Opiniao

O que temos a aprender com os derrotados da história

A dizimação dos indígenas da América do Norte constitui uma das grandes tragédias dos tempos modernos – e chamar-lhe dizimação não é exagero:estima-se que nove em cada dez nativos tenham morrido em consequência da colonização europeia. Além das populações, também a paisagem sofreu alterações radicais. Onde hoje há indústrias, arranha-céus, monstros de betão e vias rápidas de quatro faixas cheias de automóveis, espraiavam-se outrora grandes pradarias, erguiam-se bosques e florestas, passeavam manadas de bisontes, corriam regatos que o tecnicismo da civilização ocidental se encarregou de apagar da face da Terra.

Mas nem tudo se perdeu por completo e a cineasta e autora canadiana Teri C. McLuhan procurou resgatar ao oblívio o modo de vida dos índios, o seu olhar sobre o mundo e sobre o homem branco, recolhendo discursos, cartas e outros testemunhos de indígenas norte-americanos. O resultado é o livro A Fala do Índio (ed. Fenda), que leva o sugestivo subtítulo ‘Auto-Retrato da Vida os Povos Nativos da América do Norte’.

«Os índios falam por si mesmos da qualidade de vida que era a sua», descreve a autora na introdução. «Referem-se sempre com respeitosa atenção à natureza, aos animais, aos objectos que constituíam o território onde habitavam; não viam nenhum mérito no facto de imporem a sua própria vontade àquilo que os rodeava».

A mesma ideia surge de uma forma ainda mais incisiva no testemunho de uma «velha e sábia uintu», um dos mais eloquentes que se encontram no livro de McLuhan: «Quando nós caçamos, comemos toda a carne. Quando andamos à cata de raízes, fazemos na terra buracos pequenos. Quando construímos as nossas casas, fazemos buracos pequenos. Quando queimamos a erva por causa dos gafanhotos, não damos cabo de tudo. [...] Os índios nunca ferem nada, ao passo que o homem branco dá cabo de tudo. Faz explodir as rochas e deixa-as espalhadas pelo chão».

Um olhar um pouco mais crítico deteta nestas páginas um cenário demasiado idílico que não corresponderá completamente à realidade. Como todos os auto-retratos, também este terá a sua dose de idealização. A vida dos índios antes do encontro com o homem branco não estaria seguramente isenta de violência, de conflitos entre tribos, de atitudes menos nobres.

Em todo o caso, não há como ignorar o contraste entre a dignidade dos índios aqui plasmada e o salve-se quem puder do mundo contemporâneo. É verdade que os índios foram os perdedores, os grandes derrotados da História, mas às vezes é precisamente com esses que temos mais a aprender.