Opiniao

A ‘esquerda’ revisitada, ou ‘prêt à porter’?

Segundo o primeiro-ministro, «não é de esquerda promover défices ou aumento de dívida». Assim se justifica o brutal aumento da carga fiscal dos últimos anos e a degradação progressiva dos serviços públicos como consequência da crónica sub orçamentação a que foram sujeitos, bem como o corte do investimento público que todas as estatísticas confirmam e todas as instituições denunciam.

Estão desfeitas todas as dúvidas: vivemos nos últimos anos e continuaremos a viver nos próximos com uma verdadeira sensibilidade de esquerda.

Acresce que a afirmação do primeiro-ministro vem também clarificar uma das dúvidas existenciais da ciência (e prática) política dos últimos tempos, ajudando a clarificar de forma categórica o que a partir de agora é direita e é esquerda.
Como referia o jornalista Luís Marques, que mantém o estranho ‘defeito’ de ser rigoroso e independente, «o Governo de Passos Coelho que baixou o défice de 11,4% do PIB em 2010, para 3% em 2015, é de esquerda». Volta Passos, estás perdoado, gritarão os mais impacientes e exaltados.

Esta conclusão estranha, decorrente de uma afirmação estranhíssima, demonstra bem como se faz a política em Portugal (pelo menos como alguns a fazem) e como irá continuar, agora que abordamos o ano 2020, a manter-se essa forma de a concretizar.

É óbvio que, independentemente, da natureza do Governo (mais à esquerda ou mais à direita) é essencial, diria mesmo crucial, desenhar políticas fiscais e orçamentais que resolvam os verdadeiros problemas das sociedades, incluindo o indispensável desenvolvimento (não confundir com mero crescimento), garantindo a médio prazo, a estabilidade financeira e a sustentabilidade das finanças públicas.

Por isso, estiveram bem os dois últimos Governos (o actual ainda não conta) quando procuraram orientar os seus esforços no sentido de atingir esses objectivos de estabilidade e sustentabilidade financeira.

É que, ao contrário do que diziam, ainda há pouco tempo, protagonistas políticos que hoje integram o Governo (de esquerda, à luz dos critérios do primeiro ministro) as dívidas são mesmo para pagar e, perante situações de incumprimento (ensina-nos a história) quem fica com os joelhos a tremer, não são os ‘pobres’ banqueiros alemães, mas sim os ‘abonados’ cidadãos que têm o azar de ser prendados com tais dirigentes.

Decorreu entretanto uma década depois da ultima grave crise financeira que enfraqueceu a economia europeia e quase destruiu os países mais frágeis como Portugal e a Grécia, ameaçando reduzi-los à irrelevância política e à desordem social.

Com ajuda externa, solicitada contudo com algum atraso, e pela ação dos governos constitucionais de 2011 e 2015, Portugal reequilibrou-se financeiramente, recuperou a confiança dos mercados monetários e acumulou condições suficientes

Para começar a concretizar os desígnios de crescimento e desenvolvimento e a indispensável melhoria dos serviços públicos. Este sim será o momento para separar as águas e definir de forma mais rigorosa, o que pode distinguir a direita da esquerda.

A condição prévia para que isto seja possível passa por reconhecer que a recuperação financeira não é um crédito da direita ou da esquerda, pois resultou de um verdadeiro estado de necessidade e teve um protagonista principal, a classe média portuguesa que suportou um período de grande austeridade, que independentemente dos sound bites usados e da propaganda proclamada, não está, ainda, completamente ultrapassado.

O início de 2020 coincide com o começo de um ciclo politico de muita exigência, como aliás tem sublinhado o Presidente da República, pois, não estando em causa, para já, a estabilidade governativa (a nascente ‘carripana’ encarrega-se de a assegurar) já não há muito tempo para abordar e resolver os verdadeiros problemas que existem na sociedade portuguesa. Ser de esquerda é também compreender isto e ter capacidade para assumir responsabilidades próprias, pois está esgotado a estratégia de culpabilizar sistematicamente o passado.

Porque assim é, ou deve ser, não se compreendem facilmente atitudes e declarações que tem como resultado excluir ou dificultar a participação, na resolução dos problemas, de protagonistas essenciais para um bom desfecho.

O último e mais mediático caso envolveu o actual ministro dos Negócios Estrangeiros, especialista em ‘malhar’ em tudo o que mexe e de que não goste, e os empresários portugueses que se sentiram legitimamente ofendidos com as suas declarações.

Este episódio bizarro remeteu-me para memórias antigas, acumuladas fora do ambiente especial da praxis política, que decorreram de uma eventual declaração do ministro da Economia (entre 1958 e 1962) Ferreira Dias que terá afirmado (citação de memória) «os empresários portugueses devem ser todos largados no alto-mar, para que se passam salvar, apenas, os que souberem nadar...e bem».

O engenheiro Ferreira Dias foi ministro da Economia, como referido, entre os anos de 1958 e 1962, foi considerado o mentor do setor eléctrico nacional e o grande impulsionador da industrialização do país. O tempo das suas simbólicas declarações era o tempo do início e do começo de uma nova era para a definição de uma estrutura económica em Portugal.

Hoje vivemos, felizmente, numa democracia consolidada onde, quando está em causa o interesse nacional, ninguém pode ser dispensado. O nosso presente e o nosso futuro dependem do esforço e empenho que a maioria dos trabalhadores e empreendedores, estiverem dispostos a colocar em comum. Em circunstância alguma um membro do Governo o pode esquecer.