Cultura

Painéis de São Vicente renascem na primavera

O restauro dos icónicos Painéis de São Vicente arranca na próxima primavera, anunciou esta semana o Museu Nacional de Arte Antiga.

Quase 110 anos após terem sido pela primeira vez apresentados ao público, os comummente chamados Painéis de São Vicente – também conhecidos por Painéis da Veneração a São Vicente ou ainda Série dos Milagres do retábulo do Altar de São Vicente da Sé de Lisboa – vão ser restaurados. O protocolo que permitirá a empreitada foi esta semana assinado entre a instituição e a Fundação Millenium BCP, liderada pelo embaixador António Monteiro. O acordo, que tem a duração de três anos, prevê ainda o apoio mecenático ao restauro da coleção Della Robbia.

A Fundação vai ceder 225 mil euros para o restauro dos Painéis – cerca de metade da verba necessária, estima Joaquim Oliveira Caetano, diretor da instituição. O restante dinheiro terá ainda que ser reunido por outras vias – o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA)_continua à procura de parceiros para se associarem ao trabalho de restauro e manutenção de um conjunto que é a joia da coroa não só do museu mas também da pintura portuguesa.

O restauro será feito de forma faseada a partir da primavera do próximo ano. O trabalho ficará a cargo de quatro conservadores – dois da casa e outros dois contratados especificamente para o projeto. Os trabalhos serão também acompanhados por duas equipas de consultores. Sobre prazos, o diretor da instituição é cauteloso. «Não me comprometi com prazos e é de propósito. Não deixaremos que nada seja apressado para cumprir calendários comerciais ou políticos», afirmou após a assinatura do protocolo, citado pelo Diário de Notícias.

Para já, os conservadores vão avançar com um trabalho de diagnóstico da pintura que, a olho nu, não revela assim tantas fragilidades. Mas basta olhar para o ecrã tátil na sala que recebe a obra para, nas radiografias disponíveis, identificar as partes que precisam de intervenção.

Coube ao pintor Luciano Freire, que chegou a ser diretor do Museu dos Coches, (1854-1935) a primeira empreitada do género. Na altura, o também professor de Desenho, que se debruçou sobre a área da conservação e restauro foi o responsável pelo «famoso e polémico restauro» do conjunto, assim o definiu a investigadora Joana Baião numa curta nota biográfica sobre Luciano Freire publicada na página do MNAA. Luciano Freire usou óleo industrial para retocar algumas partes dos painéis, e a diferença dessas pinceladas é visível nos já citados ecrãs. «Foi feito com os meios que existiam na altura», nota o diretor citado pela Renascença. Hoje, os meios disponíveis são infinitamente mais sofisticados e, assim, «permitem ir mais a fundo». Na altura, o ‘processo São Vicente’ ficou concluído em 1910 e os Painéis foram apresentados à sociedade com pompa e circunstância em maio desse ano.

Mais de um século depois, não foi só a tecnologia que mudou e o que antes se fazia à porta fechada pode tornar-se por si só num atrativo. O MNAA ainda estuda hipóteses relativas à localização em que os trabalhos prosseguirão, mas cada vez mais museus tentam avançar com os processos de restauro e conservação à vista dos visitantes, um modus operandi que não desagrada ao diretor do museu, que até ter assumido a pasta era conservador da coleção de pintura. «Gostávamos muito que o restauro fosse feito in loco», admitiu Caetano reconhecendo, ainda assim, as dificuldades logísticas. Por isso, uma das soluções apontadas é retirar os painéis de forma faseada, sempre substituídos por reproduções.

 

Mistérios que serão eternos

Atribuídos a Nuno Gonçalves, pintor régio no tempo de D. Afonso V, são seis os painéis pintados a óleo e têmpera sobre madeira de carvalho. Um conjunto que é, nas palavras do diretor, o «maior retrato coletivo da pintura ocidental».

Há uma certa aura de mistério que vem adornando o conjunto desde a sua descoberta, em 1884. no Paço de São Vicente de Fora. Parte dessa mística advém do facto de São Vicente estar duplamente representado, mas também de muitas das personagens ali pintadas – ao todo, são 58 – não terem sido ainda definitivamente identificadas. «Vamos ficar a conhecer mais do pintor e de como pintava», notou Joaquim Caetano, citado pelo Diário de Notícias, sublinhando que, contudo, temos que aprender a aceitar os factos. «O restauro não vai responder ao quem é quem na pintura, para o qual temos de aprender a viver com o que se consegue e o que não se consegue saber».