Internacional

Irão-EUA. À espera da vingança

‘Saiam do Iraque imediatamente’, pediu a embaixada dos EUA aos seus cidadãos, enquanto muitos iranianos choram o seu general ‘mártir’.

O Irão está de luto pelo assassínio do general Qasem Soleimani, de 62 anos, líder das Forças Quds, as tropas de elite da Guarda Revolucionária Iraniana, considerado o segundo homem mais poderososo do país. O rosto de Soleimani está estampado em cartazes por todo o Irão, mas a influência extendia-se sobretudo fora do país, na Síria, Líbano e Iraque, onde foi abatido por um drone norte-americano, esta quinta-feira à noite, perto do aeroporto de Bagdade.

O ataque terá deixado o corpo do general feito em pedaços, acabando por ser identificado a partir de um anel. E pode lançar a região numa espiral de violência e coloca em causa a presença militar dos Estados Unidos no Iraque – a embaixada norte-americana já pediu aos seus cidadãos que «saiam do Iraque imediatamente». As cinco mil tropas dos EUA no terreno são um alvo óbvio para as milícias xiitas iraquianas, como as Forças de Mobilização Popular, cujo líder, Abu Mahdi al-Muhandis, foi um dos seis mortos com Soleimani.

Aliás, o próprio exército do Iraque qualificou o ataque «flagrante violação da soberania iraquiana», descrevendo o general como «herói mártir» em comunicado. «O mártir Soleimani é o rosto internacional da resistência», concordou o Supremo Líder do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, no seu site oficial. O líder do Irão, muito próximo de Soleimani, prometeu «uma vingança implacável», enquanto dezenas de milhares de iranianos saíam à rua, exigindo o mesmo. Muitos levavam retratos do general, outros choravam e quase todos gritavam «vingança, vingança».

Já em Washingon, o secretário de Estado Mike Pompeo acusou Soleimani de estar «ativamente a desenvolver planos de atacar diplomatas americanos e militares no Iraque» e defendeu que o assassínio «salvou vidas americanas». Além disso, também culpou Soleimani de estar por trás de ataques que mataram centenas de soldados dos EUA nos últimos anos.

Apesar disto, o ataque que vitimou Soleimani e outras seis pessoas foi considerado «quase certamente ilegal» pela investigadora das Nações Unidas para execuções extrajudiciais, Agnès Callamard. «Estes assassínios aparentam muito mais ser retaliação pelos seu atos anteriores do que antecipação de auto-defesa», escreveu no Twitter.
É difícil imaginar que o Irão não retalie face a este ataque, mas Pompeo reiterou no Twitter o seu «compromisso em inverter a escalada da situação». Enquanto isso, o Presidente dos EUA, Donald Trump, twitava em tom bélico: «O Irão nunca ganhou uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação!». E John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional de Trump, conhecido defensor de um confronto militar com o Irão, congratulou no Twitter: «Espero que este seja o primeiro passo para uma mudança de regime em Teerão».

Consequências
Qasem Soleimani foi o arquiteto indiscutível do chamado «Eixo de Resistência», uma manta de retalhos de forças xiitas, armadas e financiadas por Teerão, extendendo-se «do Golfo de Omã, através do Iraque, Síria e Líbano até à costa oriental do Mediterrâneo», como escreveu em 2018 o analista Ali Soufan, num perfil do general, que tomou controlo das Forças Quds, em 1998.

A força dirigida por Soleimani, dedicada a operações não-convencionais no estrangeiro, armava e apoiava vários pesos-pesados regionais. Como o regime sírio de Bashar al-Assad, o Hezbollah – estima-se que sua capacidade militar desta milícia ultrapasse a do exército libanês – e as várias milícias xiitas iraquianas, que têm muita influência no Executivo do Iraque, um país de maioria xiita.

Durante anos, temeu-se que, em caso de conflito com os EUA, Teerão usasse os seus satélites para lançar uma insurreição contra interesses norte-americanos por todo o Médio Oriente – e boa parte dos satélites iranianos já prometeram vingar Soleimani. Particularmente no Iraque, onde se multiplicaram os protestos pela operação. Afinal, os apoiantes de Soleimani estavam «fascinados com ele, veem-no como um anjo» declarou em 2011 o então vice-primeiro-ministro iraquiano, Saleh al-Mutlaq. «Todas as pessoas importantes do Iraque vão vê-lo», acrescentou.

Contudo, outros iraquinos mostraram alívio com a morte do general, dançando e cantando nas ruas – um dos vídeos foi partilhado por Pompeo. Nos últimos meses, o Iraque foi palco protestos onde centenas de pessoas foram mortas quando exigiam melhores condições de vida ao Governo, acusado de ser um fantoche do Irão, através da do general assassinado. «Alguns vão celebrar, alguns vão chorar e alguns vão procurar vingança», sintetizou um dignitário iraquiano ao Daily Beast.