Opiniao

‘Não são permitidas visitas turísticas à biblioteca’

Chegou a ser o principal edifício da antiquíssima Universidade de Bolonha. Hoje, o Archiginnasio, um palácio do século XVI organizado em torno de um pátio central, alberga a biblioteca municipal daquela cidade italiana. O acervo inclui dois mil incunabula (o nome que os especialistas dão aos livros impressos até ao dia 31 de dezembro de 1500) e 15 mil volumes do século XVI.

Mas essas preciosidades não estão à vista de todos. No piso superior do claustro, um letreiro à entrada avisa em duas línguas: ‘Non sono consentite visite turistiche alla biblioteca’, ‘No tourists allowed in the reading room’ – o que, como se pode imaginar, me deixou muito desgostoso.

O nosso objetivo no entanto era outro: conhecer o Teatro Anatómico, uma espécie de aula, situada no piso superior do claustro, onde outrora se realizavam dissecações de cadáveres para instrução dos alunos de Medicina.

Perguntando na bilheteira como poderíamos visitá-lo com um carrinho de bebé, o funcionário explicou-nos que, para não termos de carregar o carrinho escada acima, deveríamos sair do edifício, entrar na primeira porta à direita, que pertence ao Museu Arqueológico, e subir no elevador. Assim fizemos. Para nossa surpresa, ao saírmos do elevador estávamos em plena sala de leitura da Biblioteca do Archiginnasio! De passagem, ainda conseguimos espreitar outras dependências mais pequenas, dominadas por aquela feliz combinação entre a madeira das estantes, o couro das lombadas e o papel das páginas dos livros. À saída daquelas salas, li com satisfação o letreiro: ‘No tourists allowed in the reading room’.
Já o Teatro Anatómico, onde pelo contrário os turistas são bem-vindos, consiste de um pequeno anfiteatro também forrado com painéis de madeira e decorado com esculturas, igualmente de madeira, de médicos célebres. A começar por Hipócrates e Galeno, e passando pelo bolonhês Gaspare Tagliacozzi (1545-1599), pioneiro da rinoplastia, cuja figura de madeira segura um nariz entre os dedos. Ao centro do anfiteatro, a mesa das autópsias, rodeada de uma balaustrada que faz lembrar um féretro...

É estranho pensar que este belo conjunto já esteve feito em pedaços. «Na manhã de 29 de janeiro de 1944, 40 aviões do 301.º Grupo de Bombardeiros da força aérea norte-americana descolaram da base de Crignola com o objetivo de bombardear Prato», explica um painel informativo na parede do Teatro Anatómico. Ao aproximarem-se da cidade de Prato, porém, os aviões americanos depararam-se com nevoeiro. Foi decidido, por isso, dirigirem-se para o alvo alternativo, onde havia uma visibilidade perfeita. E assim despejaram sobre a vetusta Bolonha perto de 500 bombas, num total de 117 toneladas de explosivos.

«Os danos materiais foram pesadíssimos», continua a nota informativa, «tanto no património bibliotecário como na estrutura arquitetónica e nas decorações históricas».

Churchill bem tinha avisado quando Mussolini declarou guerra à Grã-Bretanha, em junho de 1940: «Aqueles que visitarem Itália já não precisarão de ir a Roma e a Pompeia para ver ruínas».