Internacional

Alemanha tem ‘problema de terrorismo’

O atirador de Hanau era um ‘lobo solitário’, paranoico e racista, que atacou pontos de encontro de comunidades imigrantes. Ainda este mês foram detidos 12 extremistas de direita que queriam gerar uma ‘guerra civil’.

Amigos e familiares das vítimas do atentado em Hanau, na Alemanha, reuniram-se esta sexta-feira à porta dos dois bares de shisha, muito frequentados pela comunidade curda, alvos de um atirador de extrema-direita. No ataque de quarta-feira morreram 11 pessoas – imigrantes ou descendentes de imigrantes –, à exceção do atacante, que se suicidou, e da sua mãe, de 72 anos, que este terá assassinado quando regressou a casa.  No mesmo dia, as autoridades alemãs prometeram reforçar a segurança em pontos de encontro de comunidades imigrantes, como mesquitas – dado tratar-se do terceiro atentado ligado à extrema-direita em menos de um ano.

«O Governo precisa de agir», pediu Levent Güldag, de 43 anos. Falou com o Washington Post perto do Midnight, um bar de shisha muito popular por estar aberto 24 horas e onde o seu filho perdeu um dos melhores amigos no atentado. «Nasci aqui. Cresci aqui. Tenho uma mulher alemã e três filhos», afirmou. «Não há nada mais que possa fazer para me integrar. Não posso pintar o meu cabelo para parecer mais alemão, ariano».

Entre as vítimas há várias pessoas na sua situação. Ferhat Ünver, por exemplo, tinha 23 anos e nasceu na Alemanha, contou àquele jornal norte-americano Leyla Acar, vice-diretora da Kon-Med, uma associação de curdos alemães. «O avô dele foi um dos que construiu as ruas de Hanau», disse. «E nessas ruas o seu neto acabaria abatido por ser imigrante», acrescentou. Aos olhos do seu assassino, Tobias Rathjen, de 43 anos, a vida de Ünver era um sintoma da «degeneração» da Alemanha.

«Nem todos os que têm um passaporte alemão são valiosos e de raça pura», escreveu o terrorista no seu manifesto, pelo meio das mais diversas teorias da conspiração. Dias antes do ataque, Rathjen lançou um vídeo a alertar para existência de instalações subterrâneas militares nos Estados Unidos, onde crianças seriam abusadas e mortas por sociedades secretas satânicas. Também estava convencido de que «serviços secretos» não identificados liam os seus pensamentos, e garantia ter previsto o enredo de vários filmes de Hollywood, bem como a carreira do treinador do Liverpool, Jürgen Klopp.

Além disso, o terrorista dizia não ter tido relações sexuais nos últimos 18 anos, descrevendo-se como um incel, diminutivo de celibatário involuntário, em inglês. Trata-se uma espécie de subcultura online, profundamente machista, composta por homens que não conseguem ter relações sexuais e amorosas – culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso.

‘Guerra civil’
Tudo indica que Rathjen agiu sozinho, sem o apoio de uma rede mais vasta. Descrito como discreto e de classe média pela imprensa alemã, o atirador encaixa na perfeição no perfil de ‘lobo solitário’. Contudo, isso não deixa mais tranquilo quem teme novos ataques. É que, ainda este mês, a polícia alemã deteve doze homens, incluindo um agente policial, suspeitos de planear atentados contra refugiados e muçulmanos.

As rusgas decorreram em seis estados alemães e as autoridades apreenderam «quantidades inacreditavelmente grandes de granadas explosivos», revelou na altura Horst Seehofer, ministro do Interior da Alemanha. O objetivo do arsenal? Ser usado para criar «uma situação semelhante a uma guerra civil, através de ataques ainda por definir, contra políticos, requerentes de asilo e pessoas de fé muçulmana», declarou em comunicado o Ministério Público.

‘Mais de 12 mil extremistas’
«Nós tivemos ataques a que poderíamos chamar terrorismo de extrema-direita antes. O que vemos agora é que acontecem mais», explicou à CNN Tina Dürr, investigadora do Centro Hesse para a Democracia, da Universidade de Marburgo.  Só em 2018, os crimes politicamente motivados na Alemanha aumentaram em quase 20%, segundo dados do Ministério do Interior, citado pela DW – a maioria foram cometidos por extremistas de direita.
«A Alemanha tem um problema de terrorismo», escreveu no Twitter o ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, após o ataque. 

«Temos mais de 12 mil extremistas violentos de direita no nosso país», explicou, lamentando que 450 tenham conseguido escapar, apesar de serem alvo de mandatos de captura.

Para muitos analistas, o fenómeno anda de mãos dadas com o crescimento da Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla alemã), um partido de extrema-direita. Aliás, ainda esta semana, a AfD distribuiu um livro de colorir para crianças, classificado como racista: continha imagens de homens com armas e facas na mão, ao lado de mulheres de hijab (o véu islâmico), debaixo de bandeiras da Turquia – desde o séc. XX que há uma grande comunidade de origem turca na Alemanha.