Opiniao

A farmácia de Telheiras

Os empregados das farmácias ou repartições públicas são pagos para cumpriro horário e não para produzir em benefício do negócio 

Recordo o nascimento do bairro de Telheiras, um dormitório às portas da cidade, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau, de tal sorte que o primeiro banco que lá abriu até ponderou fazer horário noturno. De facto, às horas a que estava aberto… os residentes estavam na cidade.

Bastou um ano para que a urbe se convertesse numa nova centralidade, com estruturas modernas e todos os tipos de comércio, com destaque para o hipermercado, cabeleireiros, cafés, bancos e farmácias. 

Na semana passada, voltei a uma das farmácias do sítio. À entrada, a paisagem habitual: seis balcões, apenas três ocupados, com uma cliente em cada um deles. Calculei em três minutos o tempo máximo para ser atendido. Pura ilusão! Telheiras é, agora, um bairro de reformados onde a vida corre lenta e as conversas se arrastam em confidências intermináveis.

Em trinta anos, os fundadores apossaram-se da ‘colónia’, com direito ao tempo e às atenções dos que ali aportaram para trabalhar. A cena a que assistia era o reflexo disso mesmo: uma senhora pedia informações sobre escovas de dentes, gotas para os olhos e pomadas para queimaduras, enquanto mexericava nos produtos sobre o balcão, para concluir: «Este dava uma prenda janota, se pudesse ser embrulhado em papel de oferta». Solícita, a farmacêutica prometeu dar um jeito.

Quando chegou a minha vez, já havia uns seis clientes em espera e a senhora das escovas reclamava porque «a doutora disse que ia lá dentro embrulhar o creme e não há meio de voltar». Minutos depois, chegava o creme, com a portadora ladeada por mais duas batas brancas que foram ocupar os balcões com os números dois e cinco. Afinal havia mais, estavam era lá dentro…

A cena espelha a irracionalidade já aqui denunciada. Os sindicatos são avessos a prémios de produtividade, que acresceriam a remunerações base inferiores às das tabelas atuais, beneficiando patrões e trabalhadores. Mas não: na terrível lógica dos contratos de trabalho, atender cinco ou cinquenta clientes por dia é a mesma coisa; e, para consumo externo, os salários contratuais são preferíveis a ordenados reais mais elevados. Daí, a recusa de sistemas remuneratórios que estimulem a produtividade, como se fosse impossível conciliar rapidez e eficiência, com cordialidade e simpatia.

A persistência no erro continua a matar o comércio e a produzir o irritante rame-rame que todos vemos, em especial nas estações dos correios, nas receções dos hospitais e nas repartições públicas em geral. Quem ali está é pago para cumprir o horário, não para produzir em benefício do negócio e do tempo dos clientes. 

Saí da farmácia quase uma hora depois de ter entrado. Já sentada, a senhora das escovas falava para um grupo de senhoras que, pelos vistos, tem ali um ponto de encontro habitual. A temperatura, mais agradável que a do café do lado, convida a estadias prolongadas… ao balcão ou na plateia.

Cá fora, a chuva caía farta, o vento soprava e o frio cortava a pele, mas não vi ali ninguém engripado. Pudera! Com aqueles mimos, ninguém adoece.