Opiniao

A democracia como ideologia mina os cidadãos

A definição de ditadura é naturalmente conhecida de todos. A Wikipédia dá-nos a definição: «Ditadura é um dos regimes não democráticos ou antidemocráticos, ou seja, governos regidos por uma pessoa ou entidade política onde não há participação popular, ou em que essa participação ocorre de maneira muito restrita. Na ditadura, o poder está em apenas uma instância, ao contrário do que acontece na democracia, onde o poder está em várias instâncias, como o legislativo, o executivo e o judiciário. Ditadura é uma forma de autoritarismo».

A política é essa atividade nobre do governo da Polis para o bem comum. Quando se instala o interesse de uma pessoa ou de um grupo que fere o bem comum, o governo da Polis está em perigo.

Pode uma democracia ser governada segundo princípios ditatoriais? A resposta é simples: sim! O que se tem passado nas democracias ocidentais é um pouco o espelho do declínio dessas mesmas democracias. Esta semana, nós podemos dizer que a democracia corre o perigo de deixar nas mãos de 185 deputados o destino de dez milhões. Se uma matéria tão grave como a legislação sobre o fim de vida, mesmo que em circunstâncias muito específicas e definidas, não for a consulta popular, significa que a democracia corre graves perigos.

Mas o problema que é colocado hoje, não é de hoje. Há anos que os sistemas políticos em Portugal, e não só, vivem de ideologias e manipulam as massas para atingirem os seus fins. Mais uma vez repito: há uma vontade de alimentar ideologias e não de realizar o bem comum, conforme a vontade dos cidadãos. Há, ainda, um outro problema. Para além de se poder vir a fazer a consulta popular através de um referendo, não temos garantida a neutralidade e a isenção que uma democracia exige para um voto firme e livre de cada um. Desde os tempos de Palo Alto que, através do Modelo de Lasswell, a comunicação se tem fixado nos estudos dos efeitos da comunicação a fim de se produzirem mensagens capazes de obter determinados resultados. Isto pode parecer uma teoria da cabala, mas são fenómenos que estão mais do que estudados e  documentados. 

O problema, como disse, já vem de trás. O problema é sempre o mesmo: a ideologia. Há um grupo de deputados que tem uma determinada ideologia que pretende impor à sociedade. Esse grupo não desiste até que os resultados sejam conformes ao seu pensamento. 

Quando se levantou a questão da legalização do aborto em Portugal, em 1998, foi feito um referendo que teve como resultado de 51% a manifestar a sua vontade pelo Não. Assim, não contentes com os resultados obtidos, levados pela mesma ideologia, menos de dez anos depois, em 2007, faz-se outro referendo onde o Sim teve 59%. 

O mesmo aconteceu com a questão da eutanásia. Em 2018 houve quatro projetos que foram apresentados na Assembleia da República e chumbaram por quatro votos. Isto é mesmo verdade! Sem tirar nem por! O que foi chumbado há dois anos, voltou outra vez a ser discutido na mesma casa da democracia. E agora passou.

Isto é que é o grande perigo, quando aqueles que nos governam são levados pela ideologia e não pelo serviço do bem comum. Vai-se de votação em votação até que sejam satisfeitas as ideologias partidárias de cada um. 

Há uma manipulação constante das massas para aceitarem tudo o que aparece como respeito pela liberdade de cada individuo. Mas na realidade, a democracia continua em perigo, porque mesmo que cheguemos a um referendo, sabemos que a manipulação da Opinião Pública é tão evidente que iremos de referendo em referendo até que seja satisfeita a ideologia.