Opiniao

Uma pobre menina

Uma leitora do SOL, que vive no interior do país, enviou-me o seguinte email: «O interior tem muita pena da pequena Greta. Coitada! Que falta faz cuidarem dela e não exporem uma criança a tamanho mediatismo. Quem ousa falar disso?».

Pela mesma altura, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, afirmava na TV que a ação de Greta Thunberg é muito importante pois chama a atenção dos jovens para as questões ambientais.
Comecemos por aqui.
Que chama a atenção dos jovens, não tenho dúvidas.
Mas o que resulta disso?
Resulta terem mais preocupações ambientais?
Greta culpou as gerações anteriores por terem deixado chegar o planeta ao estado a que chegou.
Mas a sua geração está a poluir menos a Terra do que a geração dos seus pais?
Ou está a poluir mais?

Julgo que não há dúvidas: hoje os jovens poluem muito mais o ambiente do que os pais o faziam.
Porque consomem muitíssimo mais.
Se se disser a um dos jovens que foram esperar ou se foram despedir de Greta: «A partir de hoje não usas telemóvel, não usas computador, não vês televisão, não consomes roupa de marca, não comes bifes nem hambúrgueres, não andas de carro nem de mota, não vais viajar de avião nas férias», o que ele dirá?
As preocupações ambientais de muitos jovens não passam de uma moda sem consequências.
São folclore.

Mas o problema não são só dos jovens.
Nas últimas décadas houve um desenvolvimento brutal em várias regiões do globo, designadamente nalguns países asiáticos, a começar pela China, com muitos milhões de pessoas a ascenderem à classe média.
Mesmo em África, apesar do desenvolvimento muito mais lento, houve progressão social em algumas áreas.
Ora, essa gente que em todo o mundo subiu à classe média passou a consumir muito mais a todos os níveis – com as consequências que daí decorrem para a poluição resultante da produção, por um lado, e resultante do lixo, por outro.
Já se pensou, por exemplo, o que representa o crescimento exponencial do número de automóveis no mundo nos últimos vinte anos?
E o crescimento brutal das viagens de avião no mesmo período? 

Assim, pode dizer-se que a Humanidade está a poluir hoje o planeta a um ritmo muito mais acelerado do que há uma geração.
A grande ilusão é pensarmos que, por haver hoje mais preocupações ambientais do que no passado, estamos a poluir menos.
Que o problema é o passado, pois hoje as coisas mudaram.
Ora, esta ideia é completamente falsa.
Apesar de certos cuidados que já existem em algumas zonas, como a separação do lixo, polui-se na atualidade infinitamente mais do que em qualquer outra época.
Estamos a poluir a um ritmo uniformemente acelerado.
O que poupamos com certos cuidados ambientais representa um décimo daquilo que poluímos a mais com o aumento da produção e do consumo. 
O saldo é amplamente negativo.

Por isso, casos como o de Greta são puros fenómenos de marketing.
Um marketing que até pode ser negativo.
De facto, ao vir de barco para Portugal, Greta falhou vários compromissos que tinha, tais como uma ida à Assembleia da República.
Perante isto, o que pensam as pessoas?
Que, se querem cumprir os compromissos, não podem seguir os devaneios de Greta e andar de barco e comboio em vez de avião.
O ‘exemplo’ que Greta queria dar funcionou exatamente ao contrário. 

Há outra coisa que me incomoda nesta história da Greta.
Ela faz-me lembrar aqueles meninos cantores, que a família explora – e que muitas vezes se tornam uns adultos desgraçados. 
Ou aqueles macaquinhos que andam de feira em feira a fazer piruetas.
Certas associações ambientais viram que Greta, por ser uma criança, por ter problemas, podia ser um fenómeno mediático a explorar.
Podia ser um filão.
E ela, coitada, salta de terra em terra pelo mundo fora a cumprir agendas, a aturar gente que não conhece, a ter de fazer discursos perante plateias que não lhe dizem nada, a não se dar com os meninos da sua idade, a não estudar.
Greta é um daqueles fenómenos globais pelos quais não tenho nenhuma simpatia.
Por trás dela movem-se hoje poderosos interesses, uns legítimos e bem-intencionados, outros nem tanto.
Mas numa coisa todos são coincidentes: exploram aquela menina até ao tutano.