Sociedade

No meio do caos, basta uma fagulha

Três casos de agressões violentas a médicos no espaço de uma semana fizeram soar os alarmes, mas por mês há mais de 100 episódios de violência contra profissionais de saúde. Na segunda-feira, no Santa Maria, médica pediu apoio da polícia para ir avisar na sala de espera que iam demorar a atender pulseiras verdes – os casos urgentes estavam com seis horas de espera.     

Foram dez minutos de pânico no gabinete até o polícia de serviço no hospital arrombar a porta. No interior, uma médica e o marido – também médico e a quem pediu socorro – viram-se encurralados por um doente fora de si depois de uma espera de quatro horas para ser atendido na urgência do Hospital de São Bernardo, onde dias antes uma outra médica fora agredida. Foi o terceiro episódio de violência conhecido no SNS no espaço de uma semana, mas todos os meses são reportados mais de 100 casos, na maioria das vezes ameaças e insultos. Médicos ouvidos pelo SOL admitem que a escalada nesta altura do ano, com os serviços congestionados pela procura e falta de condições, não é inesperada: faltam meios para garantir o atendimento adequado aos utentes, medidas preventivas e punição dos doentes que passam todos os limites. 

Este último caso em Setúbal aconteceu no mesmo dia em que um médico que fazia atendimento complementar no centro de saúde de Moscavide foi agredido ao pontapé por um jovem de 21 anos a quem recusou renovar a baixa, caducada alguns dias antes. Também Vítor Silva Santos se viu preso no gabinete. «Se há algo que a ministra pode fazer é ir aos sítios e perceber porque é que episódios destes acontecem. Ali, além da configuração das salas, que me impediu de fugir, os telefones não funcionam há bastante tempo», disse o médico de 65 anos aos JN. 

Guida da Ponte, dirigente do Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS), explica ao SOL que o desenho dos gabinetes deixa os profissionais indefesos. «Numa situação destas não conseguimos sair, os gabinetes não estão preparados para qualquer mecanismo de fuga em coisas tão simples como a disposição das mesas ou a porta abrir para dentro. Se tenho a mesa contra a parede e o paciente do outro lado, como saio?», ilustra. A tensão agrava-se nesse impasse. «Quanto mais tempo o médico está exposto ao agressor, mais a agressividade cresce». 

De Setúbal, o relato que chegou ao SMZS descreve uma cena angustiante, em que a médica, na casa dos 30 anos, acabou por não querer falar do que viveu dentro do gabinete, onde o doente arremessou cadeiras e chegou a partir um vidro. Sublinhando que o comportamento dos utentes não é desculpável, Guida da Ponte insiste que é preciso ver o problema a montante: urgências sobrelotados, falta de médicos nas escalas e tempos de espera a agravar-se sem que se vislumbrem soluções. «Perante isto, vamos ter mais médicos a recusar fazer serviços de urgência. São situações altamente traumatizantes», diz. Pelo menos, a médica agredida em Setúbal no dia 27 de dezembro, que precisou de uma cirurgia depois de a utente a ter ferido no olho, já disse que não tenciona regressar ao hospital. «Medidas não existem e a justiça é nula. E depois existe um efeito em massa: quando um paciente é agressivo na urgência, todos ficam agressivos, há um efeito de imitação. Além da responsabilização do ministério, tem de haver uma responsabilização das entidades patronais. Os hospitais têm de ter planos de fuga e prevenção, que passem por medidas de infraestruturas, formação das equipas e mecanismos de alerta, tudo coisas que não existem». 
Nos últimos dias também a Ordem exigiu medidas, instou os médicos a recusar trabalhar quando não estejam garantidas condições e pediu a intervenção do Ministério Público. Em 2008, o então procurador-geral da República Pinto Monteiro incluiu a violência contra médicos e enfermeiros – com a natureza de crime público, em que a investigação não depende de queixa – nos crimes de prevenção e investigação prioritária e emitiu uma circular a pedir aos procuradores distritais que pedissem às administrações hospitalares que comunicassem todos os factos. Nos últimos anos, esta criminalidade deixou de estar na lista de prioridades. Questionada pelo SOL, a PGR não fez qualquer ponto de situação nem sobre inquéritos instaurados nem sobre eventuais medidas. 

Há centros de saúde sem segurança 
O Sindicato Independente dos Médicos, que no final do ano enviou uma carta à PGR a pedir intervenção e a lamentar a inatividade da justiça, questionou nos últimos dias o silêncio da ministra da Saúde – Marta Temido viria a pronunciar-se ontem(ver em baixo). «Era de esperar uma palavra de conforto e apoio às vítimas. São necessários planos de fuga dos gabinetes, apoio de advogados para dar seguimento às queixas, apoio psicológico e formação para a gestão de conflitos», disse ao i Jorge Roque da Cunha, denunciando que em alguns centros de saúde não existem sequer segurança, como é o caso de Corroios. «Num centro de saúde com milhares de utentes sem médico, não haver segurança faz com que a confusão seja permanente».

E é na confusão que basta ‘uma fagulha’ para a tensão explodir. A expressão é de Nídia Zózimo, delegada sindical e chefe de equipa nas urgências no Hospital de Santa Maria. Este ano, num artigo que o SOL dedicou ao problema da violência contra profissionais de saúde, a médica já tinha alertado para ausência de uma cultura de segurança no SNS. Agora, perante estes casos, começa com um desabafo: «Era de prever». 

Campanha contra os médicos
A médica elenca quatro fatores e aponta o dedo ao Governo. «Continuamos com falta de recursos humanos, serviços de urgência e outros sem qualquer barreira que limite o acesso dos utentes e urgências sobrelotadas com casos não urgentes. Sempre que existe uma campanha do Governo anti-médicos, como temos vindo a assistir, estes casos agravam-se e existe por fim um efeito de contágio, de imitação, alimentado também pelo sentimento de impunidade», acusa. 

Ao longo da carreira, Nídia Zózimo testemunhou vários episódios. A pior situação que viveu foi de um doente que estava a observar e tinha entrado com uma faca de ponta e mola. «Só não fui esfaqueada no abdómen porque saltei». 
Escaldados, tentam prevenir, sentindo que muitas vezes as equipas acabam por estar por sua conta e risco. Na última segunda-feira à noite, no Hospital de Santa Maria, quando os ânimos começaram a exaltar-se perante os elevados tempos de resposta, Nídia Zózimo pediu apoio da polícia para ir à sala de espera avisar que as pulseiras verdes teriam de continuar à espera – os casos urgentes estavam com seis horas de demora. «Tinha apenas uma médica a responder aos verdes e tive de a tirar para responder às pulseiras amarelas e laranjas, se não ainda apanhava ela tareia. Mesmo com a polícia, as pessoas ficaram irritadas. Descarregam em quem veem primeiro. E a acusação é quase sempre a mesma: somos nós que vos pagamos o ordenado».

No meio das reações que se vão ouvindo, Nídia Zózimo sublinha que é errado pensar que este é um problema de etnias, o que tende a desviar as atenções dos problemas de fundo. «É transversal», diz. 

Num momento de alarme, defende que é preciso uma posição firme. «Ou todas as pessoas que foram identificadas são chamadas à responsabilidade e existe uma penalização séria e são implementadas medidas ou o problema só vai agravar», diz. «São precisas condições de trabalho e os serviços de urgência não podem ter as portas todas abertas nem serem lojas de conveniência, para se vir a uma urgência de um hospital central é preciso que exista um encaminhamento pelo menos da Saúde 24», defende.