Opinião

Os partidos (como os diamantes) são eternos?

Os partidos de esquerda bem resmungam entre si, mas mantêm-se unidos por uma irreprimível vontade de conservar o poder.

«Ser fiel aos princípios é uma conduta admirável, mas defendê-los sem flexibilidade, é condenar-se ao marasmo». 
Daniel Innenaraty.

Esta reflexão do celebrado filósofo espanhol (nascido em Bilbau, no país basco),que é considerado um dos pensadores mais influentes do mundo remete-nos para duas atitudes de espírito, que não sendo contraditórias, acabam por esse indispensáveis por virtude da sua profunda complementaridade e inegável bom senso.

Com efeito, se é verdade que num ambiente político profundamente degradado e excessivamente fragmentado, se torna necessário encontrar áreas de consenso que permitam avançar no interesse geral, também é verdade que a afirmação e o respeito pelos princípios acabam por ser a regra de ouro que permite a sobrevivência das instituições.
A democracia, tal como a conhecemos e praticamos na Europa, escora-se e desenvolve-se à volta de partidos políticos, que sempre corresponderam a áreas de pensamento e a compromissos de intervenção diferenciados, características que permitiam aos cidadãos uma escolha racional e conforme com as suas opções culturais, sociais e económicas.

Aparentemente este ‘equilíbrio’ político, está em vias de se alterar de uma forma profunda e irreversível. O fenómeno surge, crescentemente, na maioria das democracias europeias e, aparentemente, começa a estar presente na democracia portuguesa.

Apenas no futuro se saberá se este novo paradigma é mais ou menos favorável à descoberta de soluções de compromisso que conduzam a uma melhor definição de políticas públicas, ou se, pelo contrário, esta evolução pronuncia uma degradação da vida coletiva que conduzirá à frustração crescente das legítimas ambições dos eleitores.
No presente, contudo, já se verificam alguns sinais preocupantes de impasse político, não tanto ao nível da formação de executivos (há sempre uma solução geringonçada a que se pode deitar a mão) mas, ao nível das opções políticas exequíveis, que acabam por se anular mutuamente, impedindo reformas e saltos qualificativos na governação, necessários para combater uma globalização desregulada que ignora e coloca à margem a maioria dos cidadãos.

Por isso este tem de ser o tempo de regressar às ideologias, não escondendo as naturais diferenças sem nunca pôr em causa o diálogo e a procura de consensos, pois só assim será possível defender, desenvolver e consolidar os princípios fundadores de cada área política, em geral, e dos partidos, que as representam, em particular.
Estas reflexões são particularmente oportunas, no contexto da arrumação das representações partidárias em Portugal, num período em que uma assumida ‘geringonça’ foi substituída por uma envergonhada ‘carripana’.

Os partidos de esquerda bem resmungam entre si, constroem divergências mediáticas, fazem representação parlamentar, mas mantém-se unidos por uma irreprimível vontade de conservar o poder. Neste contexto, e para já, as ideologias pouco contam e os princípios são os que em cada momento servem a ‘causa comum’. Como diria o clássico Marx, o comediante não o outro, «os meus princípios são estes, mas se não servirem arranjo outros». Entretanto a oposição de direita, ou não existe, ou perde o seu tempo a imitar o soberano; mas isto só é possível porque o escrutínio cidadão é extremamente fraco porque é proporcional ao nível de participação nas eleições.

Nos últimos dias ocorreram, contudo, duas situações extremamente bizarras para o estado da arte política em Portugal, que podem indiciar e antecipar perigosos comportamentos futuros.

A primeira revelou-se no comportamento de uma maioria de partidos com representação parlamentar, que recusaram, até ao limite, atribuir tempo de intervenção, na AR, aos deputados únicos; a segunda resultou da convergência do PS com o PCP e outros partidos, para impedir que a AR confirmasse um voto do PE que qualificou os regimes fascistas e comunistas/estalinistas, como idênticos e igualmente condenáveis.

Na primeira situação, os partidos do atual poder desprezaram a representatividade de cada deputado e o enorme benefício eleitoral que já recebem pela aplicação do método de Hondt e ao silenciarem correntes de opinião minoritárias, traem ( pelo menos o PS) a sua história e os seus princípios. No segundo caso, a violação desses princípios, por parte do PS, ainda é mais flagrante, como qualquer observador minimamente informado concordará, pois agridem de uma maneira brutal o legado político do fundador Mário Soares.

São estas atitudes de taticismo absoluto e de aceitação de uma certa neutralidade ideológica (que justifica que se defenda, hoje, o que, ontem, se combateu) que estão a transformar os partidos políticos, mudando a sua natureza e, quiçá, conduzindo-os ao definhamento.

Para sossego e paz de espírito, refugiemo-nos, por agora, em Santo Agostinho quando afirmou: não é o mundo que está a acabar, mas um mundo novo que quer nascer.

Talvez... mas isso, seguramente, exige novos protagonistas e melhores e renovadas organizações.