Opiniao

O Silêncio das Monjas

Fiquei raramente impressionado com a reportagem sobre as Monjas de Belém no Sexta às 9 da RTP. Este é um programa que nunca perco, porque considero que é dos poucos programas que vai procurando adentrar na verdade dos factos. 

Fiquei impressionado por várias razões, mas a principal é que o programa que prometia ser sobre as Monjas de Belém centrou-se na dor de um pai que vê a filha entrar num mosteiro de eremitas.

Vou começar por ler um texto da Sagrada Escritura retirado da Bíblia de Jerusalém – uma das traduções que reuniu mais cientistas e estudiosos. O texto diz: «Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lc 14, 26). Na nota dessa mesma bíblia, os exegetas – que interpretam o texto – dizem o seguinte: «Hebraísmo. Jesus não exige ódio, mas desapego completo e imediato».

Quando fiz 37 anos de idade percebi a carga destas palavras, que até então tinham sido para mim poesia. E porquê 37 anos? Quando eu entrei para o seminário, a minha mãe tinha exatamente essa idade e aí percebi o sofrimento que eu, como filho único, tinha incutido nos meus pais. Eles eram tão novos, com um só filho, e eu entrava no seminário para de lá só sair como padre. 

Percebi que esse desapego que a Palavra me exigiu um dia de me separar da minha família, não era um ato isolado. De facto, o meu desapego era acompanhado do desapego do meu pai e da minha mãe. Foi isto que me impressionou na reportagem daquela noite. O próprio pai na reportagem o diz: «Não sinto que me roubaram a minha filha, mas que roubaram a minha filha à minha filha».

A vida das Monjas de Belém tem como carisma a paternidade de São Bruno – que veio a fundar os monges Cartuxos – e de São Bento – que veio a fundar os monges Beneditinos. Têm por um lado o carisma de encontrarem Deus na solidão do seu Ermitério e por outro lado o carisma de proporcionarem esse mesmo encontro a tantos homens e mulheres que se querem encontrar com Deus nessa mesma solidão.

Agora podemos responder a algumas questões levantadas no Sexta às 9. As Monjas de Belém têm uma especial ligação ao movimento Comunhão e Libertação? A resposta é: Não! Conheço mais monjas vindas de outros movimentos, do que provenientes deste movimento. 

As Monjas de Belém passam fome? A resposta é não! Tenho conhecimento de várias famílias que se juntam e que providenciam o necessário para a vida das irmãs neste mosteiro do Couço.

Como vivem as Monjas as questões da pobreza? De facto, o pai tinha razão: «Ela não pode ter nada em nome dela e tudo o que tiver terá que doar». É assim com as monjas e com todos os religiosos que fazem votos de pobreza, obediência e castidade.

Quanto à visita canónica, não foi de iniciativa da Santa Sé, mas foi pedida pela prioresa e pelo prior geral da congregação a 21 de novembro de 2014 e todas as monjas receberam o resultado dessa visita. Aliás, é dito na própria reportagem pela boca de uma das monjas e pela própria jornalista – é preciso que haja um governo mais colegial e que seja terminada a regra de vida.

Então dizem que a ‘Regra de vida’ tem 800 páginas, mas não dizem o tamanho das páginas. Depois diz o pai que «as regras parecem muito severas» e que «não têm televisão, não tem internet, não têm telefone – só existe um para a utilização da prioresa para quando existe algum caso urgente». Mas, são monjas Ermitas!!!! O que é que não percebemos ainda?

Isto faz-me lembrar quando em 2002 uma jovem do Milharado, em Lisboa, entrou para as Monjas de Belém e veio-se despedir de outros jovens. Durante a conversa, lembro-me de estar tudo contra ela: mas já experimentaste outra ordem? Não achas que é muito rigorosa? Como é que podes ter a certeza que é esta? Não será melhor uma congregação religiosa missionária para fazer bem às pessoas? Não vais desperdiçar o teu tempo só a rezar? Ela, olhou meigamente para todos e perguntou: «Mas por acaso vocês conhecem Deus?».