Opiniao

Cinco temas

A crónica de hoje é muito diferente do habitual. A quantidade de assuntos de atualidade levou-me a fazer notas curtas em vez de desenvolver um tema.

25 de Novembro: dividiu ou reconciliou?

Na Assembleia da República, o 25 de Novembro dividiu o hemiciclo. De um lado ficaram o PSD, o CDS e alguns deputados socialistas, do outro o BE, o PCP e a maioria do PS. E Vasco Lourenço justificou o facto de a Associação 25 de Abril não comemorar o 25 de Novembro com o argumento de que não se devem celebrar datas «que dividem». Ora, tudo isto é extraordinário. O 25 de Novembro dividiu o país? Ou passou-se exatamente o contrário: o país estava profundamente dividido, com a tomada do aparelho militar e de importantes alavancas do poder pelo PCP e pela extrema-esquerda, e o 25 de Novembro veio reconciliar os portugueses (e o próprio Mário Soares) com o 25 de Abril. Por tudo isto, não se percebe que os militares e o PS não celebrem a data.

José Sócrates: o princípio do fim

Sócrates aguentou-se enquanto não disse anda. Ou seja, enquanto centrou a sua defesa no ataque ao Ministério Público e na ideia de que não sabia de coisa nenhuma. O dinheiro não era dele, e portanto não tinha de falar sobre a sua origem. Não tinha de saber donde vinha. E também não tinha de explicar a razão por que Carlos Santos Silva lho emprestava. Era uma gentileza do amigo. Se tivesse ficado por aqui, deixava tudo em aberto mas não se enterrava. Ora, quando começou a dar explicações, enterrou-se por completo. Quando começou a falar na fortuna da mãe, do cofre «enorme» que a mãe tinha, das dádivas que a mãe lhe fazia aos 10 mil euros para ir passar férias, meteu os pés pelas mãos. Parecia a ‘viúva Rosa’ a falar dos angolanos que mataram o marido. Pode mesmo dizer-se que a  fortuna da mãe está para José Sócrates como os angolanos estão para a ‘viúva Rosa’. São histórias  da carochinha. 

José Mário Branco, um democrata?

Um coro de carpideiras fez-se ouvir quando se soube que José Mário Branco tinha morrido. De repente, José Mário Branco era o maior, um génio, uma grande voz. Esquerda e direita juntaram-se nos elogios ao cantor. Eu ouvi falar dele pela primeira vez em Paris, juntamente com Luís Cília. Eram dois jovens revolucionários que cantavam umas coisas. Depois comecei a ouvir as suas canções, que mais me pareciam umas marchas revolucionárias. Não era bem um artista – mas um homem que usava a canção como forma de propaganda política. Nunca apreciei os propagandistas, e por isso nunca me entusiasmei com José Mário Branco. Agora Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que o poderá condecorar, dizendo que ele era um combatente da democracia que se implantou no país. Um combatente da democracia? José Mário Branco sempre lutou contra este regime, usou a cantiga como «arma contra a burguesia», isto é, contra a democracia que temos. Chamar-lhe ‘democrata’, além de disparatado, foi um insulto que Marcelo lhe fez.

A campanha contra Trump

Não passa um dia sem que as televisões não falem do impeachment de Trump. Como se falassem a sério. Ora, toda a gente sabe que o impeachment não passará no Senado. A história, aliás, é ridícula. Como fanfarrão que é, Trump ameaçou a Ucrânia de lhe retirar a ajuda caso não investigasse o filho de Joe Biden. Uma fanfarronice, pois parece que nem tinha poderes para o fazer. Mas de uma fanfarronice à destituição de um Presidente que foi eleito vai um passo de gigante – que o Partido Democrata sabe que não será dado. Trata-se, pois,  apenas, de uma campanha de desgaste. Que também vai desgastar o Partido Democrata. Porque desgosta Joe Biden, que é o centro da polémica. E não é boa para os democratas. Antes, quando um Presidente dos EUA era eleito, a oposição calava-se. Era o Presidente dos Estados Unidos, ponto. Esta campanha contra Trump alterou as regras do jogo na América, enfraqueceu-a externamente e por isso vai funcionar para os democratas como um boomerang.

Joacine e o império do ridículo

A polémica entre Joacine e o Livre é simplesmente anedótica. O Livre quis usar Joacine como bandeira por razões estranhas à política, e agora está a colher os frutos desse oportunismo. Mas este episódio lembra irresistivelmente as guerras na extrema-esquerda no pós-25 de Abril, onde havia discussões de morte por causa de uma vírgula. A extrema-esquerda não tem emenda: a ideologia sobrepõe-se a tudo e nas questiúnculas ideológicas consome as suas energias. Até porque a polémica é inútil. Que diferença fazia aos palestinianos terem ou não terem o voto do Livre? Haja noção do ridículo!