Economia

Governo abre porta à reentrada nos CTT

O prazo de concessão termina no final do ano e, pela primeira vez, Pedro Nuno Santos admitiu a possibilidade de o Estado reentrar no capital. Mas o ministro não exclui, também, a renovação da concessão.

Agestão dos CTT poderá dar uma reviravolta no final deste ano. O prazo de concessão termina em dezembro e o Governo já admite que a entrada do Estado no capital dos Correios «não está excluída», contrariando o que tem sido dito anteriormente por vários membros do Executivo. Esta hipótese foi levantada por Pedro Nuno Santos, esta semana, no Parlamento, e responde, de certa forma, às pressões que têm sido colocadas pelos partidos de esquerda, que há muito vêm defendendo a renacionalização da empresa.

Recorde-se que os partidos de esquerda entregaram projetos de resolução no Parlamento para que fosse levada a cabo uma reversão da privatização e nacionalização da empresa que assegura a distribuição de correio pelo país. Um cenário sempre afastado pelo PS, que pretendia esperar até 2020 para avaliar essa possibilidade.

Mas, apesar do ministro das Infraestruturas e da Habitação garantir que a entrada no capital não está excluída, também afirmou que essa solução «não está neste momento em cima da mesa» e que o objetivo agora é «preparar a negociação» da renovação do contrato de concessão dos Correios.

Pedro Nuno Santos lembrou ainda que há quatro países que têm empresas de correios totalmente privatizadas: Holanda, Reino Unido, Malta e Portugal. E, no caso português, desde que a empresa foi alienada a privados, em 2014 – permitindo encaixar 909 milhões de euros aos cofres do Estado –, reduziu a sua presença no território nacional, com o encerramento de 33 lojas próprias em sedes de concelho.

«Estamos a falar de uma empresa que foi privatizada na sua totalidade, incluindo toda a infraestrutura necessária e deixa o Estado relativamente desprotegido, se excluísse à partida o regresso entrar no capital», admitiu ainda o governante.

Para Pedro Nuno Santos, não há dúvidas: «Vamos partir para um processo de renegociação que quer preservar e garantir algumas questões importantes para nós», onde se inclui «a presença em todo o território nacional».
Aliás, a presença dos CTT, ou a falta dela, tem sido uma das críticas da Anacom, que chegou a ser um verdadeiro braço de ferro com o anterior presidente da empresa, Francisco Lacerda – que abandonou a liderança dos Correios em maio passado.

A entidade liderada por João Cadete de Matos tem defendido que os Correios estão obrigados a ter, pelo menos, um posto de correios com as mesmas características em todos os concelhos do país e são obrigados a assegurar a prestação da totalidade dos serviços concessionados em condições equivalentes às das estações de correios que, noutros concelhos, cumprem as mesmas funções. 

Uma exigência que tem sido cumprida pelo novo presidente da empresa, João Bento. A par das lojas que têm sido reabertas, o CEO da empresa já veio garantir que vai reabrir entre seis a oito lojas no primeiro trimestre deste ano. E deixou a garantia que há «um conjunto de lojas identificadas» para voltarem a funcionar enquanto estações dos Correios e que esse plano de reabertura será levado a cabo de norte a sul do país. Ainda assim, há 31 concelhos portugueses sem uma loja CTT.

Desde a privatização
No ano em que a empresa foi alienada – e que coincidiu com o fim da ajuda da troika –, fechou com lucros de 77,2 milhões de euros. Um aumento de 26,5% face ao ano anterior, quando tinha atingido os 61 milhões de euros. Esses resultados foram essencialmente impulsionados pelo crescimento dos rendimentos operacionais, para 718,8 milhões de euros (mais 2%) – invertendo cinco anos consecutivos de queda –, «por iniciativas de controlo de custos e implementação de transformações estruturais que permitiram potenciar a eficiência, a agilidade e a sustentabilidade da empresa», explicou na altura a empresa.

Os Correios contavam com 12.523 trabalhadores (uma redução de 2,9% face ao ano anterior), 623 redes de lojas e 1.694 postos de correio. O dividendo proposto nesse ano aos acionistas foi de 40 cêntimos por ação. O correio representava então 70% do total do negócio e atingia 546,2 milhões de euros dos rendimentos operacionais, enquanto a área de encomendas se fixava em 129 milhões de euros (17% do total consolidado).

Mas a partir de 2015 assistiu-se ao início da queda dos lucros. Nesse ano, a empresa na altura liderada por Francisco Lacerda apresentou um resultado de 72 milhões de euros, uma quebra de 6,6% face ao ano anterior. Ainda assim, a empresa distribuiu dividendos de 70 milhões, correspondentes a 47 cêntimos por ação.

O número de trabalhadores também registou uma ligeira redução (0,5%), atingindo os 12.462. O mesmo cenário registou-se na rede de lojas: 619, mas em contrapartida aumentou para 1.711 os postos de correio. 

O Banco CTT arrancou em 2016 com a abertura de 200 balcões. De acordo com a empresa, terminou o ano com mais de 100 mil clientes, 74 mil contas abertas e mais de 250 milhões de euros em depósitos. Um ano que ficou igualmente marcado pela continuação da queda dos lucros, que se saldaram em 62,1 milhões de euros, uma queda de 13,7% face aos 72 milhões de euros registados em 2015. 

Na altura, os Correios justificaram esta redução «como resultado da queda estrutural da receita de correio que registou valores mais elevados que os esperados, com um forte efeito negativo do mix de preços», que passou a pesar menos de 50% dos rendimentos. Já as encomendas foram o que mais contribuiu para o crescimento do setor. Uma tendência que continua a vigorar até aos dias de hoje.

Os CTT contavam nesse ano com 12.479 trabalhadores (mais 0,1%) e os postos de correio registaram uma ligeira subida, passando de 1.711 para 1.724 (mais 0,8%). Uma tendência que não foi seguida pela rede de lojas, que passou de 619 para 615. O dividendo distribuído aos acionistas totalizou os 72 milhões de euros, correspondentes a 0,42 cêntimos por ação.

O ano de 2017 ficou marcado pelo início do plano de transformação dos Correios e com a venda da sua sede, permitindo um encaixe de 16 milhões de euros. Sem esquecer a quebra de resultados superior a 50%. Esse ano, os CTT fecharam a sua atividade com um resultado líquido de 27,2 milhões de euros, uma redução de 56,1% face a 2016.
O número de trabalhadores registou um aumento de 2,6% para 12. 787, enquanto os postos de correio registaram uma subida de 2,1% para 761. A rede de lojas voltou a registar uma queda, totalizando as 608. Já o dividendo distribuído aos acionistas fixou-se em 38 cêntimos por ação, ou seja, mais do que o montante total dos lucros.

A queda de lucros manteve-se no ano seguinte, com os Correios a apresentarem um quebra de resultado de 28% para 19,6 milhões de euros. Segundo a empresa, este resultado foi influenciado pelos gastos com as rescisões de contratos de trabalho por mútuo acordo, que totalizaram os 20,5 milhões de euros, no plano de transformação operacional.
No entanto, os rendimentos operacionais cresceram para 708 milhões de euros, um aumento de 1,4% em relação ao ano anterior. «O aumento dos rendimentos operacionais dos CTT é impulsionado pela evolução positiva do mix de produtos no negócio de correio, que compensou a queda do tráfego de correio endereçado, e pelo crescimento dos rendimentos operacionais de 12,3% na área de expresso & encomendas e de 27% no Banco CTT», explicaram.

Cortes nos dividendos
Os CTT empregavam, em dezembro de 2018, 12.097 pessoas, e contavam com uma rede de 2.383 Pontos CTT. E, ao contrário do que acontecia em anos anteriores, a empresa cortou na distribuição de dividendos: 10 cêntimos por ação, ou seja, nunca os CTT pagaram tão pouco aos seus acionistas, cortando com a política de distribuir mais do que os lucros registados, ficando apenas por 75% dos lucros.

Para já, ainda só são conhecidos os resultados dos primeiros seis meses do ano passado e assistiu-se a um regresso dos lucros. Até setembro foi registado um resultado líquido de 22,9 milhões de euros. «Um aumento que reflete a melhoria operacional da empresa e o contributo da 321 Crédito», explicou a empresa. Além disso, João Bento garantiu que «os resultados revelados mostram que as apostas estratégicas da empresa estão a dar frutos, levando ao crescimento dos principais indicadores económico-financeiros. O Banco CTT mantém a sua trajetória de crescimento, impulsionado pela 321 Crédito e o expresso & encomendas registou também um forte impulso em Portugal».  
Nos primeiros seis meses do ano, a empresa contava com 12.207 trabalhadores, mais 89 face a igual período de 2018. Um aumento relacionado com o Banco CTT e da integração 321 Crédito, caso contrário a empresa contaria com uma redução de 30 trabalhadores.