Opiniao

TAP, Mayday, Mayday

A TAP com 75 anos de história está hoje transformada numa empresa que acumula prejuízos e deixa os passageiros em terra

Na semana passada tive de embarcar rumo a Frankfurt, através da TAP, em concreto, no voo TP 1576, que tinha como horário de partida as 14h20. Horas e mais horas de espera, até que a companhia informou que estava a tentar resolver um problema técnico com o aparelho, o que não conseguiu, pelo que tivemos de mudar de avião, o qual também se encontrava avariado!

Mais horas dentro do segundo aparelho, tendo sido anunciado por volta das 18h00 que a TAP cancelava o voo, sem um pedido de desculpas genuíno, nem qualquer preocupação com o conforto e o estado de saturação física e mental dos passageiros. 

Há duas semanas, Miguel Sousa Tavares acusava o Governo PSD/CDS-PP de conduzir a TAP à liquidação. O que o jornalista porventura desconhece é que o processo de privatização foi revertido pelo anterior governo socialista e isso agravou em muito o estado da companhia e que foi responsável pelas múltiplas nomeações despudoradas como a do ‘best friend forever’ do primeiro-ministro, Diogo Lacerda Machado, para vogal do Conselho de Administração. A gestão da empresa foi canibalizada com a tomada de assalto de quadros de chefia, como a contratação da mulher do autarca de Lisboa para os serviços jurídicos da TAP, bem como a entrada, nos últimos anos, de cerca de 2700 trabalhadores, entre pilotos, tripulantes e pessoal de apoio técnico, logístico, comercial e gestores em mais uma versão da ‘TAP-family gate’. 

Detida pelo Estado a 50%, através da Parpública, a TAP é demasiado importante para falir, dado que é responsável por 2% da riqueza nacional e tem um impacto de 5,5 mil milhões de euros de receitas no turismo nacional. No plano social, estamos a falar de um universo empresarial que direta ou indiretamente dá trabalho a 12 mil pessoas. Infelizmente, tudo leva a crer que estamos a caminhar para o momento Swiss Air da TAP, com um qualquer governo, e o mais provável é ser do PSD, a ter de reestruturar a empresa e a tomar medidas impopulares. 

Uma companhia com uma história de 75 anos, que leva o nome de Portugal além-fronteiras, está hoje transformada numa empresa que acumula prejuízos e deixa os passageiros em terra. De acordo com a consultora OAG, no ranking da pontualidade, a transportadora ficou, em setembro de 2019, no 162.º lugar em 166 companhias aéreas. 

A dívida da TAP ascende aos 786 milhões de euros e só graças às operações de financiamento junto dos mercados, duas emissões de obrigações, a primeira, em junho, que arrecadou 200 milhões de euros, e a outra, concluída no dia 22 de novembro, captou mais 375 milhões de euros junto de investidores institucionais, é que permitem a empresa manter-se à tona. A administração ainda se deu ao luxo de distribuir prémios de 1,17 milhões de euros a 180 quadros, mesmo perante os prejuízos declarados em 2018 de 118 milhões de euros.

A companhia registou 111 milhões de euros de prejuízos nos primeiros nove meses deste ano. Os custos com pessoal dispararam 250 milhões de euros. Apesar do crescimento no número de passageiros transportados (12,9 milhões entre janeiro e setembro de 2019, mais 868 mil do que período homólogo) e da expansão da frota com mais de 100 aeronaves, com a aquisição dos Embraer195 e 190 e dos A330-900neo, a TAP está, a cada dia que passa, a oferecer um serviço mais medíocre, nalguns casos a roçar a provocação. 

Os governos do PS são exímios em rebatizar aeroportos e infiltrar-se nas companhias aéreas como no caso da SATA nos Açores que, numa escala menor, depara-se com os mesmos problemas de ineficiência que a TAP. Adivinha-se que, afinal, como sempre, é para os contribuintes que vai sobrar a fatura a pagar por todo este regabofe!