Opiniao

De fugitivos a domadores de tigres

É muito fácil para um jovem de hoje ficar-se pela sua zona de conforto, normalmente castradora de experiência.

O medo acompanha o Homem desde os seus primórdios, tendo sido uma importantíssima ferramenta de sobrevivência. Ainda assim, se antes o medo e os obstáculos permitiam que evitássemos uma qualquer fatalidade ou mal maior, hoje julgo que seja mais complexo do que isso.

Apesar de existirem inevitáveis desafios e adversidades, a maioria das pessoas, e em especial os jovens, confrontam-se com tomadas de decisão, pressões sociais e outros, mais do que situações em que a dignidade ou vida humanas estão em causa. Posto isto, sou da opinião que faz sentido hoje alterar o chip mental, de um programa cerebral de sobrevivência, para um programa de vivência.

É muito fácil para um jovem, hoje, dada a melhoria generalizada das condições, ficar-se pela sua zona de conforto. Estas são normalmente castradoras de experiência, conhecimento e representam uma postura aquém das suas capacidades. 
Por estar seguro de que a adversidade constrói o caráter, defendo a exposição dos jovens ao desconforto, aos desafios e a oportunidades. A aprendizagem e experiência que deriva desses momentos resulta em valor acrescentado para o mercado de trabalho, na forma de capacidade para resolver problemas e em perseverança, capacidades absolutamente necessárias para o sucesso em qualquer função ou empresa.

Se observássemos um ser humano, no seu estado primitivo, a deparar-se com uma ameaça letal, como por exemplo um tigre, muito provavelmente veríamos um primeiro momento no qual o Homem ‘congela’, observando a presa enquanto avalia as suas possibilidades. Não tendo capacidade aparente para o enfrentar, o Homem fugiria e, quando sentisse ser inevitável ser apanhado, entraria em modo de ataque, com todas as forças, pois qualquer outra alternativa o conduziria a um sono profundo. Este é um completo exemplo de reação. 

No nosso confronto com os nossos ‘tigres’, defendo que a responsabilidade sobre a reação e, consequentemente, do desfecho, é inteiramente do indivíduo. Consequentemente, é inteligente da parte de um qualquer estudante antecipar os seus confrontos, preparando-se da melhor forma possível. Não nos iremos deparar diariamente, à partida, com situações de absoluta exceção como é o caso de um tigre. Na verdade, a maioria dos desafios são relativamente previsíveis: globalização, crescente ritmo de mudança e inovação, revoluções tecnológicas em cascata, por aí em diante.

Convido qualquer pessoa, em especial os jovens, a perspetivarem os seus medos e receios como sendo um fator determinante da forma que as suas reações tomam, por oposição a um fator de conteúdo. Quero com isto dizer que sou da opinião que, perante o receio, o julgamento binário da circunstância não seja exatamente sobre avançar ou recuar, fazer ou não fazer. Acredito sim que deve influenciar a forma como nos preparamos e atuamos perante a adversidade, para que passemos de fugitivos a domadores de tigres.