Opiniao

Não interessa como começa, mas sim como acaba

O atual Governo ainda não passou o habitual período de graça dos 100 dias, mas já deu para perceber que este mandato não está a começar muito bem.

Os otimistas, mais ou menos irritantes, dirão que «não interessa como começa, mas sim como acaba», os pessimistas (ou realistas) dirão que «não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão» e a impressão que até agora foi passada não abona muito sobre o sucesso futuro do executivo.
Nada que não fosse previsível para os observadores mais atentos.

O primeiro Governo de António Costa conseguiu construir uma narrativa de sucesso e de alternativa à política de austeridade do Governo de Passos Coelho, usando os reequilíbrios que a intervenção financeira externa impôs ao país e que estavam em vias de ser ultrapassados em 2015 e, porque beneficiou de uma conjuntura externa excecional (só a baixa de juros é responsável por dois pontos percentuais da descida do deficit) a economia portuguesa registou resultados muito interessantes no plano do controlo orçamental o que agradou, nomeadamente, aos mercados financeiros.

Mas começa agora a perceber-se que a austeridade não desapareceu e que a ilusão da recuperação dos rendimentos e da reversão das medidas mais impopulares, só foi possível com uma subida brutal da fiscalidade indireta e com a cativação de despesa que foi erodindo os serviços públicos até um limite que já é percetível pela opinião pública.
É conhecido, e todos os estudos de opinião demonstram, que os portugueses (como os outros povos aliás) são mais sensíveis a um pequeno aumento de rendimento que lhes entra nas carteiras, do que a uma tributação indireta que lhes elimina esse desafogo ou a uma degradação de serviços públicos que só é verdadeiramente sentida, mais tarde, quando a situação atinge um estado de quase não retorno.

A estabilidade financeira e orçamental, associada a um bem sucedido controlo da taxa de desemprego, muito dependente de salários baixos e de uma boa conjuntura no turismo, sobretudo na restauração, embora irrepetível, é verdadeiramente o único legado do Governo da ‘geringonça’.

Nada de estrutural foi concretizado (no domínio da saúde, das escolas, dos transportes, da habitação social e, nomeadamente, da segurança social) que constitua garantia que o país reagirá bem a uma conjuntura externa diferente e menos amiga do crescimento, ou a uma alteração significativa dos equilíbrios partidários que liberte o movimento sindical das suas amarras e (ou) não impeça novos e menos controláveis protagonismos na área da contestação social.
Por isso é que o resultado eleitoral do PS, em Outubro passado, constituiu um poucochinho que dificilmente será suficiente para evitar que, ao longo dos próximos quatro anos, se venham a verificar períodos de grande instabilidade.
Aparentemente a ‘geringonça’ terminou, embora se esteja a tentar construir uma nova ‘carripana’ que, com mais ou menos esforço, possa continuar a levar a carta a Garcia.

Mas as coisas mudaram; mudaram internamente e vão rapidamente mudar na conjuntura externa, como inevitavelmente resultará da crise de crescimento das principais economias europeias, da mudança de política do BCE indispensável para poder ser aprovado o terceiro pilar da União Bancária que foi, sibilinamente, anunciada nestes dias pela sua nova Presidente, e pela inevitabilidade de a União Europeia entrar em contenção financeira, estabilizando os pacotes de ajudas aos países mais necessitados, pelos níveis do MFF aprovados para o período 2014/2020.
Pode assim estar próximo um momento de verdade na política portuguesa e, porque, aparentemente, alguns já o intuíram, tem-se multiplicado as tentativas de encontrar bodes expiatórios ou de denunciar, com veemência e escândalo, o que há apenas três meses não se reconhecia, porque a maioria vivia num estado de negação impenetrável para qualquer crítica ou confronto com a realidade.

O SNS, ou melhor o estado da saúde em Portugal é, provavelmente, o melhor exemplo da política de mentira e manipulação em que se transformou a apregoada cruzada da devolução de rendimentos.

Nos transportes a situação não é melhor, embora neste caso a deterioração seja amordaçada pelo controlo que um partido da geringonça faz neste setor, mas que é significativamente revelada quando os objetivos mais mediáticos da estratégia de médio prazo da CP, passam (só) por fornecer transporte a horas e comboios limpos.

As famosas reformas que todos reclamam e o Governo promete, sem se perceber muito bem em que sentido e com que objetivos, não são conhecidas nem saem do papel e a julgar pelos compromissos já assumidos com Bruxelas, ou pelo que se conhece da proposta de Orçamento, ficarão mais alguns anos à espera.

Neste quadro, dificilmente se poderá causar uma primeira boa impressão e, por isso, não é de surpreender que tenha sido finalmente aberta a caça ao Centeno, estratégia que foi prevista neste espaço (crónica De que ri Mário Centeno? publicada em 09/11) e era perfeitamente antecipável face à despromoção e humilhação de que o ministro das Finanças foi vítima na formação do Governo.

Prosseguindo com otimismo, se calhar irritante, que neste caso significaria irresponsabilidade, podemos continuar a cantar com Chico Buarque, «foi bonita a festa, pá, fiquei contente» mas, pelo sim ou pelo não, convém que o Governo se fixe, finalmente, numa estratégia que permita que tudo acabe bem, mesmo quando começa muito mal.