Opiniao

Os destinos turísticos e os seus ‘Heróis’

A formação da imagem dos destinos turísticos com base na literatura, nos filmes e nas séries de ficção tem sido amplamente estudada e existem evidências que as fontes autónomas de formação da imagem são muito poderosas na construção da marca dos destinos e na sua promoção. 

No entanto e, porque existe sempre o reverso da moeda, é necessário ter em consideração que o uso abusivo desta ancoragem pode ditar irremediavelmente o futuro dos destinos turísticos, na medida em que a associação de determinada cidade ou monumento a uma série televisiva ou a um determinado Best-Seller literário pode deitar por terra a construção de uma marca ancorada nas características únicas, distintivas, patrimoniais e culturais. 

A associação de um destino/monumento a uma série de televisão, filme ou saga literária, pode colocar em segundo plano, em alguns casos, os episódios da história local e dos seus reais heróis, e o papel que estes tiveram na construção do património, da cultura e das identidades. 

Quem conhecerá a história de Dubrovnik, antiga Cidade-Estado, capital da República de Ragusa, tantas vezes cobiçada e conquistada por venezianos, bizantinos, otomanos, entre outros povos, se esta for irremediavelmente associada às paisagens da saga do Game of Thrones? Quem se passeia pelas ruelas do centro histórico da cidade, Património da Humanidade da UNESCO, é capaz de sentir a força dos episódios da história do Mare Nostrum que ali ocorreram e que os palácios, igrejas e muralhas teimam em ostentar, confundidos em cada esquina com um qualquer herói de uma série de ficção, presença constante nas montras das lojas de souvenirs. Não é essa a história que o destino merece contar aos seus turistas e visitantes, não são essas as imagens que se devem perpetuar em nenhum destino turístico consolidado.

É inegável que o audiovisual é uma ferramenta poderosíssima na formação da imagem dos destinos turísticos e que estes cada vez mais devem apostar nela para se promover e afirmar. Não obstante, é importante que a ficção não se sobreponha à realidade e que seja dado igual protagonismo aos heróis locais que merecem ser conhecidos com o mesmo entusiasmo, vivacidade, luz e som, como os verdadeiros ‘atores’ da história, ‘obreiros’ da arte e do património. Aqueles que verdadeiramente viveram, lutaram e morreram naqueles territórios e que fazem parte integrante da sua história, seja ela contada através de um livro, um filme ou uma série televisiva. 

*Diretora da licenciatura em turismo da universidade lusófona do Porto