única forma de resolver a crise na Venezuela é que acabe a usurpação. A ditadura roubou 600 mil milhões de dólares, faz presos políticos, não permite eleições presidenciais livres e negou a existência do Parlamento. Como tal, a ditadura tornou-se na arma da sua própria destruição. A nossa preocupação é com o sistema que oprime os venezuelanos, quando poderia ajudar o nosso povo com o que produz o país.

Vê-se uma nova onda anti-austeridade na América Latina, por exemplo no Chile e na Argentina. Como vê o assunto?

A minha preocupação é a Bolívia  após se ter demonstrado que houve fraude eleitoral, como fez a OEA (Organização dos Estados Americanos). No caso da Argentina, celebramos o facto do Presidente [Maurício] Macri ter reconhecido de imediato o resultado das eleições, fizeram uma transição estável em democracia. A nível do Presidente [Sebastián] Piñera, esperemos que oiça as exigências dos chilenos e que trate de corresponder. Mas quanto à Bolívia, aí houve fraude eleitoral, e esperamos que se mantenha o máximo de ordem enquanto não há novas eleições presidenciais.

O que diria aos que o criticam como defensor do neoliberalismo na América Latina?

Diria que é falta de informação, basicamente. A situação na Venezuela não é um problema de esquerda ou de direita, mas de liberdades fundamentais. Como se lê no relatório de Michelle Bachelet, o problema é a perseguição, a tortura. E também a falta de água, de eletricidade, alimentos, medicamentos, transportes públicos. É a pobreza extrema, a situação em que estamos. Por essa ordem de ideias, pense que a Venezuela vive sob uma ditadura que viola direitos humanos, que roubou os recursos do país, que hipotecou a nação através da dívida externa, em centenas de milhares de milhões de dólares. Isso sim, do ponto de vista da ideologia, seria bastante neoliberal.

Como vê a libertação de Lula da Silva, que criticou o que considera ser a intromissão norte-americana na Venezuela?

No que toca à libertação de Lula, o que é preciso são instituições fortes, que determinem se é culpado ou não. Quanto à posição política de Lula, é por ter pouca informação. Estava preso.

Muitos colocam a questão de como é que Juan Guaidó ainda não foi morto ou preso pelo regime.

Bem, primeiro porque tenho o apoio da maioria da sociedade. Definitivamente, porque a ditadura tem medo, não tem qualquer tipo de apoio popular. Mas como sabe, o meu chefe de gabinete, Robert Marrero, continua sequestrado, há 400 presos políticos, incluindo 26 deputados que viram a sua imunidade violada, foram perseguidos. Mas apesar dos riscos de enfrentar uma ditadura, mantemo-nos firmes em defender os venezuelanos.

Que tipo de pressões houve sobre si e os que lhe são mais próximos?

Sobre mim? Ameaças de morte, prisão, perseguições. Sim, como deve imaginar, tem havido alguma pressão.

Vive sob medidas de segurança muito estritas?

Não. Estou sempre a caminhar pelas ruas, rodeado de gente que quer ser livre. Temos confiança que os cidadãos venezuelanos farão frente ao ditador que usurpa o Palácio de Miraflores.