Opus Dei atira sobre Maçonaria

Opus Dei distancia-se da Maçonaria na semana em que o PAN apresentou um projecto de lei para que os políticos declarem a ligação a ‘organnizações de caráter discreto’. 

OOpus Dei não quer ser envolvido na polémica sobre as ligações dos políticos a sociedades secretas e muito menos ser confundido com a maçonaria. Com esse objetivo, na semana em que o PAN avançou com um projeto de lei para que os políticos declarem a ligação «a organizações ou associações de caráter discreto», publicou, na página na internet, vários documentos a distanciar-se da maçonaria e a recordar que as associações maçónicas são «inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas». 

São «três pontos sobre Igreja e associações maçónicas» que recomendam documentos e livros sobre a natureza do Opus Dei. Um dos mais importantes, publicado em 1983, é uma declaração sobre a maçonaria em que a Igreja esclarece que «os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão». 

O Opus Dei começa por esclarecer que a pertença à instituição e «a participação na sua formação religiosa são contrários a qualquer tipo de segredo» e que «os encontros de formação religiosa estão abertos a todos, sem necessidade de qualquer convite prévio». 

A discussão sobre a ligação entre políticos e a maçonaria foi reaberta na campanha interna do PSD. Rui Rio associou a maçonaria a «interesses secretos e obscuros». OPAN aproveitou a boleia e apresentou um projeto de lei, na Assembleia da República, para que os titulares de cargos políticos e altos cargos públicos declarem a «filiação ou ligação a organizações ou associações de caráter discreto». O diploma lembra que várias personalidades já se mostraram favoráveis a este modelo. «À época, por exemplo, Augusto Santos Silva afirmou que ‘quem não estiver em condições de poder revelar este tipo de interesses não tem condições para o exercício de cargos públicos». 

AoSOL, André Silva explica que «não é concebível, no século XXI,  que pessoas que pertençam a sociedades secretas ou discretas, que são caracterizadas por fortes hierarquias e por um enorme secretismo ou uma enorme opacidade não declarem aos seus eleitores que a elas pertencem». 

Igreja terá uma palavra a dizer

Confrontado com a proposta, o Opus Dei diz que «vai ter a posição que, sobre isso, a Igreja Católica» vier a tomar. «Isto porque esta proposta, para dizer respeito ao Opus Dei, será por abranger a pertença a instituições católicas. Ora o regime legal das instituições católicas tem de respeitar a Concordata celebrada entre o Estado português e a Santa Sé. Por isso, a Igreja terá uma palavra a dizer», afirma Pedro Gil, diretor do gabinete de comunicação. 

Pedro Gil diz ainda  ao SOL que «as pessoas do Opus Dei não só querem total liberdade para falar da sua fé e da sua pertença ao Opus Dei, sem segredos nem restrições, como a exercem com facilidade e frequência».

OOpus Dei rejeita qualquer associação a práticas secretas e desafia todos os que tenham dúvidas «a que falem connosco, por exemplo, através das dezenas de contactos, em todo o país, que se encontram no site ou através da Conferência Episcopal Portuguesa ou da Nunciatura Apostólica». 

O antigo deputado do CDS Raúl de Almeida vai mais longe e considera que a proposta do PAN «é de uma ignorância assustadora, ou má fé condenável». Num texto publicado na sua página do Facebook, o ex-deputado centrista insurge-se contra os que querem meter a maçonaria e o Opus Dei «no mesmo saco» e apela a que esta questão seja discutida com seriedade. «Pode-se apenas dizer que a sua prática e pertença [da maçonaria], mais que discreta, é secreta (…) Já o Opus Dei, por muita desinformação que tentem alguns agentes veicular, é perfeitamente transparente. Poderá ser discreto, mas nada tem de secreto. Rege-se por princípios e regras conhecidos de quem tiver interesse em conhecer, de acesso público e irrestrito. Pertencer a um movimento de Igreja, não pode ser fator de discriminação», escreve.  

Maçons contra discriminação 

A maçonaria defende que os maçons devem assumir, sempre que possível, a sua ligação à instituição. Rejeita, porém, que os políticos sejam obrigados a fazê-lo. «Seria um disparate. Essa proposta abre a porta a que os políticos sejam obrigados a declarar a que religião ou a que clube de futebol pertencem», diz ao SOL um antigo dirigente da maçonaria regular.

O grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) assumiu uma posição sobre esta matéria em 2012 quando rebentou o escândalo com a Loja Mozart. Fernando Lima defendeu que os maçons não podem ser alvo de «discriminação» e argumentou que Itália foi condenada pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem por aprovar uma lei, em 2000, que obrigava os candidatos a cargos públicos «a declararem a sua pertença a associações maçónicas». Numa entrevista ao i, o grão-mestre do GOL defende que «os maçons se assumam se assim o entenderem», mas mostrou-se «frontalmente contra a obrigatoriedade da declaração de ser maçom. Isso é inconstitucional e vai contra todas as convenções europeias».

Apesar de estar longe de ser consensual, a proposta do PAN pode vir a contar com o apoio do PSD se Rui Rio for reeleito para a liderança. O atual presidente do PSD considera que é uma proposta interessante. «Se estamos a falar em matérias de transparência, e toda a gente enche a boca com a transparência, acho que é transparente toda a gente dizer aquilo a que pertence, principalmente quando aquilo não é transparente».

O presidente da Associação Cívica Integridade e Transparência também apoia a proposta, mas considera que os políticos devem declarar todas as organizações a que estão ligados. João Paulo Batalha defendeu, em declarações ao i, que deve estar «registado se a pessoa é sócia do Benfica ou do Sporting ou dos bombeiros locais». Ou seja, deve ser aplicado «a todas as organizações e obviamente também à maçonaria e ao Opus Dei».

O constitucionalista Vital Moreira também apaudiu a proposta do PAN. «Na verdade, penso que integração de ‘irmandades’ com alto grau de solidariedade pessoal entre os seus membros constitui um risco sério para a isenção e a imparcialidade no exercício dos cargos públicos», escreveu, no blogue Causa Nossa, o ex-eurodeputado do PS.