Em paz

Obituário. Tozé Martinho

1947-2020   O pioneiro da ficção

Partiu assim um pioneiro da nossa indústria das novelas, e acima de tudo um amigo e um bom homem». As palavras são de José Raposo, que desta forma definiu  Tozé Martinho nas redes sociais. O ator e argumentista morreu no passado domingo, aos 72 anos, no hospital de Cascais, depois de se ter sentido mal. Em novembro, tinha caído e foi submetido a uma cirurgia ao cólo do fémur. 

Estava há muito afastado dos ecrãs e do mundo da televisão, e na hora da sua partida muitos colegas apontaram o dedo aos responsáveis da ficção nacional – e José Raposo foi um deles. «Tenho de dizer que nos últimos anos foi esquecido pelos responsáveis da ficção nacional», escreveu nas redes sociais. 

António José Bastos de Oliveira Martinho, conhecido desde sempre como Tozé, era filho da atriz Maria Teresa Ramalho (Tareka) e do médico António Martinho. Tinha dois irmãos: Manuel Maria Martinho e a escritora Ana Maria Magalhães. 
Não seguiu de imediato os caminhos da representação. Primeiro, foi cavaleiro tauromáquico praticante, depois estudou Medicina Veterinária e Economia e acabou a cursar Direito. Só abraçou a inclinação para a arte herdada da mãe depois dos 30 anos. E foi exatamente ao lado de Tareka que se estreou em televisão n’A Visita da Cornélia, programa conduzido por Raul Solnado, em 1977. A porta estava aberta. Entrou depois naquela que foi a primeira novela falada em português: Vila Faia (1982). Interpretou o papel de inspetor Silveira na trama assinada por Francisco Nicholson e rapidamente se apercebeu de que, paralelamente à profissão de ator, trazia em si outro talento, o da escrita. E tornou-se argumentista.  Roseira Brava, Vidas de Sal e A Grande Aposta contam-se entre as novelas que escreveu para a RTP1. Já na TVI escreveu Todo o Tempo do Mundo, Olhos de Água, Amanhecer, Dei-te Quase Tudo, A Outra, Sentimentos e Louco Amor, esta última estreada em 2012 e da qual foi coautor, ao lado da sua filha. Foi também aqui que teve o seu último papel na televisão. Fora da caixinha mágica, escreveu dois livros: Coisas do Dinheiro e Dá-me Apenas Um Beijo. Foi ainda professor na Universidade Moderna de Lisboa.

Era militante do PSD e em 2009 chegou a concorrer pelo partido à Assembleia Municipal de Benavente. O eurodeputado Paulo Rangel foi um dos sociais-democratas que lamentou a sua partida: «Um grande ator, um grande amante de tudo o que diz respeito às artes cénicas. Um forte abraço à família e a todos os colegas. A televisão fica mais pobre», escreveu. Na quinta-feira, a Assembleia da República aprovou um voto de pesar pela sua morte.