Cultura

Hans Magnus Enzensberger. Vejam-se no espelho, covardes

Aos 90 anos, um dos maiores intelectuais europeus do último século ganha uma antologia em português que é um gesto de homenagem e encontro numa língua apontada ao futuro.

Num dos seus mais influentes ensaios – Poesia e Política (1962) –, Hans Magnus Enzensberger recorda uma «macabra homenagem» feita uns anos antes pelo politburo de um pequeno país centro-europeu a um poeta, forçando-o a mudar a pontuação que tinha escolhido aplicar aos seus escritos. Foi-lhe dito que, em atenção aos interesses do Estado, era imperativo que voltasse a colocar os pontos finais e as vírgulas no seu devido lugar. Contra a tentação de encontrar ali apenas matéria para a anedota, Enzensberger diz que seria má ideia ficarmo-nos a rir, pois há um dente podre a extrair, e este terá algo a dizer-nos sobre o mau hálito que em geral caracteriza as perniciosas trocas que se vão fazendo entre poesia e política. «Este incidente, por mais irrelevante que possa parecer, chama a nossa atenção para algo que, ainda que seja literalmente verdade, muitas vezes passa despercebido, e mesmo sendo um tema recorrente nas charlas que se ouvem nas esquinas da cultura: há impulsos conservadores e revisionistas, revolucionários e reaccionários na própria poesia.»

A noção que Enzensberger pretende ressalvar é que não ganhamos muito em puxar do escalpelo ideológico para averiguar da natureza inquietante ou, em alternativa, conformista de um poema. Para ele, o ponto de vista do poema pouco importa, já que a única abordagem que este admite ao seu «mecanismo múltiplo de rodas dentadas elípticas» é ao nível da linguagem. Mas aí o poeta e ensaísta alemão adverte que, para isso, há que ter ouvido. Havendo, a surpresa está em descobrir que muitos desses escudeiros que parecem tão leais à Coroa são, afinal, uns discretos vândalos, revolucionários à socapa. Parece que só estão bem a causar distúrbios, disfarçando de desatenção e acidente tudo isso em que há, na verdade, uma aplicação e um escrúpulo imenso. No reverso da moeda, temos aqueles jacobinos políticos que, quando se mandam aos versos, revelam-se uns obscurantistas poéticos. A certa altura, neste seu ensaio, pergunta-nos: «Será que o facto de um poeta defender uma visão conservadora das coisas pode colocar grilhetas à revolta poética que se sente nos seus versos?» E Enzensberger ainda nos serve exemplos, como Baudelaire, que no seu diário escreveu a terrível frase: «Bela conspiração essa que venha a pôr em prática o extermínio da raça judia.» Mas e então? Quer isto dizer que Les Fleurs du Mal poderão ser adoptadas como uma colecção de sermões pelas SS? Há também o caso de T.S. Eliot que, além de posições anti-semitas, era um apoiante da monarquia e da Igreja Anglicana... «Mas será que isso leva a que The Waste Land possa ser lido como uma edificante suplica por uma literatura que regresse à forma como eram as coisas anteontem?» Com isto, Enzensberger pretende ressalvar que a poesia e a política são como azeite e água, podem andar à volta de questões sociais, mas não se misturam. Se uma trabalha ao nível do discurso, a outra está ocupada com as questões do poder. Assim, o poema é bastante desastrado se pretendem fazer dele uma dama de companhia, já que, se tiver algum valor, o que faz é «expressar de forma exemplar o facto de que não está ao serviço de orientações políticas – e esse é o seu conteúdo politico». Enzensberger refere também que, quanto mais forte o poema mais difícil é forçá-lo a render-se, a abdicar do seu ânimo, tantas vezes malévolo, ou mesmo dos seus maus hábitos. 

Em maio de 1975, em pleno período revolucionário, quando Almeida Faria deu à estampa a primeira antologia deste enormíssimo poeta alemão, não precisou de mais do que uma frase para deixar clara a urgência que serviu como princípio orientador da sua escolha: «Porque a política é a sua obsessão dominante e porque hoje em Portugal não há a poesia política que seria precisa, fiz a presente selecção, cujo título é de minha responsabilidade.» Chamou-lhes Poemas Políticos. Em sinal do seu compromisso e cumplicidade com este gesto do escritor português, Enzensberger deslocou-se a Portugal, dinamizando nesse ‘Verão quente’ vários encontros com escritores e intelectuais portugueses. João Barrento – que assinaria já neste século a tradução de Mausóleu, um dos mais importantes títulos do autor –, destaca uma sessão, a 4 de junho, sobre Poesia política no Instituto Alemão de Lisboa em que, além de Almeida Faria e de ele próprio, estiveram presentes Óscar Lopes, Egito Gonçalves, Sophia de Mello Breyner e José Cardoso Pires, entre outros. Ao apresentá-lo, Óscar Lopes disse que o poeta alemão tinha feito da sua vida «um método de descoberta, um método de acção».

Vale a pena ressalvar alguns dos versos que comparecem naquela antologia, e que ainda hoje, quando mesmo as maiores ilusões democráticas, por norma, se servem bem frias, nos aplicam verdadeiros murros no estômago: «digam as orações ao telefone, mas cortem o fio:/ ou embrulhem-nas num lenço cheio de migalhas de pão/ para os peixes estuporados no charco.// que o bispo fique em casa e se embebede:/ dêem-lhe um barrilito de rum,/ terá sede depois de pregar.» Numa poesia que escorraça ademanes e adornos, virando-se para um arsenal a que não faltam terríveis doses de ironia, Enzensberger atira-se ao «padrão-ouro para o rearmamento poético», e recorre muitas vezes a imagens e termos tidos como indignos, a materiais rudes, pobres, até sujos, aos «vocábulos sem aroma (...) impróprios para a espuma doirada da cantilena,/ impróprios para trovadores». Incita a que se vá até ao fim com o seu tempo e não apenas simular cobardia. Depois, há o célebre poema que começa por dizer aos miúdos do 7.º ano: «não leias odes, meu filho, lê os horários».... É uma espécie de curso intensivo em poucos versos sobre a frieza estratégia que exigem estes tempos: «torna-te hábil na pequena traição,/ na diária suja salvação». E conclui: «raiva e paciência são necessárias,/ para soprar nos pulmões do poder/ o  fino pó mortal, moído/ por aqueles que aprenderam muito,/ que são exactos, por ti.» Entre tantos outros textos em que Enzensberger pratica uma arqueologia, súmula e actualização do desejo de revolta face à bota que nos imprime as marcas da sua sola na cara, há ainda este grito «vejam-se no espelho: covardes,/ evitando a fadiga da verdade». E isto de alguém que se confunde connosco, que sente na boca o «mudo vómito, que nada sabe de si», o horror de tantos que «incham de escuro», e nos diz que o custo de se amanhecer com aqueles que vivem de soldo a soldo é evidente: «a minha camisa de morte mudei-a cada dia». É fácil perceber porque Poemas Políticos se mantém um dos documentos mais instigantes entre tudo o que nos tem mostrado essa forma exemplar do poema para escapar à «industrialização da mente» ou aos efeitos da «indústria da consciência». A este respeito é decisivo um texto de 1985, em que Enzensberger cunha o termo «analfabeto secundário», dizendo-nos que este é o produto de uma nova fase da industrialização, quando o problema da economia deixa de ser com a produção e passa a focar-se na venda, aplicando-se assim em criar condições ideais para a reprodução da imbecilidade, de modo a criar os seus qualificados consumidores. Este novo sujeito, produzido em massa pelas instituições de ensino e outras, de velas içadas para os ventos que lhes sopram os meios impressos e audiovisuais, caracteriza-se, além do mais, pela prepotência: acha-se dono de uma riqueza de conhecimentos que servem perfeitamente os seus fins. Na verdade, é precisamente aquilo em que põe a sua fé, a sua crença absoluta no pragmatismo,  que faz dele esse ser infantilizado, incapaz de ter uma visão crítica sobre a sua própria condição.

Enzensberger tem hoje 90 anos. É um dos grandes intelectuais europeus do último século, mas a irradiação do seu pensamento tem esbarrado no retrocesso cultural. Naquele seu Elogio do analfabetismo, prenunciara esta transformação que se impõe no ambiente cultural quando uma população permite que a sua atenção seja capturada por trivialidades, a um tal ponto em que se tome por cultura uma série interminável de entretenimentos, transformando o debate público numa espécie de recreio inconsequente. De acordo com John Simon, responsável por uma recolha de alguns dos principais ensaios de Enzensberger nos EUA, na década de 1980, a fraca divulgação internacional da sua obra não é sinal de um defeito mas de uma qualidade: «Enzensberger sabe lidar com ideias complexas e subtis discriminações num estilo que, ainda que seja tudo menos deselegante, é espantosamente directo e simples.» Simon entende que a turma que mais se encharca com os perfumes intelectuais gosta de autores com um estilo mais arrevesado, prefere obras nas quais não resulta muito claro qual seja o pensamento ou a linha de acção proposta pelo autor. Enzensberger tem uma obra monumental e que se distribui por uma infinidade de géneros – além da poesia e do ensaio, há uma série de obras de dramaturgia, romances que adoptam uma fascinante perspectiva documental, e há uma vastíssima obra como tradutor, seja a partir do francês, do inglês, do espanhol, do sueco e até do russo. Há ainda antologias, e há o trabalho que realizou como editor, tendo fundado duas revistas (a Kursbuch, em 1965, e a TransAtlantik, em 1980). O tom crítico que perpassa toda esta obra, como Simon  refere, é altamente provocador, desassossega, corrói. Encontramos nele «a troça agudíssima de um homem civilizado que não cruzou os braços, mas que escolhe as suas armas com um fastidioso cuidado: os detalhes imersos em implicações, uma ironia onde bate um coração, o incitamento do leitor a pensar.»

Em Portugal, são esparsas as notícias ou ecos que temos recebido das movimentações de Enzensberger. Felizmente, no final do ano passado, o poeta que entre nós mais tem actuado com uma eficácia ao mesmo tempo escandalosa e consequente apresenta-nos uma escolha deste seu comparsa que, como ele, tão longe foi no sentido de criar uma obra absolutamente incorrupta, e que por todos os meios se furta a dizer o que é suposto, a seguir as directrizes do poder. O poeta é Alberto Pimenta. E uma antologia como 66 Poemas – publicada em outubro passado com o selo das Edições do Saguão – é um ferocíssimo gesto em que, entre duas línguas, se estabelece um laço de repúdio pela vulgaridade do que se diz e repete, as ordinarices e os tantos lugares comuns, a imbecilidade do que nos agrilhoa, distrai e infantiliza. Nos poemas de Enzensberger há um desgosto, às vezes até um desespero, que nos «remordem», e se há neles algo de exemplar, até heróico, isso prende-se com o que transpiram por todos os poros, humanamente, recusando dizer o que se esperaria, seguir a pauta no que toca também às queixas e justificações. Estes poemas são de um sinal contrário à política, afastando-se do que deve ser discutido, preferindo dar atenção a essas ninharias de que ninguém quer falar –«uma árvore, uma pedra, coisas que nem existem».

Pimenta sublinha que Enzensberger «tem a arte de saber dizer aquilo que no meio disto tudo o desgosta, e porém dum modo de que se pode gostar, e talvez seja isso uma das suas mais ricas sementeiras de poesia!» Diz-nos isto no fim, depois de termos lido os poemas que escolheu, com aquele humor e ironia que sufocam, poemas onde o ar do tempo foi sujeito a tais torturas que nos surge descaracterizado – ou melhor: exposto, desmascarado. É um ar difícil de respirar, o ar que se respiraria no tribunal da consciência de um homem com uma clareza de raciocínio que nos põe em sentido, que nos provoca temor. Basta que se leia essa longa e sinuosa peça de acusação que é «Escuma». Eis alguns versos: «Quem é que não pára de se empanzinar com a mais/ elevada consideração? (...) Quem não se põe na história a torto e a direito?/ Quem não se arrepende da sua vida? E por que não?/ e por que não? (...) Para onde com o bom Deus? Para onde/ com a sua imagem e semelhança a mastigar/ cacos de vidro? (...) Morre-se na retrete,/ quando se pensa que os homens se comem,/ um homem, sinceramente, ao outro! (…) morre-se na retrete, sinceramente, ao pensar em quem se é! (...) Comprai cultura e dai-lhe voltas entre os maxilares/ como chiclete! (...) Isto não acaba! Morre, ininterruptamente,/ mas não por inteiro; lisonjeado, vai tagarelando/ sobre o apocalipse, à beira do nada ainda emborca caviar».

O que havia de urgência e de brusco saque a contrapelo na antologia de Almeida Faria, parece aqui sujeito a um apuro minucioso, em que a expressão nada tem de natural, e ganha peso um par de versos que lemos na anterior recolha: «isto perdi aqui,/ o que em cima da língua hesita». Já nesta antologia, a própria hesitação da língua é um rasgão que nos não permite avançar por estes 66 poemas sem que os sentidos vão como canários, absolutamente alerta. O que ganha relevo já não é apenas o grau da convicção, mas a noção de que o processo revolucionário da poesia está vinculado a um laboratório enfiado alguns pisos abaixo do ruído do mundo, e que a autópsia se faz com instrumentos esterilizados pelo silêncio. Como dizia Enzensberger no ensaio que começámos por referir, é «em quartos anónimos e não nas salas de congressos que bardos num estado febril anunciam revoluções mundiais na linguagem do observador de aves que se pôs a versejar».

Alberto Pimenta trata de ir buscá-lo ao alemão que é de Enzensberger, e fá-lo entrar, não num português que ressoa pelos anfiteatros, mas num idioma que sabe colher as imperfeições da poesia, obrigando a língua a dizer algo que está ao lado, um pouco além do seu alcance natural. E a transmissão que assim se apanha foge ao que está aí já a ser discutido; é qualquer coisa que vem do futuro. O futuro, diz-nos Enzensberger, é isso que, em face do que actualmente é dado como adquirido, nos fala antes do que é óbvio mas de que não nos apercebemos. «Francis Ponge disse que escreve os seus poemas como se estivesse a fazê-lo no dia a seguir a uma revolução bem sucedida», lembra o alemão, adiantando que isto pode ser dito sobre toda a verdadeira poesia. «A poesia é a coisa que se serve em antecipação, mesmo quando se assume como dúvida, recusa ou negação. Não é que fale do futuro, mas fala como se o futuro fosse possível, como se a liberdade de expressão fosse possível entre pessoas livres, como se não estivéssemos sujeitos aos fenómenos de alienação.» E, assim, na mais leal das homenagens a Enzensberger, Pimenta muda uma vez mais a sua camisa de morte e perfuma-nos o quarto de vida.