Olhar ao Centro

Argélia e Marrocos: parceiros de Portugal

Quem acompanha o fenómeno das migrações – e não apenas no pilar securitário –, sabe que Marrocos pode vir a transformar-se num país emissor de migrantes para a Europa por via do território português. Não foi a chegada de poucos marroquinos recentemente ao Algarve que fez despoletar a atenção para a atractividade portuguesa.

"Ser cristão é um risco, ser humano é um grande risco".

Tolentino Mendonça

Cardeal

 

Portugal não tem dado a atenção devida ao que tem acontecido em matéria de política doméstica em países como a Argélia e Marrocos.

Países que estão muito perto de nós e que têm mais interdependências connosco do que outros países membros da União Europeia.

Em vários domínios, desde logo na dependência energética (sobretudo gás, no caso da Argélia); e, como recentemente se constatou, na questão das migrações (caso de Marrocos).

Distraídos e habituados a algum desdém mediático por aquilo que não enche páginas de jornais, e dominados pelo politicamente correcto, esquecemos o que acontece em países como os dois citados, negligenciando a importância das relações económicas, sociais, políticas e diplomáticas com eles.

A Argélia tem sido – e é – um dos países com quem Portugal (e várias das suas empresas) tem melhor relação. A nossa dependência energética em relação à Argélia é muito grande: compramos-lhe metade do gás de que necessitamos. E são muitas as empresas portuguesas presentes no mercado argelino para fazer de tudo um pouco: hospitais, escolas, estradas, etc.

E não só nós. A Europa como um todo também depende em parte do petróleo e do gás que compra àquele país do norte de África.

Uma Argélia instável será para Portugal um problema grave, com implicações de índole política, económica, social, etc.

Uma Argélia instável será também um caos para a Europa e a União Europeia. No caso da energia, tal será catastrófico economicamente. Assim como no desenvolvimento de políticas conjuntas de combate ao fundamentalismo, ao radicalismo islâmico e ao terrorismo.

Por outro lado, Marrocos instável pode transformar Portugal num país de atração fácil para migrantes marroquinos de caráter ilegal, com as consequências daí derivadas ao nível da segurança e da coesão social.

Quem acompanha o fenómeno das migrações – e não apenas no pilar securitário –, sabe que Marrocos pode vir a transformar-se num país emissor de migrantes para a Europa por via do território português. Não foi a chegada de poucos marroquinos recentemente ao Algarve que fez despoletar a atenção para a atractividade portuguesa. Antes pelo contrário: neste caso concreto, as autoridades portuguesas fizeram o que deveriam ter feito -- tratamento humano e recusa de abrir processos-crime. Resistindo – diga-se – à pressão mediática, que alimenta e muito a demagogia, que nestas matérias só prejudica e cria alarmes dispensáveis.

O que tem acontecido em países como a Grécia e a Itália, atrativos para imigrantes, asilados e refugiados, pode acontecer em Portugal – no caso, sobretudo, de migrantes marroquinos.

Portugal deve ter planos de contingência para a sua passagem pelo território, assumindo-se como país de destino.

Já no caso da Argélia, os desafios são de outra índole: política, diplomática e sobretudo económica e energética.

Daí que, em final de ano, a diplomacia portuguesa deva ter todos os cuidados na forma como trata as relações com estes dois países do outro lado da fronteira… marítima.

 

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