Pátio das Cantigas

O ‘render da guarda’ no Largo do Caldas...

Três anos depois da revista Forbes ter escolhido o então líder da Juventude Popular, de seu nome Francisco Rodrigues dos Santos, para figurar na lista dos 30 jovens ‘mais brilhantes’ da Europa, eis que esse quase desconhecido conquistou o Congresso do CDS de Aveiro, com uma confortável vantagem sobre João Almeida, o candidato mais institucional, patrocinado pelo ‘establishment’ centrista.

Os ‘senadores’ do partido viram partir Assunção Cristas – que se retirou com dignidade, após a pesada derrota sofrida nas legislativas – e reagiram com inesperada acrimónia, como António Pires de Lima, à ascensão de um dirigente com pouco mais de 30 anos, a quem os seus pares reconhecem talento e uma invulgar capacidade de mobilização, cuja fama já vem do Colégio Militar, onde cresceu. Depois, tem convicções abertamente conservadoras, que não nega.

Para surpresa de alguns, afirmou-se num discurso de rutura com cedências que afastaram o CDS do seu eleitorado tradicional, não se revendo em modas ditadas pela agenda das esquerdas.

Recorde-se que, em outubro de 2017, Assunção Cristas ainda ‘passou a perna’ ao PSD nas autárquicas, consagrando o CDS como segunda força política em Lisboa. Pedro Passos Coelho cometera um erro de ‘casting’ ao indicar Teresa Leal Coelho como candidata social-democrata, e foi ‘retribuído’ com uma campanha desastrosa, sem chama. Um fiasco.

Infelizmente para os lisboetas, que concederam o benefício da dúvida a Fernando Medina, as esquerdas juntaram os votos suficientes para continuarem a desfigurar a capital, e nem Teresa Leal Coelho nem Assunção Cristas se deram ao trabalho de desmontar essa teia e contrariar as barbaridades semeadas pela cidade.

O imobilismo de Cristas e Leal Coelho na vereação é o espelho, afinal, da paralisia do CDS e do PSD a nível nacional, permitindo o aparecimento de dois partidos à direita a tentar a sorte junto dos descontentes.

Se o PSD estagnou pela mão de Rui Rio, já a mudança geracional no CDS promete arejar o partido, contra a vontade dos ‘instalados’ e muito à revelia do aparelho.

E que ideias impregnaram o discurso do agora ex-líder da Juventude Popular? Por estranho que pareça, foi buscá-las, sem medo, ao baú onde o partido as ‘trancara a sete chaves’, temendo infringir o ‘politicamente correto’.

Em lugar de submeter-se à lógica da continuidade, Francisco Rodrigues dos Santos soube guardar distâncias em relação ao casamento gay ou ao aborto, sendo particularmente incisivo no tocante à ‘sexualização’ das escolas públicas, que já criticara no Verão passado, quando foi publicado um despacho normativo do Ministério da Educação, uma espécie de manual de ‘boas condutas’ na aplicação da lei da identidade de género.

Sem subterfúgios, foi contrário a essa aberração e dispôs-se a combater a chamada ‘ideologia do género’, umas das bandeiras da esquerda radical.

Com o descer do pano no Congresso centrista, há quem pense que o ‘portismo’ – ainda sobrevivente em Cristas – tem os dias contados. É uma nova geração que sobe ao Largo do Caldas, inconformada com o desnorte da direita portuguesa.

Cristas não soube afinar a mira, e Rio não descola dos confortos a norte, sem vocação nem feitio para protagonizar uma verdadeira oposição ao Governo das esquerdas.

Resolvida (por enquanto…) a liderança social-democrata, Rio aguarda a ‘entronização’ no próximo Congresso, enquanto Pedro Passos Coelho, por sinal também a norte, escolheu a cerimónia da posse dos novos órgãos da concelhia do PSD de Ponte da Barca para reaparecer e quebrar o silêncio, convocando o seu partido e o CDS para um «voto público» no sentido de se unirem numa plataforma para desenvolver «as ações reformistas importantes» de que o país precisa.

Passos Coelho sabe que é, no fundo, o líder a que muita gente inconformada aspira no interior do PSD, desejosa de que acabem as suas ‘férias sabáticas’ da política, ‘refugiado’ numa universidade pública.

O ex-primeiro ministro, que suportou estoicamente os tempos da troika – a braços com as sequelas herdadas da bancarrota dos governos socialistas de Sócrates –, reapareceu entre congressos à direita, sabendo que só ele poderá federar setores que não se identificam com as esquerdas. Mas o primeiro obstáculo chama-se Rui Rio, com quem não poderá contar.

Já Francisco Rodrigues dos Santos precisará de fôlego para arrumar a casa, evitando envelhecer depressa, como Manuel Monteiro, que fez antes o mesmo roteiro partidário.

É verdade que Passos Coelho não é António José Seguro, que ‘atirou a toalha ao chão’ depois de ter sido empurrado por António Costa. Nem o recém-eleito líder do CDS irá repetir os disparates de Monteiro. Por isso, as esquerdas vão ter com ambos muito trabalho. E já se nota...