Sociedade

Ana Gomes: "O Rui Pinto não me deu nada"

É uma das vozes mais críticas daquilo a que chama a ‘cleptocracia angolan’a e da corrupção em geral. Ao SOL, Ana Gomes afirma que há mais casos para além de Isabel dos Santos. E assume que ser criticada por José Miguel Júdice «é um elogio».

Como vê hoje tanta gente a falar do Luanda Leaks com surpresa, sendo que durante anos nada disseram sobre os negócios que foram sendo feitos?

Vejo como sinal de tremenda hipocrisia, porque realmente isto não era novidade para ninguém. Foi amplamente exposto em diversos aspetos pela imprensa portuguesa. E a tática dos responsáveis, quer do poder político quer dos reguladores e de outras instituições, foi desvalorizar. A tática era deixar passar e não fazer nada. Hoje ensaiaram a desculpa de que precisávamos de dinheiro. mas essa desculpa não vale, senão, vamos abrir as portas à criminalidade da droga, que dá imenso dinheiro e dá imenso emprego, ou ao tráfico de seres humanos, ou de armas. Do meu ponto de vista, não há nada de mais criminoso do que uma cleptocracia que rouba o seu povo e o deixa na miséria e no sofrimento que está o povo de Angola.

Mas nestes anos tem-se falado muito em Portugal no combate à corrupção, mesmo por parte dos Governos. Esta permissão ou desvalorização foi acontecendo porque o crime seria praticado fora e só beneficiávamos do seu produto?

(Risos) Nos últimos anos não só não houve combate sério à corrupção, como houve incentivo à corrupção. O que foram as privatizações durante o tempo da Troika? Houve uma desbunda para a corrupção. O que foram as PPP em muitos aspetos? Não quer dizer que as PPP sejam más por si, mas a forma como foram feitas,, sem controlo, foram uma desbunda para a corrupção. O que são os ‘vistos gold’ senão uma desbunda para a corrupção e para a criminalidade, para a infiltração criminosa, pela total opacidade em que estão revestidos? Não tem havido estratégia de combate à corrupção. E o caso Luanda Leaks expõe isso claramente. E a corrupção e a captura das instituições por elementos da criminalidade não é apenas ao nível do poder político, é das entidades reguladoras e é das próprias autoridades judiciais. Estamos num país onde há dois juízes a serem investigados por corrupção, onde há um procurador já condenado por esse crime e onde há inspetores da Judiciária condenados por serem elementos de quadrilhas. Infelizmente, ninguém escapa e quanto mais deveria ser o seu papel no combate ao branqueamento de capitais e à criminalidade associada, incluindo a corrupção, mais volátil é a instituição à captura por parte de organizações criminosas.

Falou em magistrados, no caso do procurador que citou a condenação foi exatamente por crimes que envolverão a elite angolana, pessoas que neste momento poderão até fazer parte de outra fação, digamos assim.

É a mesma fação, a fação dos Santos. Manuel Vicente roubou à conta do Presidente José Eduardo dos Santos.

Mas sabemos que existem sempre cisões a determinado momento.

O sistema cleptocrático era o mesmo. Eles roubaram todos sob a égide do Presidente José Eduardo dos Santos. Que agora tenham contradições, isso é outro problema. Aliás, já tinham contradições atrás, para ver quem roubava mais. Mas o caso de lavandaria no banco que é da senhora Isabel dos Santos tem réplicas noutros bancos que são de outros ladrões da cleptocracia angolana, designadamente Manuel Vicente. O que é que é o BNI, senão o banco participado por Manuel Vicente? O que é o Banco Privado Atlântico Europa?

Ligado a Carlos Silva...

E a Manuel Vicente. E o que é o banco BIG, participado por generais, como Kopelipa, e o próprio Manuel Vicente. Não vamos falar do BCP, que é por Sonangol interposta.

Isabel dos Santos é o início do combate à corrupção ou a queda de um mal necessário para que o sistema continue na mesma?

Eu espero que seja o início de uma mudança na atitude relativamente à corrupção. Mas efetivamente o trabalho é ciclópico, vai exigir grande determinação política. O combate à corrupção é indispensável a Angola, mas também é importante para nós, porque a interação entre os dois países obviamente precisa de continuar. E, se não se combate a corrupção em Angola, também podemos ter a certeza que ela não vai ser combatida cá e vai continuar a infiltrar-se.

Disse que Rui Pinto tem muitos outros leaks, há mais a envolver Angola?

Não conheço sequer o conteúdo dos Luanda Leaks, nada do que fiz foi com base em documentação do Rui Pinto. Não há uma ponta das minhas comunicações para o Banco de Portugal, para a Procuradoria-Geral da República, etc, que seja proveniente do Rui Pinto. Estou a ler os Luanda Leaks à medida que vão saindo. Eu não conheço o que lá está, nem sei se o próprio Rui Pinto tem amplo conhecimento de tudo o que ele lá tem nos discos dele. Há vários discos encriptados que só podem ser desencriptados com a colaboração dele e espero que quando as autoridades portuguesas acordarem e começarem a perceber que o Rui Pinto deve ser um aliado comecem a explorar o conteúdo desses outros discos que ele tem. Sei que há muita gente em Portugal que deve tremer com o que possa lá estar e acho absolutamente fundamental que as autoridades comecem a colaborar com Rui Pinto e acabem com a prisão preventiva dele, independentemente de o levarem a julgamento. Porque é um escândalo para todo o Portugal que Ricardo Salgado esteja descansadinho nas suas sete quintas e o jovem Rui Pinto, que prestou tão relevantes serviços públicos – com as revelações do Football Leaks, do Luanda Leaks e do Malta Files –, continue preso. É uma vergonha e é um escândalo.

Dada a sua atitude, não acha que pode ser usada como arma numa guerra política em Angola?

Eu não sou ingénua e sei bem que há jogos políticos lá e cá. Agora ninguém me pode acusar de não ter sido absolutamente vocal a criticar  o atual Governo e o próprio poder judicial por se terem prestado a resolver o ‘irritante’ da forma como resolveram, designadamente enviando para Luanda o processo de Manuel Vicente, cedendo ao poder político angolano e eventualmente aos jogos políticos internos de Angola. E sabendo que Manuel Vicente não ia ser julgado tão cedo, porque estava coberto por uma amnistia. Se houve aqui voz que criticou a atuação das autoridades portuguesas e que se opôs ao envio do processo para Angola fui eu. Portanto, não penso que me possam acusar de ser seletiva e estar encarniçada relativamente à senhora dona Isabel dos Santos... Não, eu estou encarniçada é relativamente a qualquer ladrão, elemento da cleptocracia angolana, que tenha usado Portugal para os seus fins criminosos com cúmplices portugueses. A mim interessa-me que a Justiça vá a todos em Angola e aqui, porque isso é tão importante para Angola como é para o combate à corrupção e a outra criminalidade aqui em Portugal.

O Rui Pinto tinha noção de que com estes documentos poderia pôr em causa Isabel dos Santos?

Acho que sim, tinha absoluta noção. E tinha noção de que isto não é só sobre Isabel dos Santos, é sobre a corrupção em Portugal.

Quem é Rui Pinto?

Eu só o vi três ou quatro vezes, quando o fui visitar. A perceção que tenho é a de que é um jovem inteligente, muito inteligente, culto, que teve uma infância muito difícil, visto que perdeu a mãe muito cedo. Acabou por ficar entregue um pouco a si próprio, com o grande interesse do futebol e aprendendo sozinho a desenvolver as suas capacidades informáticas, que todos me dizem que são fora de série e geniais. Possivelmente em determinado momento admito que possa ter exteriorizado tentações de ganhar dinheiro à conta dessas capacidades. À medida que foi fazendo as investigações, por estar escandalizado com o que ia vendo, não só no futebol, mas também com a cobertura que os negócios do futebol iam tendo nas outras instituições, penso que foi ganhando consciência política. E acho que deve ter sido muito importante para ele o trabalho que passou a fazer a partir de determinada altura com os jornalistas do consórcio e acho que ele a partir daí ganhou a consciência da importância de ser um whistleblower. E de não estar apenas a utilizar esses conhecimentos quer para o futebol, quer para eventualmente outros objetivos de ganhar dinheiro na vida. Ganhou consciência na interação com os jornalistas do Der Spiegel com quem partilhou os dados do Football Leaks.

Mas é adulto nas abordagens que faz aos temas, à atualidade...

Absolutamente adulto, inteligente, culto, é um jovem formado em História. É forte, animicamente muito forte. Estou muitíssimo bem impressionada com a personalidade de Rui Pinto.

O ter pedido dinheiro á Doyen é um dos pontos frágeis para a tese de denunciante...

Não sei se foi verdadeiro ou não. Mas, primeiro: o que é a Doyen? É uma organização, que tem por trás outra organização criminal, um grupo de criminosos do Cazaquistão. Em última análise, e se é essa a lógica, ladrão que rouba a ladrão... O que me faz espécie é que as autoridades portuguesas, sem saber o que é a Doyen, se mobilizam todas por uma queixa desta. E nunca foram ter com o Rui Pinto, ao contrário das autoridades de outros países europeus, a pedir apoio para ir atrás da grande criminalidade, incluindo a que se esconde atrás da Doyen. Se o Rui Pinto cometeu ilícitos, isso é o tribunal que tem de apurar e tem de valorar os factos. E essa valoração não pode ser independente da valoração que deve fazer do extraordinário serviço público que resultou dos leaks feitos por Rui Pinto.

Mas então não é contra a responsabilização criminal de Rui Pinto.

Não, pelo contrário. Se cometeu os ilícitos de que o acusam, deve ir a julgamento e isso deve ser valorado. Agora, não pode deixar de ser valorado também à luz do extraordinário serviço público que já prestou ao país e ao mundo.

Certamente que já sabia que o consórcio estava a preparar este trabalho. Isso deixou-a mais tranquila em tribunal, no processo que lhe foi movido por Isabel dos Santos?

Quem meteu o processo foi a senhora Isabel dos Santos e estou convencida que quando avançou com a queixa – foi em outubro e eu fui notificada em novembro – ela pensaria que tinha tudo na mão, incluindo a Justiça em Portugal. Suponho que eles só tiveram conhecimento das investigações, dos Luanda Files, quando Isabel dos Santos e o pai foram confrontados no final de dezembro com as perguntas feitas pelos jornalistas. Eu sabia que havia uma investigação jornalística desde setembro, ou talvez um pouco antes, ainda que só no último mês é que soube que a fonte era Rui Pinto.

E o que sabia ao certo?

Sabia que a investigação era centrada, não sabia que havia tantos documentos, no desvio de recursos da Sonangol para o Dubai, depois de a senhora ter saído da Sonangol. E eu tinha ao longo destes anos todos escrito ao Governo, ao Banco de Portugal e à PGR sobre outros casos que eram até divulgados pela imprensa portuguesa, a compra da Efacec e várias informações sobre diamantes, relacionadas com o processo Omega Diamonds na Bélgica. Sempre tratei de outros casos. Eu fiz um mapeamento em 2016, com base em fontes abertas, das empresas da senhora dona Isabel dos Santos e cheguei à conclusão que eram 40, incluindo alguns veículos vazios, que eram apenas veículos de lavagem de dinheiro. Ora, afinal não eram 40, eram 400.

Como viu a morte do gestor de conta de Isabel dos Santos?

Qualquer morte é absolutamente trágica e de lamentar. Na documentação que eu tenho, sem dúvida que esse senhor tinha claro conhecimento e tinha obrigações. Tinha envolvimento nos esquemas da senhora dona Isabel dos Santos para lavar dinheiro e para o banco não cumprir as obrigações. Espero que as autoridades cheguem à conclusão de que efetivamente foi suicídio, porque também não posso excluir que ele tenha sido suicidado. Imagino que haverá motivos tanto para o suicídio como para haver alguém que o queria suicidado.

Dos últimos Governos há algum que tenha sido menos conivente com estes esquemas?

Acho que todos, desde o tempo do Governo do prof. Cavaco Silva como primeiro-ministro e Durão Barroso como secretário de Estado e depois ministro, todos os Executivos foram coniventes por inação e por omissão. Usando-se distintas justificações, uma delas era a de que o país precisava de investimento, ora investimento com  pés de barro, com dinheiros que vêm de dinheiro sujo nunca é bom investimento.

Considera-se uma mulher radical, populista, exagerada e próxima da extrema esquerda?

(Risos)

Sabe quem o disse?

Não.

Foi José Miguel Júdice...

(Risos) Olhe, vindo desse senhor, é um elogio. Esse senhor, que andou a ganhar milhões à conta da senhora dona Isabel dos Santos...

Vamos lá, radical?

Radical sim, designadamente contra a corrupção e a injustiça.

Populista?

Populista acho que não sou, mas procuro ouvir o povo e dar expressão ao que o povo pensa. E o povo pensa muito mal e tem pouca confiança nas instituições políticas e outras se elas não funcionam, se protegem os criminosos.

Exagerada?

Às vezes sou (risos). Mas muitas vezes tenho razão em ser exagerada, porque infelizmente a realidade fica muito aquém do meu exagero, olhe ainda há bocadinho disse-lhe que mapeei 40 empresas da senhora dona Isabel dos Santos e afinal tem 400.

E próxima da extrema esquerda?

Ah, sou da esquerda, sou. Da extrema esquerda não sou, mas da esquerda sou. E, para mim, sim, faz toda a diferença ser de esquerda. Não sou e não tenho nada a ver com a direita, aliás, quem fala bem da extrema direita é o dr. José Miguel Júdice, que vem da extrema direita.

Bom, no mesmo espaço de comentário foi referido que Francisco Assis é mais moderado e que só apoiou a sua candidatura por estratégia, por serem dois mal amados pelo partido.

Considero-me bastante amada pelas bandas do PS, tenho muitas mensagens de apoio de muita gente do PS. E eu não atuo com o objetivo de ser amada por toda a gente. Aliás, eu quero desagradar a muita gente. Àqueles por quem não tenho consideração e que acho que são criminosos e corruptos, em todos os quadrantes. Eu tenho muita consideração por Francisco Assis, em quem tive sempre um bom colega no Parlamento Europeu. Naturalmente que temos diferentes sensibilidades, muitas vezes discordamos, mas discordamos lealmente e frontalmente. E, portanto, não tenho dúvida de que não há qualquer jogo da parte de Francisco Assis no que pôs cá fora. E não há qualquer jogo, porque eu não me presto a qualquer jogo. Ponto.

Por que disse que António Costa jamais permitirá que seja candidata do PS a Presidente?

Porque é um facto e porque eu jamais quererei uma divisão do PS. Eu quero que o PS tenha um candidato, mas que seja um candidato único e não que vá dividir.

E seria uma candidata que dividiria?

Ah, sim. Com certeza. Eu tenho a certeza de que o secretário-geral do PS, como disse, nunca me apoiaria em nenhuma candidatura (risos).

Então essa hipótese não se coloca na sua cabeça até mesmo por ser uma candidata que teria consequências que não quer para o partido, neste caso a divisão...

Eu não quero. Não sou candidata a nada. Ponto. A nada. Sou uma reformada irreformável.

Nem que lhe pedissem?

Não me movo por cargos. Não sou candidata a nada.

A posição que teve quando a corrupção tocou o PS - e o ter falado dos casos quando ninguém falava - é um dos motivos para que hoje seja um nome que divide?

Acho que o facto de eu ter sempre estado com aqueles do PS que quiseram combater a corrupção e que pagaram por querer combater a corrupção é um fator que leva certos elementos do PS a não apreciar o meu trabalho (risos). Como um grande partido de poder e como um partido bastante aberto e abrangente, é evidente que o PS, tal como o PSD e o CDS, particularmente vulnerável às infiltrações daqueles que servem determinados interesses e não o interesse geral do país. Já disse que a questão Sócrates exigiria uma introspeção e uma autocrítica do PS que infelizmente até hoje não foi feita.

Por que acha que deveria ser feita?

Porque não quero voltar a ver o PS a deixar-se instrumentalizar por um megalómano patológico que, enfim, utilizou o PS para esquemas de enriquecimento pessoal.

Mas não tendo havido tal reflexão nestes últimos tempos, em que o PS ganhou eleições e esteve em estado de graça, com uma solução como a ‘Geringonça’, que teve a participação de partidos críticos da era Sócrates, acha que ainda acontecerá no futuro?

Depende tudo do impulso da liderança política. Eu lamento que de facto não tenha havido até aqui e tenho-o dito sucessivamente em congressos no partido. Neste momento, tenho particular pena que, tendo o PS ganho as últimas eleições, e tendo possibilidade de fazer reformas de fundo que poderiam trazer justiça social e real combate à corrupção, não tenha optado por uma solução mais estável e abrangente. Tenho pena que não tenha sido experimentada uma ‘Geringonça dois’, outra ‘Geringonça’. Que daria estabilidade e outro élan ao Governo para lançar as reformas de fundo que são tão importantes neste país, desde a reforma fiscal a outras. É difícil que o PS venha a ter mais votação do que agora teve e, portanto, perdeu uma oportunidade de fazer reformas de fundo que só se podiam fazer com sustentação mais ampla no Parlamento. Como militante base tenho pena e assumo.

Sobre a estratégia nacional de combate à corrupção anunciada, acha que há esperança, uma vez que o Governo é o mesmo dos últimos anos?

O simples facto de ter sido criada uma comissão para estudar essa estratégia é significativo de que a estratégia não existe até agora. Eu não desisto do país e não sou tão pessimista quanto isso e quero crer que essa comissão pode, de facto, trazer uma contribuição importante. O grande problema neste país não é termos relatórios que façam um diagnóstico da situação e proponham medidas e recomendações, é depois pô-las em prática. No ano passado, tivemos uma comissão a estudar o sistema de benefícios fiscais, que é absurdo e dá origem a muita da criminalidade fiscal no nosso país. Foi feita uma excelente análise, o próprio ministro Mário Centeno assumiu que era preciso acabar com cerca de 500 benefícios fiscais que já nem se sabia porque existiam, mas o que foi feito? Não temos nenhum conhecimento. O problema neste país não é criar comissões é depois tomar as medidas.