Opiniao

Papagaios na minha biblioteca

Um destes dias, estando à janela, vi passar um pequeno bando de papagaios. Papagaios na grande Lisboa? Ainda por cima no inverno? Isso mesmo. E estes eram de um verde intenso, vibrante, que fazia pensar em paragens exóticas. Era o tipo de aves que esperaríamos ver numa selva luxuriante, numa cidade como o Rio de Janeiro... ou na gaiola de uma loja de animais. Mas estes belos espécimes andavam ali à solta, esvoaçando entre as árvores da casa do vizinho.

O papagaio é um animal simpático, que associamos às crianças, aos trópicos e à banda desenhada. Na Idade Média e no Renascimento não era exatamente assim. Os artistas viam nele um símbolo da Virgem Maria – tanto quanto sabemos, por acreditarem que as suas penas não se molhavam. Tal como os papagaios conseguiam repelir a água da chuva, também a Virgem repelia os pecados e se mantinha perfeitamente imaculada.

Aquela visão dos papagaios lá fora conduziu-me a uma estante alta, qual poleiro, onde está arrumado um pequeno volume, de formato quase quadrado, intitulado Les Oiseaux (Os Pássaros). 

Nas suas páginas encontramos uma seleção de cerca de duzentos desenhos e gravuras de aves, todos eles pertença do espólio imenso do MuseuBritânico – que tem meio milhão de pranchas assinadas pelos maiores nomes da arte naturalista e um milhão de livros ilustrados.

Folhear estas páginas é ver desfilar perante os nossos olhos um espetáculo deslumbrante. Não custa perceber porque as aves raras eram outrora muito apreciadas pelos reis e poderosos (e ainda hoje o são, sobretudo nos países do Médio Oriente): as plumagens de algumas espécies, pela sua riqueza, variedade, requinte, colorido e exuberância, só podem ser comparadas a joias autênticas.

Além dos belos desenhos que aqui desfilam, também a descoberta dos seus autores pode revelar surpresas fascinantes. Entre eles encontram-se Sir Hans Sloane, o médico, viajante e naturalista dos séculos XVII-XVIII cuja coleção estaria na origem justamente do Museu Britânico; William Ellis, que acompanhou o capitão Cook na sua terceira grande viagem (na qual o intrépido explorador morreria) e que registou para a posteridade vários pássaros hoje extintos; e finalmente o genial Edward Lear. Openúltimo de 21 filhos, Lear tornar-se-ia mundialmente célebre pelo seu Livro de Nonsense. Na juventude, porém, era um exímio desenhador de aves. Passava dias inteiros no Jardim Zoológico de Londres a pintar papagaios, como descreveu numa carta a um amigo:

«Now I go to my dinner,
For all day I’ve been a-
way at the West End,
Painting the best end
Of some vast Parrots
As red as new carrots».