Internacional

Reino Unido 'reescreve as regras'

Num momento em que só se fala de Brexit, Corbyn quer nacionalizações e um investimento público astronómico.

Quando se esperava que a campanha eleitoral no Reino Unido fosse dominada quase exclusivamente pelo Brexit, o Partido Trabalhista deu a volta ao texto e apresentou um manifesto no qual se propõe "rescrever as regras da economia". Querem fazê-lo nacionalizando setores-chave, como a eletricidade, a água, os transportes e as comunicações, mas também  aumentando a taxação aos mais ricos e às empresas, utilizando esses fundos em serviços públicos, pensões e na transição para uma economia verde. São valores astronómicos: Um aumento anual de 83 mil milhões de libras (cerca de 97 mil milhões de euros) na receita fiscal, com aumento equivalente no investimento. "Estas políticas estão plenamente custeadas, sem nenhum aumento para 95% dos contribuintes", assegurou o líder trabalhista, Jeremy Corbyn.

"Até resolvermos o Brexit, nada disto apresenta qualquer credibilidade económica", respondeu o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que apresentará o seu programa este fim-de-semana.

Contudo, apesar do grande assunto para os conservadores continuar a ser a saída do Reino Unido da União Europeia, também se parecem aperceber que não é a única preocupações dos eleitores. Se durante a campanha eleitoral de 2017 o serviço nacional de saúde era uma das principais preocupações de 41% dos britânicos, agora será determinante para o sentido de voto de 54%, taco a taco com o Brexit, decisivo para 55% dos eleitores, de acordo a Ipsos.

Algo que terá tido um papel na promessa de Johnson de aumentar o financiamento do serviço nacional de saúde em 13,8 mil milhões de euros até 2021 - já os trabalhistas prometem mais 3,2 mil milhões que os conservadores.

E a diferença não é apenas no valor dos fundos, é também na forma como são gastos: os trabalhistas prometem diminuir parcerias público-privadas e apostar nos medicamentos genéricos, arriscando enfurecer as farmacêuticas.

Talvez seja essa a grande clivagem entre conservadores e trabalhistas, a aposta preferencial no setor privado ou público. Afinal, o programa de Corbyn volta às raízes do Partido Trabalhista, que liderou a reconstrução do país após a Segunda Guerra Mundial, nacionalizando cerca de 20% da economia. Boa parte dessas medidas seriam revertidas nos anos 80, pelo Governo conservador de Margaret Thatcher, que Corbyn acusou de "arrasar enormes porções da indústria". "Vamos reconstruí-la, como uma indústria verde", prometeu.

 

‘Revolução industrial verde’

Cada vez mais britânicos têm as alterações climáticas entre as suas principais preocupações - incluindo 27% dos que votaram nos conservadores em 2017, de acordo com a Ipsos - e o manifesto trabalhista mostra consciência disso. Promete um investimento de 400 mil milhões de libras (quase 467 milhões de euros) no setor verde até 2030, criando um milhão de empregos pelo caminho: "Uma revolução industrial verde", nas palavras de Corbyn.

Uma promessa ainda mais ambiciosa do que a dos Verdes, cujo orçamento para o combate às alterações climáticas é um quarto do dos trabalhistas no mesmo período. "A escala da rutura climática é enorme", notou Corbyn. "A nossa resposta deve ter uma escala à altura". Algo que os trabalhistas pretendem financiar com ajuda de uma taxa sobre a indústria do petróleo e do gás natural. E que será calculado com base na contribuição passada para as emissões de gases com efeito de estufa, num total de cerca de 11 mil milhões de libras (quase 13 mil milhões de euros) - 10 vezes mais do que irão pagar este ano.

 

‘Não é credível’

Quanto à promessa dos trabalhistas de nacionalizar setores chave, esta "pode comportar mais gastos ao Governo do que lucro, a curto prazo", alertou ao SOL André Pires, da XTB, uma empresa de análise de mercados. "Poderão trazer alguma incerteza à estabilidade económica do país e agravar as consequências naturais da saída do euro", nota, numa altura em que se tem assistido "a um êxodo de fundos de investimento no Reino Unido".

Além disso, quanto ao maior investimento público, o diretor do think tank Instituto de Estudos Fiscais, Paul Johnson, salientou à ITV: "É impossível subestimar quão extraordinário é este manifesto, em termos da escala do dinheiro gasto e angariado".

Questionado sobre a garantia de que apenas os 5% mais ricos dos britânicos seriam afetados pelo aumento dos impostos, respondeu: "Não podemos recolher esse tipo de dinheiro através de impostos sem afetar indivíduos". "Simplesmente não é credível", salientou. Já Corbyn lançou o seu programa eleitoral com o aviso: "As pessoas mais poderosas do Reino Unido e os seus apoiantes vão dizer-vos que tudo neste manifesto é impossível".