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Austrália. Dezenas de milhares tentam escapar às chamas

“É como uma zona de guerra”, lamentou um dos muitos australianos afetados pelas chamas. Até os glaciares na Nova Zelândia já sentiram os efeitos dos incêndios na Austrália - passaram de brancos a castanhos.

A Austrália declarou ontem uma semana de estado de emergência, enquanto dezenas de milhares de pessoas tentam escapar aos mais de 170 incêndios que devastam os estados de Victoria e Nova Gales do Sul, no sudeste do país. É considerada uma das maiores evacuações da história do país, comparável apenas às 60 mil pessoas que tiveram de fugir do ciclone Tracy, em 1974. As temperaturas de mais de 40ºC e os ventos fortes, após uma das primaveras mais secas e quentes de que há registo, que deixou boa parte do país sobre ameaça dos fogos florestais. Pelo menos 17 pessoas morreram desde outubro, e dezenas estão desaparecidas.

Os efeitos já se fazem sentir do outro lado do mar da Tasmânia, a mais de dois mil quilómetros de distância, na Nova Zelândia, onde glaciares passaram de brancos a castanho, devido ao fumo e às cinzas dos incêndios australianos. Teme-se que uma das consequências seja derreterem mais depressa, por absorverem mais luz.

“A brancura de um objeto reflete a radiação, afetando a temperatura”, explicou Michael Guy, meteorologista da CNN. “Como tal, as áreas do planeta que estão cobertas de gelo e neve não absorvem radiação tão rápido”. Ou seja, se o aumento da escala dos incêndios florestais na Austrália tem sido relacionado com as alterações climáticas, arriscam também acelerar estas alterações, não só pela emissão de CO2, mas com a aceleração da perda dos glaciares.

 

No terreno Se o derreter dos glaciares terá impactos globais, no terreno, na Austrália, vive-se uma situação de completa emergência humanitária. Só no estado de Vitória, 20 localidades costeiras, com entre três a quatro mil pessoas, estão isoladas desde terça-feira, enfrentando escassez de água e alimentos enquanto esperam para ser evacuadas pelo mar. “Não temos capacidade de conter estes fogos... eles vão continuar e as pessoas têm de sair desta área”, declarou número dois dos serviços florestais, Rob Rogers.

“É como uma zona de guerra. Ou algo saído de um filme”, contou ao jornal australiano Daily Telegraph Paul Murphy, residente de Lake Conjola, um popular destino balnear da costa de Nova Gales do Sul, cujos habitantes receberam ordem de evacuação por terra - dificultada pela escassez de combustível na região.

Muitos chegaram a ficar dez horas presos, devido ao trânsito e ao bloqueio de estradas por incêndios, quando tentavam chegar até Sydney ou à capital, Camberra. As filas chegaram a ter mais de 30 quilómetros de extensão, e algumas pessoas acabaram a abandonar os seus veículos e refugiar-se me localidades mais próximas, de acordo com o Guardian.

“Eu sei que podem ter crianças no carro, que há ansiedade e stress, que o tráfego não está andar”, reconheceu o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, apelando à calma. Contudo, muitos estão sem paciência, como mostraram esta quinta-feira os habitantes de Cobargo, aquando da visita do primeiro-ministro à localidade, devastada pelos incêndios.

“Não é bem-vindo”, gritaram a Morrison, que foi acusado de ”deixar o país arder”, enquanto uma mulher recusava apertar a mão do chefe de Executivo, a não ser que este prometesse aumentar o financiamento dos serviços florestais. Muitos guardam ressentimento quanto às recentes férias de Natal da família Morrison, no Havai, que foram encurtadas depois da morte de dois bombeiros.