Viver para Contar

Matai-vos uns aos outros

Faço um apelo aos médicos e enfermeiros que ainda percebem o que são ‘princípios’, e quão perigoso é ceder no campo dos ‘princípios’

Na discussão da eutanásia, pessoas que considero relativamente inteligentes têm usado um argumento que só pode ser invocado por má-fé ou manifesta falta de memória. Que é este: «Aceito a eutanásia porque em condições de grande sofrimento as pessoas devem ter liberdade para pedir que lhes ponham fim à vida».

Por que é que o argumento é falso? Porque, como a História prova e muitas outras leis demonstraram (a começar pela despenalização do aborto), o problema é admitir-se ceder no ‘princípio’. Uma vez entreaberta a porta, ela vai-se abrindo depois sempre mais um bocadinho. De início, o aborto era tolerado em circunstâncias muito especiais descritas na lei; hoje, o aborto é livre, feito de graça e não exige explicações nenhumas por parte de quem o faz.

E com a eutanásia passar-se-á exatamente o mesmo.

Por isso, invocarem-se as restrições que serão previstas na lei não é sério. A lei não interessa nada. Hoje será uma e amanhã outra. Aceite o ‘princípio’, a lei pode depois mudar-se facilmente. Por isso, ou se é contra a eutanásia ou a favor. O resto da discussão pouco importa.

Por outro lado, ouço pessoas dizer que são contra o referendo sobre a eutanásia por duas razões: porque «questões de consciência não se referendam» e porque «o debate será muito básico». 

Ouço e não acredito.

Quando se diz que «a vida não se referenda», quer dizer-se que é uma coisa que não se discute, que não se coloca à discussão, porque não pode ser posta em causa. Mas os que são contra o referendo querem precisamente acabar como esse princípio! Afirmam que a vida se discute. Que se pode questionar. Ora, se é assim, então a discussão pública e o referendo não só fazem todo o sentido como são indispensáveis.

Vamos agora à afirmação de que o debate não deve fazer-se porque seria «muito básico». Pergunto: então só as ‘inteligências’, os ‘grandes cérebros’ que pululam nos debates das TVs têm direito a discutir o assunto? As outras pessoas todas não têm direito a exprimir-se? Mas então, usando o mesmo ‘raciocínio’, essas pessoas sem nível, básicas, menos esclarecidas, também não deveriam ter direito a votar. Porque não têm condições para ter uma opinião formada e esclarecida…

Os deputados, sim. Esses são todos uns iluminados. Umas grandes cabeças. Aqueles 230 seres que às vezes passam uma legislatura inteira calados, que se limitam a votar de acordo com a indicação do líder, são pessoas com opiniões claramente formadas sobre o assunto e votarão, um por um, de acordo com as suas consciências.

Pois eu digo: embora ache que a vida não se discute, já que quiseram aprovar a eutanásia por uma maioria simples no Parlamento, então é bom que se faça o referendo. Este, pelo menos, proporcionará que todos os portugueses que queiram pronunciar-se sobre o assunto o possam fazer. E os que são contra a eutanásia, se esta vencer, terão de se vergar à vontade da maioria dos seus concidadãos e não ao voto de uma maioria parlamentar passageira.

No máximo, este Parlamento durará quatro anos. Assim, uma questão civilizacional tão importante como a eutanásia foi votada por pessoas que estão no poder de passagem.

Por estes dias, uma ‘inteligência’ que perorava num canal televisivo sobre o tema, dizia que o debate estava feito e não era preciso discutir mais. Mas no mesmo programa, mais à frente, dizia que, desde que se começou a falar mais deste assunto, o número de deputados contra a eutanásia aumentou… Ou seja: mesmo os nossos esclarecidíssimos deputados não tinham ainda há dias opinião consolidada sobre o assunto. O que significa, simplesmente, que o debate estava longe de estar esgotado.

Enfim, como não sou deputado e tenho como única arma a caneta, apelo aos médicos e enfermeiros para que se recusem a participar nesses atos que, começando por apresentar-se como ‘piedosos’, dentro de uns anos estarão vulgarizados, com pessoas a pedir para as matarem pelas mais variadas razões. E com médicos a fazerem disso um negócio, como aqueles que passam atestados médicos falsos

E desse modo a sociedade perderá o respeito pela vida. A morte provocada banalizar-se-á, tornar-se-á uma coisa normal, a que se recorrerá com naturalidade.

Portanto, daqui faço um apelo aos médicos e enfermeiros  que ainda percebem o que são ‘princípios’, e quão perigoso é ceder no campo dos ‘princípios’.

No quão perigoso é abrir uma brecha no campo dos princípios.

O apelo é: recusem-se a ser ‘Doutores Morte’. Pensem que na hora da vossa morte, ao fazerem um balanço da vida, verão os rostos das centenas ou milhares de seres humanos que ajudaram a matar.