Internacional

A ‘Las Vegas do Oriente’ é herança acidental

O jogo, uma antiga paixão chinesa, foi legalizado em 1849 pela administração colonial.


Em vinte anos de administração chinesa, a Região Administrativa Especial de Macau ultrapassou Las Vegas como maior centro de jogo do mundo. Só entre janeiro e novembro deste ano, os casinos macaenses faturaram o equivalente a uns astronómicos 30,28 mil milhões de euros – ainda assim uma quebra de 2,4% em relação ao ano passado. Macau beneficia de ser o único território onde os casinos são legais, num país em que o jogo é uma paixão. «Faz parte da cultura chinesa. É como o futebol na cultura portuguesa. É normal jogar, ir a casinos», explica Jorge Godinho, especialista em direito do jogo e autor de Os Casinos de Macau, da Almedina.

Contudo esta indústria acabou por ser uma herança acidental portuguesa: foi em 1849 que foi legalizada, pela administração colonial. O motivo? «Não tenho nenhuma dúvida, foi uma crise económica», explica Godinho – era uma forma rápida de aumentar o rendimento. Ao mesmo tempo, na China continental o jogo alternava entre a proibição e legalização pelo poder central. Mas tudo mudou com a chegada ao poder do Partido Comunista chinês, de Mao Tsé-Tung, que proibiu definitivamente a prática. «Certos vícios, como o jogo e consumo de droga, tinham de ser erradicados a qualquer custos, com penas severíssimas», explica.

‘Grande salto em frente’

Contudo, foi no início da década de 2000, após a transição de colónia portuguesa para território chinês, que o jogo em Macau deu «um grande salto em frente», nas palavras do especialista. Por um lado, acabou o monopólio da indústria, controlada quatro décadas pelo bilionário hongconguês Stanley Ho – a família é dona do Casino Lisboa, Casino Estoril e Casino da Póvoa –, abrindo caminho a investidores de todo o mundo. Por outro, foram facilitados os vistos para turistas da china continental – só em 2018 Macau recebeu 20 milhões.

O reverso desta enorme receita que entra através dos casinos, bem como da hotelaria e restauração, é a absoluta dependência económica do jogo. «Se um dia houver um problema qualquer com esta indústria, não sei de que é que as pessoas viveriam em Macau», alerta Godinho. Afinal, mais de 90% do rendimento dos cerca de 600 mil macaenses vem do setor terciário – e quase de metade dele vem do jogo.

Conquistada ao mar

Se Macau se tornou a capital mundial do jogo, foi muito graças aos mais de 10 km2 que conquistou ao mar. Durante os vinte anos de administração chinesa, aumentou o seu território quase um terço. Vários dos gigantescos casinos que marcam o horizonte de Macau foram construídos nestes terrenos. Mas estes também serviram para responder às crescentes necessidades habitacionais do território, que está em rápido crescimento demográfico: em 1999, no ano da transição, tinha apenas 430 mil residentes.

Muitos deste crescimento é fruto da imigração. Alguns vêm da China continental, mas muitos outros são «tailandeses e filipinos, que funcionam como estrutura migrante para a restauração e a segurança», nota Carlos Piteira, investigador do Instituto do Oriente. Já os portugueses estão presentes sobretudo na indústria do jogo como técnicos superiores, nota Godinho, lembrando que é uma comunidade com elevado grau de instrução, que, historicamente «sempre foi próxima do poder» em Macau. Já os cargos de direção nos casinos são sobretudo reservado a chineses do continente, leais à administração central em Pequim.

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