Opiniao

A saúde versus regionalização...

Com tiques ideológicos que parecem do regime cubano ou venezuelano, Marta Temido tem-se afirmado um desastre.

Com os problemas que grassam nos hospitais públicos - e ainda mal começou a corrida às urgências com a gripe sazonal -, a realidade nunca esteve tão próxima da frase feita: a saúde está doente.

Nem nos tempos austeros da troika - geridos no ‘fio da navalha’ por Passos Coelho, herdeiro de um país falido por conta dos governos socialistas de José Sócrates - se viveu uma situação tão deplorável como aquela que hoje fragiliza a saúde dos portugueses, sobretudo dos mais vulneráveis, sem hipótese de recorrer aos hospitais privados ou à ADSE do funcionalismo público.

O caos instalou-se nos hospitais públicos a tal ponto que até já inquieta alguns socialistas que, para polirem a consciência, fazem um ato de contrição - como Carlos César e Ana Catarina Mendes, ao admitirem que as coisas vão mal no SNS. A líder parlamentar confessou mesmo, em entrevista à revista Visão, que lhe chegam «todos os dias relatos de algumas falhas no SNS».

Ou seja, onde o partido parece alarmado, o Governo está ausente. Um paradoxo. 

O retrato atual da rede hospitalar pública é assustador: cirurgias e consultas com meses e anos de espera, urgências fechadas por falta de médicos, doentes oncológicos que definham - com intervenções adiadas e sem acesso a tratamentos inovadores -, e até um aumento invulgar de mortes de parturientes, quando se tinham alcançado progressos assinaláveis na área maternoinfantil. 

Perante este sombrio quadro de rutura - ditado pelas cativações cegas das Finanças e pela demagogia da lei das 35 horas, recuperada por António Costa logo no início da ‘geringonça’ -, o futuro do SNS apresenta-se seriamente abalado.

Como as falhas já não são disfarçáveis, apesar do silêncio cúmplice do PCP e do Bloco de Esquerda - corresponsáveis pela aprovação de sucessivos Orçamentos de Estado que sabiam de antemão não ser para cumprir -, permanece em cena uma inenarrável ministra da Saúde que insiste em desmentir o óbvio e promete o que não pode. 

Marta Temido começou por ser um ‘erro de casting’ no anterior Governo, para substituir Adalberto Campos Fernandes, sabedor mas politicamente fraco, incapaz de afrontar o seu colega Mário Centeno, que lhe asfixiava o Ministério com cortes a esmo. 

A ministra quis, primeiro, lançar uma ‘cortina de fumo’, ao despejar na ‘cesta secção’ o estudo elaborado por uma comissão coordenada por Maria de Belém, partindo para uma nova lei de bases da saúde para ganhar protagonismo e deitar ‘poeira para os olhos’.

Com tiques ideológicos que a recomendariam mais para regimes do tipo cubano ou venezuelano, a ministra reconduzida tem-se afirmado um absoluto desastre.

Quando está em causa a saúde e a vida das pessoas, Marta Temido adota um discurso redondo e inconsequente, e fala como se nada fosse com ela e os hospitais públicos respirassem saúde e não estivessem a ‘rebentar pelas costuras’. 

A cultura ‘negacionista’ da governação do PS, pelo menos desde o tempo de Sócrates, consiste em desmentir até ao limite mesmo o que salta à vista, como se o país fosse habitado por tolos. 

Para isso conta, também, com gente ‘plantada’ nas televisões e prestáveis agências de comunicação, que procuram baralhar a opinião pública. E abafar as poucas vozes discordantes. 

Essa estratégia de gerir o poder pelo poder já lançou o país na bancarrota, em 2011, e poderá atirá-lo novamente contra a parede. Há dinheiro para financiar ‘barracas tecnológicas’ como a Web Summit, ou um patusco pavilhão de gelo em Lisboa, anunciado por um governante, mas falta para pagar aos fornecedores dos hospitais, que desesperam.

O ilusionismo de António Costa, servido por muita gente que serviu José Sócrates, poderá precipitar outra crise séria a curto prazo, quando se esgotarem os truques para mascarar as evidências. E por muito que a maioria dos media queira encobri-lo, é impossível ‘tapar o sol com a peneira’. 

A dívida pública portuguesa fixou-se, em outubro, nuns astronómicos 251,4 mil milhões de euros, segundo o Banco de Portugal. 

E não será lançando mão à regionalização ‘de secretaria’, para animar Rui Rio e satisfazer caciques, que o Governo iludirá a degradação que está a contaminar importantes setores. 

O Presidente da República não vai ter um final de mandato tranquilo, como desejaria, para preparar meticulosamente a recandidatura. E se não for capaz de distanciar-se da espessa opacidade governativa, será também vítima dela. 

É o caso da regionalização encapotada, com a qual António Costa tenta driblar Marcelo - como se escreveu neste jornal -, sobraçando o estudo da comissão pseudo-independente liderada por João Cravinho.

Marcelo sempre foi contra a regionalização, e o desfecho do referendo realizado em 1998 deu-lhe razão. Mas o PS e os seus prosélitos não desarmam. Querem impor as regiões administrativas sem repetir a consulta referendária, com medo do resultado. 

E confiam que o Presidente não seja capaz de dar ‘um murro na mesa’ para pôr termo a tal leviandade. De facto, no recente encontro dos autarcas, Marcelo lá foi dizendo que seria «pôr o carro à frente dos bois», embora não rejeite uma espécie de ‘meia regionalização’.

Ora, se o Presidente não se opuser, sem tibiezas, estará a cometer um erro, a juntar à sua passividade na substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago na PGR, cuja ação está nos antípodas da sua antecessora. 

Costa precisa urgentemente de inventar qualquer coisa para contrapor ao descalabro do SNS. Com a regionalização, não apenas desvia o foco das atenções como serve os ‘lobismos’ partidários, criando mais jobs for de boys. E monta uma armadilha à vontade e à coerência do Presidente. 

Depois, não hesitará em afirmar, sem se rir, que a regionalização se fará - como a lei das 35 horas para o funcionalismo -, sem agravamento da despesa pública. E quem vier atrás que feche a porta…

Nota em rodapé: Depois de entrar em contramão com o caso do lítio, o ministro do Ambiente lembrou-se de escrever uma carta à adolescente sueca, inventada pelos media como ativista do clima, e embarcada num veleiro que aportou a Lisboa. A carta, de sabor paternalista («Querida Greta, bem-vinda a Portugal (…) Estamos gratos pelo teu ativismo»), é um hino ao ridículo e um pretexto para invocar os feitos ambientais portugueses. Este Governo está a perder o pé. E não dá por isso….