Internacional

França. Centenas de milhares contra reforma das pensões

Greve no setor dos transportes foi prolongada até segunda-feira. Houve momentos de tensão entre manifestantes e polícia.

Centenas de milhares de trabalhadores franceses, estudantes e membros do movimento Coletes Amarelos mobilizaram-se contra o projeto de reforma do sistema de pensões do Presidente francês, Emmanuel Macron. Foi a maior greve geral dos últimos anos em França, encerrando os transportes públicos e deixando as escolas, hospitais e outros serviços públicos a funcionar a meio gás. E promete continuar: a greve no setor dos transportes foi prolongada até segunda-feira.

A paralisação fez-se sentir fortemente em vários setores da economia francesa, principalmente nos transportes. Em Paris, apenas cinco das 16 linhas de metro funcionavam, a certa altura. Cerca de 90% das viagens de comboio TGV intercidades foram canceladas. A paralisação nos transportes públicos ocorreu ao longo de todo o país: Lille, Marselha, Bordéus, Nice e Estrasburgo.

A Air France também foi obrigada a cancelar 30% dos voos domésticos e 10% dos voos de curta duração para fora de França. Já a EasyJet cancelou 223 voos domésticos. E não foi apenas o setor dos transportes que foi afetado: nas escolas primárias a taxa de greve atingiu os 51,5% nas secundárias os 42,3%, segundo o Ministério da Educação francês. O Le Monde relata que alguns professores poderão continuar em greve esta sexta-feira.

Segundo a Confederação Geral de Trabalho - um dos sindicatos que convocaram a greve geral -, sete das oito refinarias de petróleo do país foram bloqueadas pelos trabalhadores, podendo causar a escassez de combustível.

O clima no início da greve era de alegria. Entre altifalantes estridentes, palavras de ordem contra Macron e fogo de artifício, uma maré de trabalhadores ferroviários, professores, estudantes, trabalhadores dos serviços de saúde e outros manifestantes marcharam pacificamente em direção ao boulevard de Magenta, Paris.

Mas para o final da tarde a tensão escalou na capital francesa e ocorreram, esporadicamente, alguns confrontos entre a polícia e os manifestantes. A polícia lançou gás lacrimogéneo e os manifestantes arremessaram objetos em resposta, sucedendo-se algumas cargas policiais.

Preparando-se para a greve, o Governo francês reforçou o número de agentes nas ruas em alguns milhares. De acordo com os números da polícia, as autoridades realizaram 9350 “identificações preventivas” só em Paris. Até às 17h00 foram detidas 71 pessoas.

Mobilizaram-se mais de 810 mil pessoas em cerca de 70 cidades, dizem as autoridades francesas - a CGT diverge nos números da autoridades, falando em 1,5 milhões de manifestantes por todo o país. Por sua vez, alguns sindicatos apelaram para que a greve se prolongue até Macron recuar na sua intenção de reformar o sistema de pensões.

Pensões 

A reforma do sistema de pensões é a “menina dos olhos” de Macron, estando já prevista no seu programa eleitoral. O Presidente francês quer unificar os 42 sistemas de pensões, diferentes consoante a profissão, num só gerido pelo Estado. Embora ainda não sejam conhecidos muitos detalhes sobre o projeto, Macron quer que os trabalhadores acumulem pontos ao longo da sua carreira, o que determinará quanto dinheiro recebem, conforme os dias de trabalho. No setor privado, atualmente, as pensões são contabilizadas a partir dos 25 anos de maiores vencimentos. No público, contabilizam-se os vencimentos dos últimos seis meses de trabalho.

O chefe de Estado francês garante que o seu sistema é mais justo. Porém, essa não é a visão de muitos trabalhadores, que temem ter de trabalhar mais anos para obterem uma pensão equivalente ao atual sistema. Uma sondagem da Ifpo demonstra que 76% dos franceses acreditam que o sistema de pensões tem que ser reformado, mas 64% não acha que Macron seja capaz de a levar avante.