Opiniao

2020: Ano novo, vida diferente

«As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem».
Chico Buarque

São dois os tempos do ano em que projetamos fazer várias alterações nas nossas vidas. O primeiro tempo é a seguir às férias; o segundo é o tempo do início de cada novo ano. 
Nestes dois tempos projetamos normalmente muito e executamos pouco. E, muitas vezes, o pouco que executamos é derivado de acontecimentos e circunstâncias exteriores às nossas vidas. 
O tempo que vem a seguir às férias é o mais difícil de acomodar alterações, sobretudo por ser o tempo final do ano em curso. Um tempo em que nos sentimos fora das rotinas, após um tempo de férias em que tudo parece ter parado, adiado e até percepcionado como dispensável. 
O tempo do início de cada ano é o tempo em que a transição quase não se nota e sente, a não ser pela pressão e pelo folclore mediático de que estamos num novo ano – que nos deve levar à ‘clássica’ vida nova. 

Se existem tempos condicionados pela força pessoal e interior que nos faz sentir, a quase todos, conservadores, são estes dois: o do pós-férias e o do início de cada ano. Uns mais do que outros, inevitavelmente, vamos projetando e planeando, ano após ano, acertos e mudanças nas nossas vidas. Mesmo quando tudo é feito com rigor e com base em critérios exigentes, com diagnósticos corajosos e duros, a falta de coragem e o medo da mudança criam em nós múltiplas resistências.
Faz parte da condição humana. É próprio de uma sociedade contemporânea em que vários tipos de dependências (umas mais visíveis e sentidas, outras nem tanto... mas que estão sempre bem presentes no dia a dia, mesmo sem o percebermos...) não nos deixam fazer as coisas à ‘nossa maneira’. Repito: ‘à nossa maneira’. Sobretudo se já não vamos para novos e olhamos para trás e para o lado e confirmamos que muito daquilo que fizemos positivamente – e de quem connosco tem vivido – foi derivado de fazermos as coisas à ‘nossa maneira’.

Condicionados e espartilhados profissionalmente, mediaticamente, socialmente, publicamente, familiarmente e pessoalmente, somos muitas vezes bloqueados – e, em muitos momentos, despojados – de muitas das nossas competências, experiências, forças e coragem. Somos atores num filme da vida em que, muitas vezes, temos de representar papéis que não retiram o melhor de nós próprios. Ora, é no início do tempo de ano novo que devemos pensar solidamente nisto tudo, para não chocarmos de frente com o que projetamos e que não executamos.
Se cada um de nós fizer os acertos de vida mais adequados, estou convencido de que estaremos a contribuir para sermos mais felizes e, consequentemente, doadores diretos de mais e melhor vida para a sociedade, o país e o mundo em que nos inserimos. 

São várias as alteraçõeS e os aperfeiçoamentos que, no meu caso, gostaria de executar neste ano novo de 2020. 
Sem quebrar a regra da reserva de vida da máxima intimidade (até porque faço parte da minoria que não usa as redes sociais para dizer o que come, bebe, veste, sente, pensa e quando vai à casa de banho fazer xixi e outras coisas), neste ano novo vou tentar: 
1- Afastar-me de vez de todas as pessoas, sejam elas quem forem, que só me usam para o que lhes é conveniente; 
2- Dar o tempo de qualidade devido aos meus três filhos e à cada vez mais curta família que ainda vou tendo, depois de tantos anos de dedicação à coisa pública; 
3- Concretizar todos os meus projetos profissionais solidamente, sem deixar de aprofundar em simultâneo os meus trabalhos académicos e de investigação, quer na área do Direito, quer nas áreas das migrações, da CPLP e da lusofonia; 
4- Profissionalmente, iniciar um caminho numa nova área que reputo de relevante para um país e um povo como Portugal e como português; 
5- Ter coragem para cuidar da minha saúde, em razão da vida que vivi nas últimas décadas e considerando o histórico familiar neste particular.

Quanto a tudo o maiS, vivendo em simultâneo com mais de sete mil milhões de pessoas no mundo, espero que 2020 seja um ano em que para lá do que todas as ‘instituições’ públicas e ‘não públicas’ pedem e desejam (combate à fome, à miséria, ao terrorismo, às alterações climáticas, blá, blá...), que seja o ano em que as sociedades contemporâneas inclusivas e plurais valorizem mais as ciências humanas e sociais, que não vivam obcecadas pela ortodoxia dos números, que olhem em frente para o ‘cancro’ que é a fadiga informativa e o sectarismo mediático a pretexto da integridade e da transparência, que recuperem a importância dos direitos, liberdades e garantias, e que se façam planos nacionais, por exemplo, a favor do silêncio. 
Os que lerem isto devem pensar: ‘Ele não está bem da cabeça...’ É que faço parte das pessoas que consideram que as nossas sociedades não precisam apenas de dinheiro, fiscalização, solidariedade. Precisam também de silêncio. O silêncio perdeu a sua guerra para o ruído e a seguir têm vindo outros males. Mas isso fica para outra oportunidade. Lá está um tema também pouco ou nada politicamente correto. Sobretudo nos media cultores da fadiga e ruído informativos.
olharaocentro@sol.pt