Cultura

O erotismo da Idade média

Frades e freiras com amantes, nobres incestuosos, prostituição, homossexualidade e... palavrões. Os cancioneiros medievais escondem poemas surpreendentes, que acabaram de ser pela primeira vez traduzidos e compilados.

Poemas Eróticos dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses. É este mote em forma de antologia que aqui nos traz, e ainda antes de mergulharmos no miolo, o título causa, por si só, perplexidade. Afinal, a profanidade andou de mãos dadas com a capa religiosa com a qual, usualmente, cobrimos a Idade Média? E as virtuosas e ternas cantigas de amor e de amigo que associamos a D. Dinis têm também congéneres picantes, em que a candura se torna em lascívia e para as quais é usada uma linguagem capaz de fazer corar o mais convicto dos asneirentos?

Era, de facto, assim. Durante a Idade Média, os cancioneiros galaico-portugueses não cantavam apenas o amor ou a natureza, trazendo também poemas de pendor sexual, uns mais declarados, outros mais subtis. «Havia as cantigas de amigo, cantigas de amor e cantigas de escárnio e maldizer», sintetiza Victor Correia, que enquadra estes poemas eróticos numa espécie de subcontexto destas últimas. «E não só. Algumas fazem parte das cantigas de amigo e de amor mas eu considero também que estão ligadas ao tema, mas a maioria dos poemas são de escárnio e maldizer», nota.

Foi há cerca de dois anos e meio que o autor, enquanto estava a fazer uma investigação para uma antologia da poesia portuguesa, encontrou alguns destes poemas. «Fiquei muito admirado com a linguagem. Depois fui à procura e encontrei mais, mas todos em galaico-português, e pensei em traduzi-los». Ainda sem saber muito bem a dimensão da tarefa a que se propunha, Victor Correia – que estudou Filosofia na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma; se doutorou em Filosofia Política e Jurídica, pela Universidade da Sorbonne, em Paris, e já completou o pós-doutoramento em Ética e Filosofia Política, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa – procurou especialistas na língua para encetar assim uma demanda difícil. É que os três cancioneiros medievais galaico-portugueses conhecidos contam cerca de mil poemas, e estão longe de estar todos traduzidos. «É difícil traduzir porque temos que perceber o contexto, perceber porque é que aquilo nos faz rir, o que tem ou não sentido».

Depois, encontrou dificuldades em manter a métrica e, finalmente, em definir, então, o que era ou não erótico. «O conceito de erotismo é muito subjetivo – beijar a amada pode ou não ser considerado erótico. Aquelas cantigas que considerei logo eróticas foram aquelas que tinham palavrões. Há pessoas que pensam que fui eu que os adaptei à linguagem contemporânea, mas não fui eu. Há aqui alguns manuscritos em que quem for com uma lupa consegue ver o original. Não adaptei o palavrão à nossa linguagem do dia a dia, os palavrões estão mesmo nos manuscritos», explica, não escondendo que ficou admiradíssimo por encontrar este tipo de linguagem em manuscritos medievais. «Como é que é possível em documentos medievais do século XIII, XIV falarem assim?».

Temas e fronteiras

Também os temas aqui evocados lhe causaram alguma perplexidade. Fala-se de frades e freiras com amantes e filhos, prostituição, homossexualidade, incesto, senhores que se deitam com os escravos mouros. A título de exemplo, o livro reúne três cantigas que falam da homossexualidade feminina – «duas muito implícitas, e uma muito direta». Mas os trovadores falavam sobretudo sobre a homossexualidade masculina. Victor Correia acredita que «chocava mais a homossexualidade masculina, que de certo modo era considerada uma desonra para a virilidade do homem», e, por ser terreno fértil para a ironia, era constantemente puxada para os cancioneiros. Além disso, o autor acredita que talvez houvesse mais relacionamentos entre homens do que entre mulheres, fruto também da forma de organização da sociedade. «As mulheres tinham um papel mais submisso e recatado, casavam, tinham os filhos e ficavam muito por casa. Não tinham tanta liberdade para dar azo aos seus sentimentos como os homens tinham. O que não quer dizer que não existissem, como aqui se mostra, relacionamentos também entre mulheres», defende.

Quanto ao território no qual as canções surgiram, há que notar que falamos de um período de definição de fronteiras, pelo que este é um património que temos em comum com galegos. «A língua era mesma – em todo o território da atual Espanha a língua culta era a galaico-portuguesa. Claro que havia os dialetos de cada região, mas a língua oficial dos documentos e a literária era a galaico-portuguesa. O rei Afonso X, o Sábio, de Castela, escreveu os seus poemas em galaico-português», recorda.

Eram os jograis, mais populares, e os trovadores, com ligações às cortes, os responsáveis pelas cantigas, que se chamavam cantigas por isso mesmo – eram musicadas. «Eram feitas para ser recitadas em voz alta, nos saraus ou, no caso dos jograis, em contextos mais populares», explica o autor da antologia. «Pelas temáticas abordadas, é difícil pensar em muitos destes poemas ditos em voz alta – mas era, efetivamente, assim». 

Também há registo de que os jograis e trovadores se ‘picavam’ entre si. «Temos conhecimento da disputa entre alguns trovadores. Gozavam, por exemplo, sobre a lamechice de alguns, sobre as suas composições muito platónicas, pouco terra a terra». Outras vezes, através do teor sexual, passavam mensagens políticas e até identificavam cabalmente os visados da sátira. «Falam em frades e freiras, na abadessa x e y, e dizem quem são. Mas muitas cantigas eram críticas também políticas – quando queriam atacar alguém politicamente, então atacavam a sua vida privada», explica.
Depois de terminar este trabalho, Victor Correia ficou com uma certeza. «A sexualidade estava muito presente na vida da sociedade. Pensamos que há muita coisa do nosso tempo, que os costumes muito abertos são de agora, o que até se chama na linguagem popular de modernices, mas já existiam na altura», nota.

No entender do autor, temos, muitas vezes, uma ideia errada desta altura da História. «Não nos podemos esquecer de que a Idade Média dura mil anos, vai do século V ao século XV. Ficou conhecida como a Idade das Trevas, mas essas trevas não eram verdade. É impossível que durante mil anos se tivesse pensado sempre de forma igual. Penso que até havia mais tolerância do que se veio a verificar mais tarde com a chegada da Inquisição, a partir da Idade Moderna», reflete.

E, no final da história, que ensinamentos podemos retirar, para a sociedade de hoje, destes poemas eróticos? «Descobrimos que no fundo, entre eles e nós, não há assim um grande fosso. Estes poemas também mostram que eles se divertiam, que tinham sentido de humor. E podem ensinar-nos a não levar as coisas tão a sério».