Opiniao

E depois do congresso?

Há na Coimbra antiga um restaurante de velha tradição com forno de lenha e umas batatinhas nele assadas que bem acompanham seja o que for, porque são um pitéu e tudo ali é de qualidade e de subserviência ao paladar.

Cliente de longa data, com idade de sabedoria, diz que à Taberna de Coimbra leva «os amigos para ficarem mais amigos, os indiferentes para ficarem amigos e os inimigos para, ao menos, dela mal não dizerem».

A história não se fica por aqui. Tem um pequeno acrescento. Particularmente interessante. Certo dia, tendo tido exatamente a mesma conversa com um outro comensal, logo este a interrogou sobre a qual das categorias pertencia, recebendo dela a seguinte e sábia resposta: «Meu caro, diga eu o que disser, Vossa Excelência é quem verdadeiramente saberá em qual das três se reconhece».

Um tudo de nada mais a norte, em Aveiro, no fim de semana passado, o CDS elegeu Francisco Rodrigues dos Santos sucessor de Assunção Cristas na liderança do partido. 

Alcunhado de ‘Chicão’ na JP, o jovem virou o congresso do avesso logo na primeira intervenção, elevando a voz e o desafio aos seus pares de tal forma que até o presidente da mesa, o ‘histórico’ Luís Queiró, disse perceber tamanho «entusiasmo» ao tentar atalhar o discurso para além do tempo devido.

Luís Queiró é irmão de Manuel Queiró e filho do antigo professor de Direito Administrativo da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra Afonso Queiró. Provavelmente conhece a Taberna de Coimbra. Ou talvez não, não sei.

João Almeida, dedicado centrista que também foi líder da JP, deputado, secretário-geral e praticamente tudo o que um empenhado militante pode ser num partido, chegou a Aveiro como natural favorito – por contar com os apoios de todos os deputados, de todos os presidentes de Câmara eleitos pelo CDS, da esmagadora maioria dos ‘notáveis’, como Luís Queiró, e da quase totalidade dos membros da direção cessante e representantes da geração popular portista. Além, claro, mas embora não declarado, do próprio antigo líder Paulo Portas.

Na corrida, com peso, estava ainda Filipe Lobo d’Ávila, que acabou primeiro vice-presidente de Francisco Rodrigues dos Santos, mas que, caso João Almeida tivesse sido o vencedor, também por este poderia ter sido convidado a ocupar o mesmíssimo lugar. Se tinha algumas hipóteses no início – embora não tantas como João Almeida nem como ‘Chicão’ – cedo perdeu as ilusões ante a performance do líder dos jovens centristas.

Francisco Rodrigues dos Santos tinha, à partida, uma centena de delegados certos – os representantes da ‘sua’ juventude. Mas tinha mais: os pais e avós desses jovens, crentes na necessidade de renovação do partido e na recuperação das suas linhas programáticas de direita, conservadora, liberal, fiel aos costumes e à doutrina social da Igreja. E Manuel Monteiro, o antigo líder do CDS, recentemente reinscrito no partido que a direção de Cristas retardou em reconhecer e que talvez agora veja mais rapidamente concretizado o direito a regressar ao partido como militante de base.

Francisco Rodrigues dos Santos ousou pronunciar o nome de Monteiro em pleno congresso, numa lista em que incluiu também Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Adriano Moreira, Francisco Lucas Pires, Paulo Portas, Ribeiro e Castro e Assunção Cristas. Ou seja, todos os líderes do partido, incluindo os proscritos do portismo e os proscritos do monteirismo.

Francisco Rodrigues dos Santos sabe que o CDS, para voltar a ser um partido de poder, de Governo, tem de afirmar-se pela positiva e trilhar um caminho sem dúvidas programáticas. Mas precisa, em primeiro lugar, de um líder com carisma, com rumo, com capacidade  de afirmação e de mobilização.

É certo que, em Aveiro, ao escolher Francisco Rodrigues dos Santos, o CDS virou definitivamente uma página histórica e fechou o ciclo do portismo.

Dir-se-ia que foi quase um congresso com sabor a vingança, servida fria, como se serve aquela célebre sopa.

Para quem gosta de política, do xadrez político, das lutas, das querelas, do debate político-partidário, não há como um bom congresso à moda antiga. Como já só existe no CDS. Muito mais do que dos jogos de bastidores, do caciquismo e do aparelhismo que podem determinar o resultado de umas eleições diretas, em congresso é a emoção de um bom discurso, de uma boa interpelação ou o carisma e as características de um líder que definem o vencedor.

Foi assim tantas vezes no passado. No CDS, mas não só (no PSD são históricos). Voltou a ser assim em Aveiro.
Só que, passado o mediatismo da reunião magna, importa agora saber como vai o CDS – com seu novo líder – afirmar-se no espetro político saído das legislativas, principalmente tendo o Chega e André Ventura no caminho.
Como o outro, daqueloutra história, diga-se o que se disser, só mesmo Francisco Rodrigues dos Santos verdadeiramente saberá onde quer mesmo posicionar-se.
Mas a hesitar e titubear, como na Grande Entrevista à RTP, nesta semana, porventura nunca vai chegar lá.