Politica

Presidenciais. A passadeira de Marcelo

Se Marcelo concorrer a um segundo mandato, ninguém tem dúvidas de que será reeleito. A única que subsistirá é saber por quanto (e se baterá o recorde de Mário Soares em 1991). Mas há outra questão. Se não houver candidaturas da área do PS e do CDS, até onde poderão ir os candidatos do BE e do Chega?  

Falta um ano para as eleições que, sem surpresa, deverão ditar a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República para o quinquénio 2021-2026 e os principais partidos – todos com congressos agendados para os próximos tempos – estão ainda a reservar posição. Até porque, se é dada como certa a recandidadura do atual Presidente, a verdade é que, apesar dos variadíssimos sinais que sempre foi dando e se intensificaram nos últimos tempos, Marcelo ainda não confirmou que será mesmo candidato. Certezas absolutas, como tem reiterado Marcelo, só lá para depois do verão – fonte de Belém diz ao SOL que Marcelo só decidirá em «outubro ou novembro» –, sobretudo se a saúde lho permitir.

Com Marcelo em forma, será ele o candidato natural e inquestionável do PSD, como já asseguraram os concorrentes à liderança do partido Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz – e o líder recandidato, Rui Rio, só não o fez ainda porque entende que, formalmente, sem o próprio confirmar a sua candidatura o líder do partido também não o deve fazer.
Já no CDS, Marcelo não colhe a mesma simpatia entre os candidatos à sucessão de Assunção Cristas. Ao contrário da líder cessante, João Almeida, Francisco Rodrigues dos Santos e Filipe Lobo d’Ávila têm muitas reticências em declarar apoio ao atual inquilino de Belém. E, pelo menos para já, escusam-se a fazê-lo.
Mas, curiosamente, a questão ganha maior relevância no PS.

Senadores com Marcelo

A exemplar coabitação entre o líder do partido e primeiro-ministro e o Presidente da República nos difíceis quatro anos de ‘Geringonça’, levam António Costa a não ter razões para defender um candidato alternativo. E, ao que tudo indica e como confirmam fontes do inner circle do secretário-geral socialista, não o vai mesmo fazer. Recorde-se, aliás, que Costa, nas últimas presidenciais, em 2016, já jogou à defesa e não tomou partido por nenhum dos candidatos que se apresentaram na corrida: sendo que, na altura, foram a jogo contra Marcelo duas personalidades da área socialista – Sampaio da Nóvoa, pela ala mais à esquerda, e Maria de Belém, pela ala mais à direita.
Agora, de Ferro Rodrigues a Jorge Coelho, foram já vários os destacados militantes do PS que publicamente se pronunciaram a favor da recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa e lhe declararam apoio. Deixando António Costa com pouco espaço de manobra.

César na reserva

Ora, se é certo que as presidenciais são eleições individuais e não partidárias, não falta no PS quem chame a atenção para os ‘perigos’ que acarreta uma decisão de o partido apoiar Marcelo ou não se envolver na contenda: nomeadamente, dizem tanto vozes da ala esquerda como da ala direita do PS, o risco de o eleitorado que não se revê no atual Presidente e antigo líder social-democrata só ter como alternativa o voto nos candidatos dos extremos – seja fazendo crescer a votação da esquerda no BE, que não deixará de apresentar Marisa Matias ou outro candidato, seja dando maior expressão à direita do Chega! de André Ventura.

Com a liderança incontestada de António Costa e com a questão ideológica resolvida no último congresso – que consagrou claramente a linha de esquerda definida por Pedro Nuno Santos –, o tema da reunião magna socialista de maio  pode mesmo acabar por ser as presidenciais e o melhor posicionamento do partido. 

Sendo que parece não restarem muitas dúvidas de que António Costa tem reservado um ‘plano b’ para o caso de  Marcelo, por qualquer motivo de força maior (nomeadamente por questões de saúde), não ir a jogo. Nesse improvável caso, fontes socialistas garantem que, além de Augusto Santos Silva (o homem com mais tempo em funções governativas desde o 25 de Abril), Costa tem na reserva o nome de Carlos César, o presidente do partido e ex-líder parlamentar, que atualmente não tem quaisquer funções executivas  e que colheria o apoio unânime dos socialistas.

Mais vale não ter candidato

Confrontado pelo SOL com este tema, Francisco Assis lembrou que está longe da política desde junho e, por isso, tem algumas reservas em pronunciar-se. 

Sem querer comentar um eventual apoio formal do PS a uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-deputado socialista diz apenas que é «óbvio» que outras candidaturas poderão crescer caso o PS não avance com um nome. «Se do lado do PS não houver um nome – creio que seria a primeira vez que isso ocorreria – é óbvio que isso pode fazer com que algumas candidaturas, principalmente mais à esquerda, tenham um maior crescimento.Mas isso é um cálculo que terá de ser feito pelo próprio partido», diz ao SOL.

Por seu lado, Álvaro Beleza, apesar de confessar gostar do atual Presidente, considera que o PS não pode apoiar Marcelo. «O PS não se deve envolver nisso enquanto partido. Acho que, nas eleições presidenciais, os partidos não devem tomar posição formal. Devem dar liberdade. Viu-se o que aconteceu nas últimas presidenciais, em que, no fundo, o PS teve dois candidatos. O melhor é não ter nenhum», diz ao SOL. E deixa o aviso: «Faz sentido um partido apoiar um candidato quando este foi o seu líder. Apoiar formalmente uma pessoa que não faz parte do partido, não faz sentido. É preciso ter cuidado com a hipocrisia política. As pessoas não são estúpidas e isso não fica bem, as coisas devem ser claras».

Marcelistas esperam eleições concorridas

Se os socialistas ainda terão de decidir se haverá ou não candidato da sua área política contra Marcelo, os marcelistas estão à espera de que as candidaturas sejam tantas ou mais do que nas presidenciais de 2016.

E, se assim for, pelo menos o risco de os extremos (leia-se o Chega! de André Ventura e o candidato do BE, seja Marisa Matias ou Francisco Louçã) conquistarem votações significativas será mais  reduzido.

Para os marcelistas, é preferível não existir esse risco, mesmo que, assim, se torne mais difícil o objectivo nunca assumido por Marcelo de bater o recorde de Mário Soares, na sua reeleição para um segundo mandato como Presidente da República, a 13 de janeiro de 1991. Soares alcançou 70,35% dos votos – ou seja, quase 3,5 milhões de pessoas votaram no candidato apoiado pelo PS. Basílio Horta, na altura do CDS, ficou  com 14,16%. Considerado um dos Presidentes mais populares de sempre, Marcelo poderá destronar Soares e tornar-se o candidato com mais votos de sempre em Portugal. E há até quem aponte semelhanças entre ambos: «Esta é uma Presidência muito parecida com a de Mário Soares. Há dois aspetos que evidenciam essas parecenças: são ambos homens cultos e que gostam da vida e da polítca, levam isto com gozo. Ele é muito o Soares da direita. Bem podiam dizer ‘o Marcelo é fixe’», diz Álvaro Beleza, numa referência ao slogan de Soares nas presidenciais de 1986.