Opiniao

Não podemos ignorar...

Infiltrado em todas as instâncias de poder, usando as greves ou a chantagem delas, o PCP foi impondo leis perversas, bloqueando as reformas a governos complexados e timoratos, a pensarem na reeleição – preocupação que é a grande fragilidade da democracia.

Para o Adelino Carvalho

Na adolescência, também eu me empolguei com o que julgava serem os ideais generosos e universalistas do socialismo marxista.

Mas sem nunca deixar de colocar interrogações, como me impunham o temperamento, a memória dos ideais de liberdade dos meus pais e a diversidade bendita do círculo oposicionista de amigos em que cresci.

E lia tudo com avidez e inquietação intelectuais, não aceitando que me reduzissem as leituras. Li Sartre mas também li Camus, que me ajudou a nunca ser totalitário.

Depois foi a vida, o convívio com as figuras que tive a sorte de encontrar, a revelação crescente de factos, de acontecimentos, da realidade crua de uma História que durante muito tempo conseguiram estranhamente ocultar.

Hoje vejo o malefício persistente da ação do PCP, antes e depois da democracia, frágil como a vi nascer.

Sobre todos os domínios da vida do país, também isso se verificou na cultura, com o efeito multiplicador que se percebe. Até onde teriam chegado muitos criadores sem a canga do PCP?

E, na ditadura, inculcando na mente dos portugueses a ideia de o comunismo ser a ‘única alternativa’ ao salazarismo e ao fascismo – o que era um embuste, visto comunismo e fascismo serem, afinal, irmãos desavindos.

Mário Soares salvou-nos de nos tornarem – sem guerra civil e uma muito provável intervenção americana – uma Cuba, Albânia, URSS dos pequeninos, com a repressão inevitável que daí adviria.

Infiltrado em todas as instâncias de poder, usando as greves ou a chantagem delas, o PCP foi impondo leis perversas, bloqueando as reformas a governos complexados e timoratos, a pensarem na reeleição – preocupação que é a grande fragilidade da democracia.

Assim se processou uma espécie de ‘seleção natural’ darwinista. Por um lado, forçando a desistência dos empreendedores mais responsáveis; por outro, favorecendo a sobrevivência dos ‘habilidosos’ e reservando um êxito opulento para meia dúzia de grupos ancorados na corrupção, sempre ligada de um modo ou de outro ao Estado.

No Portugal periférico e histórico, exposto e vulnerável, os efeitos globais dessa matriz imutável do comunismo mantiveram o atraso endémico, bloqueando o acesso dos portugueses ao progresso que as sociedades liberais proporcionaram à Europa e ao mundo.

Nas sociedades onde os comunistas puderam entrar, a imoralidade de meios, mesmo os mais desumanos, geraram sempre cúmulos de miséria e sofrimento inútil. Sempre em nome da profecia nunca realizada.

Embora o comunismo tenha invariavelmente visto nos partidos sociais-democratas o inimigo a abater, não evitou aliar-se com eles quando lhe foi conveniente. Mas traiu-os sempre.

Esta evidência histórica não impede, contudo, que persista no nosso PS um complexo comunista absurdo, que tem impedido a sua intervenção reformadora, vital para o país e para a democracia.

Essa incapacidade reformadora do PS, e a cedência e deslizamento para as novas causas anti-humanistas delirantes da extrema-esquerda trotskista (desde sempre uma caricatura histérica do PCP), contribuirão para o seu apagamento, para a entrega do Governo de Portugal às novas uniões nacionais que pela Europa se configuram e estão em curso entre nós.