Desporto

Paulo Gonçalves: “Ninguém deixa um amigo para trás em pleno deserto”

O piloto português Paulo Gonçalves morreu este domingo após um acidente no Dakar 2020, aos 40 anos. Em 2016, o 'Speedy' Gonçalves, como era conhecido, dava uma entrevista ao SOL, onde falava sobre um gesto solidário que correu mundo com Mathias Walkner, e que agora recordamos.

De onde surgiu a alcunha ‘Speedy’ Gonçalves? É o Speedy Gonzalez dos ralis, é isso?

Foi um bocadinho com essa ideia que surgiu, há sensivelmente 19 anos (1997). Começou numa brincadeira: como o ratinho mexicano é o Speedy Gonzalez e eu era o Gonçalves, a alcunha pegou de estaca. Há malta nas corridas que já nem me trata por Paulo, é o Speedy.

Mas sente-se o ratinho português das motas?

Acho muito engraçado porque até o logótipo do meu nome é um esboço do ratinho mexicano. Tem funcionado (risos).

Já conta com 10 participações no rali mais exigente do mundo. Como é fazer um Dakar na América do Sul? O espírito é diferente daquele que se sentia em África?

Em termos daquele desafio e da solidão que tínhamos nos ralis em África, desapareceu um bocado. Na Argentina, Bolívia e Chile, os países onde passa o rali na América do Sul, isso não acontece. Todos os dias, desde que saímos até que chegamos, temos multidões na rua. Até há grupos que se organizam em pleno deserto para nos ver passar. Isso em África não existia. Muitas vezes, durante um dia inteiro, víamos 2 ou 3 pessoas no deserto. E eram os nómadas que lá viviam.

E em termos de exigência e superação?

Esse espírito manteve-se. Devo dizer que os Dakar que disputei na América do Sul foram todos eles mais duros do que os dois que eu tinha feito em África.

Recorda-se da situação mais caricata que já viveu?

Numa das minhas primeiras edições, tive um acidente de manhã, atrasei-me a reparar a mota e quando dei por mim estava de noite, em plena especial, no deserto. E sozinho. Isso provocou-me algum pânico. Nunca tinha ido a África e de repente chega a noite e eu a 200 km do fim, em pleno deserto, sem ninguém. Era assustador. Mas é uma situação que ainda hoje acontece a muita gente. É quase o prato do dia.

Neste Dakar 2016, esteve quatro dias na frente e chegou ao dia de descanso na liderança. Mas tudo mudou na segunda semana do rali.

Tive alguns infortúnios e as coisas começaram a correr um bocadinho mal. Tive uma queda logo no dia a seguir ao descanso que me fraturou uma costela. Andei com algumas limitações. Depois tive um problema no motor e várias penalizações. Enquanto estive em corrida, sem problemas, estive sempre a discutir a vitória.

Sofreu uma dupla penalização na etapa maratona. O que se passou?

Foi utilizado um critério diferente para duas situações iguais. No regresso da Bolívia à Argentina, eu e mais 22 pilotos fizemos um troço total de 144 km, e os outros todos não conseguiram porque um rio encheu. A especial foi simplesmente anulada e não houve tempo teórico para os que não passaram. Quando me aconteceu depois o mesmo a mim, o normal era o critério ter sido igual. O que a organização fez foi atribuir um tempo teórico aos que não passaram. Fiquei com 34 minutos de atraso, mas continuava a poder disputar o segundo lugar. Só que um dia e meio depois, a organização ainda não estava satisfeita e ainda me atribuiu uma penalização extra.

Sente que o prejudicaram?

Prejudicaram-me bastante. Tiraram-me qualquer possibilidade de discutir a vitória e o pódio.

À passagem pela 7.ª etapa, teve um gesto solidário que correu o mundo. Arriscou a liderança e perdeu 10 minutos para ajudar Matthias Walkner (KTM), que tinha sofrido um acidente.

Nós temos um código de fair-play que é respeitado por todos. Não tenho nenhuma dúvida de que outro colega se me visse numa situação daquelas não hesitaria em parar também. Ninguém deixa um amigo para trás em pleno deserto sem ajuda. Fico contente que as pessoas se sintam orgulhosas e se revejam no meu gesto.

Teve de abandonar o Dakar depois de ter sofrido uma queda durante a 11.ª etapa, onde foi encontrado inconsciente. Recorda-se do acidente?

Só tenho alguns flashes já do momento em que estava a ser desequipado, assistido e transferido de helicóptero. A pancada com a cabeça deve ter sido forte. Fiquei com perda de consciência momentânea. Um companheiro meu disse que eu tinha a mota caída mas que estava de pé e lhe disse que estava tudo bem. São partes que não tenho registadas. Depois, pelo que me foi dito, cheguei a uma zona de público a andar muito devagarinho e a cambalear. Foi aí que fui assistido.

E qual foi o diagnóstico?

Um traumatismo craniano leve com perda de memória. Tive alta ao fim de 8 horas.

Foi um final inglório?

É a terceira vez que abandono por acidente. Em edições anteriores já tinha fraturado as clavículas. É óbvio que cai-nos tudo aos pés.  Mas desta vez foi mais estranho. Estava na ambulância, a tentar perceber o que se passava, e ouvia motas na corrida. Foi um momento difícil.

Chegou a pensar que era possível conquistar o título?

Sabia que tinha todas as possibilidades para discutir a vitória nesta edição até ao último dia. Infelizmente as coisas descambaram.

Foi brindado no aeroporto Francisco Sá Carneiro com o hino nacional. O que sentiu?

Foi bastante bom. Mesmo não tendo alcançado o resultado que todos queriam, ninguém se sentiu desiludido com a minha prestação. Perceberam que dei o melhor de mim. Só perdi o resultado, tudo o resto foi ganho.

E para 2017, o que podemos esperar do ‘Speedy’ Gonçalves?

Quero voltar a discutir a vitória neste rali, que é algo que me falta no currículo.

Entrevista por Hugo Alegre