Internacional

O "general do povo" venceu num país cada vez mais polarizado

Umaro Sissoco Embaló ganhou as eleições presidenciais guineenses contra o candidato do PAIGC, Domingos Simões Pereira, que recusou aceitar a derrota.

A Guiné-Bissau começa o ano com um novo Presidente. Umaro Sissoco Embaló, líder do principal partido da oposição, o Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), obteve 53,55% dos votos na segunda volta das eleições presidenciais deste domingo. O apelidado “general do povo” bateu os 46,45% obtidos por Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), o principal partido do país desde a independência, que se recusou a aceitar a derrota. Arrisca destabilizar a política guineense, que tem um longa historial de golpes de Estado, onde os impasses são regra e se teme o aumento da polarização étnica e religiosa.

“Depois de tudo o que vi, ouvi e sei, não tenho dúvidas de que o povo guineense nestas eleições presidenciais deu-nos a vitória, sim”, garantiu Simões Pereira perante dezenas de militantes e apoiantes. Para o líder do PAIGC – que tinha prometido demitir-se do posto caso perdesse – os resultados eleitorais foram “um roubo”, estando “profundamente impregnados de irregularidades, de nulidades, de manipulações”. “Não podemos aceitar”, sumarizou, segundo a Lusa.

Verificando-se a vitória de Embaló, é esperado que continue a exigir a retirada das tropas da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que desde 2012 tem numa missão de manutenção de paz na Guiné-Bissau, a Ecomib. Ainda em novembro, a maioria da oposição criticou o pedido de reforço do contigente, que tem cerca 600 soldados, feito pelo primeiro-ministro Aristides Gomes, do PAIGC.

“Há guerra na Guiné-Bissau? As pessoas são mortas aqui? O que é que as tropas estrangeiras vêm buscar?”, questionou na altura Embaló. Recorde que, no mês anterior, o primeiro-ministro conseguiu continuar à frente do Executivo, após ser demitido pelo Presidente interino, José Mário Vaz, que voltou atrás após um ultimato da CEDEAO.     

Unidade da oposição A vitória eleitoral de Embaló estava longe de ser o cenário mais provável: teve 27,65% dos votos na primeira volta das presidenciais, a 24 de novembro, face aos 40,13% de Simões Pereira. A vitória do líder do Madem-G15 resultou de um acordo entre as principais forças da oposição, que concordaram previamente apoiar quem quer que concorresse contra o candidato do PAIGC.

Dos doze candidatos à primeira volta, boa parte apoiaram imediatamente Embaló. Do ex-primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, até ao Presidente cessante, passando por Nuno Nabian, líder da Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB). O candidato vencedor - e general na reserva - também foi apoiado “incondicionalmente” pelo Partido de Renovação Social (PRS), historicamente associado à étnia balanta, com grande influência nas Forças Armadas.

Religião e étnia Durante a campanha eleitoral foram levantados receios quanto polarização da sociedade guineense, em função de étnia e religião. Num país onde cerca de metade da população é muçulmana, Embaló – que usa um lenço vermelho e branco como imagem de marca – foi acusado de apelar ao voto religioso. O general na reserva sempre salientou que é muçulmano mas casado com uma católica e prometeu ser “um Presidente da concórdia nacional”, mas isso não impediu as críticas.


“Quando nos juntamos todos na Guiné, somos pequenos, imaginem se somos divididos”, declarou Simões Pereira, durante a campanha, em Bafatá, no leste do país, uma região maioritariamente muçulmana – onde Embaló conseguiria 69,60% dos votos.

Os resultados eleitorais mostram um padrão semelhante: Embaló bateu Simões Pereira em todas as regiões de maioria muçulmana, perdendo em todos os que têm maioria cristã ou animista. A única excepção foram os 60,34% dos votos obtidos por Embaló em Cacheu, no noroeste do país, onde são maioritários animistas e cristão – mas onde há uma presença significativa dos balantas.