Internacional

Romney, um político flexível

A história da carreira política de Mitt Romney está cheia de avanços e recuos nas posições que foi tomando. Profundamente religioso, é pragmático o suficiente para se adaptar a públicos diferentes, ora tomando posições mais liberais ora deslocando-se para o campo ultraconservador. O senador que votou a favor da destituição de Trump foi quase seu secretário de Estado.

Não foi sem reticências que Mitt Romney votou a favor da destituição de Donald Trump: «Apoio muitas coisas o que o Presidente tem feito. Votei ao seu lado 80% das vezes». Invocando a sua fé, consciência e compromisso perante Deus para ser o primeiro senador a favor da remoção do cargo de um Presidente do seu partido, a história de Romney na política é complexa, feita de avanços e recuos entre o ultraconservadorismo, o pragmatismo, e a contradição.

«Nunca o entendi. Quando o tema vira para política, a lei e a moralidade, as coisas que Romney diz e as suas ações não batem lá muito certo ou o seu raciocínio não é coerente», confidenciou Michael Dougherty, jornalista que acompanhou Romney nas eleições presidenciais de 2012, na rádio conservadora National Review. O senador do Utah foi um feroz opositor de Donald Trump nas primárias republicanas de 2016, principalmente no que tocava à política externa defendida pelo magnata. Mas quando Trump foi surpreendentemente eleito para a Casa Branca, menos de um mês depois, Romney declarou o seu apoio ao então futuro ocupante da Sala Oval num jantar com o magnata num dos seus hotéis em Manhattan, Nova Iorque. «Tive uma noite maravilhosa com o Presidente eleito», constatou aos repórteres depois da refeição. Afinal, Romney estava na corrida para secretário de Estado da futura administração Trump.

A política e a religião estão nos genes da família Romney. O pai do Senador do Utah, George W. Romney, foi governador do Michigan e secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano da administração de Richard Nixon – antes disso, tentou ganhar a nomeação presidencial republicana em 1968. Já o irmão de Mitt, Scott Romney, não tentou voos tão altos na política. Em 1998, candidatou-se sem sucesso ao cargo de procurador-geral do Michigan. A família adere à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais popularmente conhecida como a Igreja Mórmon, cujo centro de influência cultural reside no Utah, mais propriamente em Salt Lake City.

O pai de Romney, por exemplo, foi um missionário Mórmon num bairro pobre em Glasgow, na Escócia. Um caminho que foi seguido pelos filhos. Scott serviu o como missionário a tempo inteiro e ainda como bispo da Igreja de Jesus Cristo e dos Últimos Dias. Embora Mitt se tenha dedicado com mais fervor aos negócios, também teve tempo para a religião. Antes de iniciar a sua carreira de empresário, partiu para uma missão de 30 meses como missionário em França, em 1966. E chegou também a ser bispo em Massachussets entre 1981 e 1986. O Mórmonismo é uma invenção americana. Não só nasceu no Estados Unidos, como guarda um lugar especial para a América na sua teologia – como «o paraíso na Terra» –, o que pode explicar o voto do senador do Utah e a sua justificação religiosa. 

Mitt nunca foi muito aberto publicamente sobre a sua fé e até chegou a defender que as suas crenças pessoais não eram relevantes para o público. Mas também fez o seu contrário. Por exemplo, quando tentou roubar o lugar no Senado (pelo Masschussets) a Ted Kennedy, em 1994, Romney argumentou fervorosamene que era mais pró-escolha (a favor do aborto) do que o irmão de John F. Kennedy – e foi eleito governador de Massachussets com uma posição favorável à interrupção da gravidez, em 2002. Passada uma década, quando já tinha na mira a nomeação presidencial, Romney confessou que mentiu sobre a sua posição em relação ao aborto na altura que tomou o Governo do estado. «O maior erro foi quando concorri ao cargo, sendo profundamente contrário ao aborto, disse: ‘Apoio a lei atual’, que era pró-escolha e [tomei] efetivamente uma posição pré-escolha. Isso foi só errado». 

Romney sofreu eleitoralmente com estas contradições nas eleições presidenciais de 2012. Como governador do Massachussets, implementou o programa de saúde precursor – Romneycare– àquele que Barack Obama implementou a nível federal. Mas quando concorreu para evitar um segundo mandato do democrata, entre avanços e recuos, posicionou-se contra o Obamacare, por pressão dos republicanos. Isto para em 2015 tomar os louros pelo programa de Obama. «Sem o Romneycare, não que teríamos tido o Obamacare», escreveu num obituário citado pelo Boston Globe