Desporto

Austrália. O jogo dos primos

Os australianos têm um futebol diferente, disputado num campo oval com uma bola oval. Os mais fanáticos chamam-lhe ‘footy’.

 

A Austrália arde, da Tasmânia a Darwin, um rumor de solidariedade elevou-se um pouco por todo o mundo, gente desesperada não calou o desencanto nem a revolta, sobretudo quando o primeiro-ministro, Scott Morrison resolveu visitar a massacrada zona de Cobargo, cerca de 400 quilómetros a sul de Sidney, onde foi recebido, vamos dizer assim, por gente com cinco pedras na mão. Não foi preciso esperar muito tempo para que John Noel William Newman, o controverso Sam, comentador televisivo, viesse acusar os que insultaram Morrison de «miserable pricks», expressão que poderia traduzir-se por cretinos miseráveis se cretino se aplicasse ao vernáculo do órgão sexual masculino. Enfim, toda a gente que sabe algo sobre futebol australiano conhece os maus fígado de Sam, o desbocado, desde que foi um enorme jogador do Geelong Football Club, cumprindo mais de 300 jogos entre 1964 e 1980, até que uma carga brutal de um adversário do Collingwood o atirou para uma cama de hospital e obrigou os médicos a cortarem-lhe um muito razoável pedaço da referida glândula.

Claro que quando falo de futebol, não falo de ‘football association’ ou de ‘football rugby’, embora neste último os australianos sejam barras, mas sim do Australian Football, para os fanáticos simplesmente ‘footy’, um jogo de contacto físico bruto, jogado entre duas equipas de 18 elementos num campo oval com uma bola oval, tendo por objetivo chutar esta última para uma baliza central (seis pontos) ou recuada (um ponto).

A colonização inglesa, levada a cabo por gente de classes mais altas, entre proprietários de terras e militares, infiltrou em territórios como a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul o gosto pelo râguebi e pelo críquete (na Índia tornou-se desporto nacional), deixando o futebol na ilha para lá da Mancha entretendo a pequena burguesia e o proletariado. Questão de gostos. Em 1858, uma rapaziada do Victoria Cricket Team, de Melbourne, decidiu que os jogadores não podiam ficar inertes durante o Inverno. Thomas Wentworth Wills, o capitão, antigo aluno da Rugby School, no Warwickshire, resolveu propor que se folgazassem umas horas na prática do jogo que William Webb Ellis inventara ao agarrar uma bola à mão em plena partida futeboleira e correr com ela até ao fim do campo: isso mesmo, o ‘rugby’. 

 

O batoteiro 

Webb Ellis pode ter criado o râguebi com aquele seu gesto amalucado, mas ganhou fama de batoteiro para o resto da vida. Logo ele, que seguiu a vocação de reverendo. Wills foi-lhe na passada. A forma como se predispôs a aceitar o profissionalismo valeu-lhe duras críticas num tempo em que tal parecia ir contra todos os princípios da atividade desportiva. Depois de ter criado as ‘laws of Australian rules football’, juntou-se a um primo, Henry Colden Antill Harrison, que acabou por ser também seu cunhado, desposando-lhe a irmã Emily, um fulano conhecido por vencer com uma perna às costas todas as provas de velocidade disputadas na região, e dedicaram-se ao implemento do novo jogo. Num gesto de profundo desportivismo, Harrison insistiu na inclusão de uma regra soberana: «nenhum jogador pode correr agarrado à bola sem a fazer tocar o chão a cada cinco jardas». Arthur Conan Doyle, o criador do dedutivo detective Sherlock Holmes, adorou as alterações que Wills e o primo fizeram ao râguebi. Não poupou elogios ao parágrafo da autoria de Harrison: «I thought it was very sporting of Harrison, as the fastest runner of his day, to introduce the bouncing rule, which robbed him of his advantage».

Quem observa com atenção os jogos de futebol australiano, cujo campeonato nasceu nos idos de 1897 com o nome de Victorian Football League, pode não lhe detetar, à primeira vista, grandes laivos de cavalheirismo. Até as camisolas de mangas cavas dão um certo ar de roupa interior... ‘By God!’. 

Que Tom e o primo Henry eram gente de bem, não restam dúvidas. Mas o primeiro era definitivamente um diletante. Depois de ter feito parte das equipas do Scotch College e do Melbourne Grammar, atraindo os estudantes para a prática do futebol australiano, andou um pouco por toda a parte, ora no Richmond, ora no Collingwood, ora no Victoria, com o irritante hábito para os apostadores de aparecer inesperadamente num qualquer campo e integrar à última hora fosse que equipa fosse, desequilibrando com a sua categoria o mais previsível dos resultados. Finalmente juntaram-se ambos no Geelong Football Club e fizeram dos Gatos de Corio Bay a grande potência do final da década de 1850.

Os jornais de Melbourne - que se tornou a grande capital do futebol australiano e possui um estádio com capacidade para mais de 100 mil espetadores - trataram de apelidar Wills de Great Gun of the Colony. «Tall, muscular, and slender, Mr. Wills seems moulded by nature to excel in every branch of the noble game...», publicou-se num panegírico. 

De um dia para o outro, partiu com o pai, Horatio, para dirigir uma propriedade da família em Cullin-la-ringo, no interior da província de Queensland. No dia 17 de outubro de 1861, Horatio e vários dos seus companheiros foram trucidados por um grupo de aborígenes. Tom escapou da chacina mas, traumatizado pelo acontecimento, enfiou-se na ratoeira do álcool. Dedicou-se a outra das suas grandes paixões: o críquete. Gordo, careca, sem reflexos, deixou de ser soberbo para ser grotesco. Dominado por paranoias, espetou uma tesoura no coração. A mãe, Elizabeth, convenceu-se de que ele nunca tinha existido.