Biblioteca Pessoal

A sabedoria de um povo (e o seu cinismo)

Durante a infância, embora fosse um fanático pelas aventuras de Júlio Verne, o livro que li mais vezes foi um de capa vermelha a imitar marroquim com letras trabalhadas. O título era Contos Populares Russos e li-o vezes sem conta. Talvez isso ajude a explicar o interesse algo exagerado que ainda hoje nutro pela história, literatura e cultura russas.

Muitos anos mais tarde, já adulto, encontrei num alfarrabista uma pequena antologia de provérbios – curiosamente também de capa vermelha – que tem muito em comum com esses Contos Populares que li na infância. Trata-se de um livrinho muito modesto, de umas meras 60 e tal páginas, mas sempre que lhe pego encontro coisas que me fazem sorrir e tenho dificuldade em largá-lo.

Deixo-vos com uma pequena seleção de alguns dos melhores provérbios que encontrei:

«Aquele que tem as ferramentas limpas é um mau funcionário.»

«Se o trovão não é barulhento, o camponês esquece-se de se benzer.»

«Um machado de ouro parte-se ao embater contra uma porta de ferro.»

«Ele curva-se quando te pede dinheiro; tu curvas-te quando lhe pedes o dinheiro de volta.»

Algumas destas formulações revelam uma sabedoria extraordinária, acumulada ao longo de gerações, destilada numa frase simples, mas ao mesmo tempo universal, profunda e sugestiva.

Mas por vezes mostram um cinismo que também tem que se lhe diga. Vejamos estes exemplos eloquentes:

«O lobo teve piedade do cordeiro – deixou-lhe os ossos e a pele.»

«Ama o teu vizinho (mas não te esqueças de pôr uma vedação).»

«Quando vives perto do cemitério, não podes chorar por toda a gente.»

«Nem todos aqueles que ressonam estão a dormir.»

Ou este ainda pior:

«O cão é mais esperto que a mulher: ele nunca ladra para o dono.»

O retrato do povo russo que emerge desta leitura – sobretudo se comparado com o dos contos populares que li na infância, recheados de heróis valentes, justos e de coração puro – não é especialmente lisonjeiro. Pelo contrário, mostra um povo rude, cruel, atrasado, desconfiado, chauvinista, ressentido. Um povo acostumado – ou porventura condenado – a tremendas dificuldades e ao sofrimento. Pergunto-me se o facto de esta coletânea ter sido publicada nos EUA em 1960 (em plena Guerra Fria) terá alguma coisa que ver com isso.