Opiniao

Greta, ativismo e oportunismo

A jovem Greta Thunberg está na ordem do dia. A emergência climática, a sua atitude, a comunicação social e os políticos colocaram-na em destaque. Entre a pertinência das suas preocupações ambientais, a idolatria com que muitos a seguem e o oportunismo de muitos políticos, os seus gestos e as suas palavras ganharam atenção planetária.

Ao contrário do registo que normalmente utilizo nos textos aqui publicados, desta vez não resisto a partilhar um registo mais pessoal.

Em 1992, tinha 22 anos quando embarquei no Lusitânia Expresso rumo a Timor, pouco tempo após o massacre de Santa Cruz em que centenas de timorenses foram assassinados por militares indonésios. Nessa ocasião, umas dezenas de jovens portugueses e de vários países do mundo juntaram-se com o objetivo de desembarcar em Timor-Leste, então ocupado pela Indonésia. Pretendíamos chamar a atenção da comunidade internacional para a repressão e violações dos Direitos Humanos que se verificavam. Éramos um conjunto de jovens unidos pela defesa dos Direitos Humanos e empenhados em lutar por um mundo mais justo. De certa forma, quisemos ajudar um povo na sua luta perante a indiferença dos políticos de todo o mundo e embarcámos contra as poderosas forças armadas da Indonésia. Também éramos jovens estudantes ‘contra’ os políticos e ‘contra’ a indiferença do mundo. Curiosamente também fomos de barco…

Por tudo isto, quando observo a iniciativa de Greta Thunberg reconheço os aspetos positivos do inconformismo da juventude perante um mundo que deseja melhor. Muitas vezes vemos com preocupação uma certa indiferença dos jovens, algum individualismo e o afastamento da política. Pois bem, a preocupação com as alterações climáticas é um excelente motivo para o envolvimento e empenho dos jovens. Afinal, é o futuro do mundo que está em causa.

Mas não resisto a referir outros bons exemplos de intervenção dos jovens, que infelizmente têm menos visibilidade mediática, mas talvez tenham mais resultados concretos: a participação em missões de apoio humanitário em países com pobreza extrema ou o voluntariado em instituições de apoio social são excelentes demonstrações de ativismo a favor de um mundo melhor – a fome e as desigualdades também devem ser uma preocupação mundial e contar com o empenho de todos.

Regressando ao fenómeno Greta Thunberg, as alterações climáticas são uma realidade e as suas consequências podem colocar em causa a sobrevivência da humanidade se não forem tomadas as medidas necessárias. Tudo está atestado por um larguíssimo consenso científico, mas persiste a falta de compromisso e empenho para alterar o rumo. Perante esta incapacidade de agir, a reação natural é a contestação. É animador, por isso, verificar a adesão de tantos jovens a esta causa.

No entanto, parece que rapidamente se estão a apropriar das originais boas intenções (quero crer) da jovem sueca e ela própria parece estar a evoluir para um discurso radical e ideológico ‘à boleia’ da intervenção ambiental.

Por um lado, os políticos, uns por má consciência outros por puro oportunismo, dividem-se entre as críticas e a descarada ‘colagem’ a Greta Thunberg. Por outro lado, partidos e movimentos extremistas aproveitam o ativismo dos jovens para misturar ao tema outras questões e uma componente ideológica que não é legítima. É sobretudo por isto que Greta tem razão ao afirmar que os políticos estão a estragar o futuro.

A questão das alterações climáticas é demasiado importante e complexa para ser apropriada por uns e rejeitada por outros e não pode ser pretexto para tentativas de desconstrução social ou de radicalização. O que está em causa é o futuro de todos e ninguém se pode apropriar ou se deve excluir.