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E os portugueses, que não vão em cantigas de vacas loucas, pestes suínas, gripes das aves e quejandas ameaças, continuam a assobiar para o lado com suas rotinas e afazeres normais. Não há planos de contingência no Estado e nas empresas (com excepção da Altice, desde ontem)? E nas escolas? O que foi feito ou está previsto?

A propagação do Covid-19 a um ritmo já superior no resto do mundo ao que se verifica na China e os primeiros casos confirmados na vizinha Espanha, bem como os alertas da Organização Mundial de Saúde sobre o elevado risco de pandemia aconselham as autoridades nacionais a tomarem as devidas precauções e desencadearem todos os procedimentos, incluindo de informação, que se impõem em situações de extrema gravidade como aquela com que o mundo já se debate e que, em Portugal e tão à portuguesa, continua a menosprezar-se.

Bem podem opinadores bem pensantes e  otimistas vociferar contra alarmismos, sensacionalismos, especulações e tudo o que mais lhes aprouver para defenderem um comportamento que, mais do que irresponsável, é simplesmente idiota.

Se há alguém cujo otimismo é reconhecidamente irritante é o primeiro-ministro, António Costa. Ora, depois de ter percebido a vulnerabilidade a que ele próprio esteve sujeito quando se soube que os líderes europeus haviam estado reunidos com o primeiro-ministro eslovaco e este apresentava sintomas que levantaram suspeitas sobre uma possível contaminação, o próprio chefe do Governo português já veio a público tentar sensibilizar a população para a conveniência de adoção de medidas preventivas.

Mas a gravidade da situação aconselha muito mais. A realização do encontro de futebol entre o Inter de Milão e a Juventus à porta fechada – com todos os prejuízos inerentes – é apenas um sinal de como a coisa é para levar a sério e acima de quaisquer outros interesses. De outro modo, ninguém sequer admitiria ponderar o cancelamento de competições que envolvem muitos milhões à escala mundial – como Jogos Olímpicos ou Campeonato da Europa de futebol.

E os portugueses, que não vão em cantigas de vacas loucas, pestes suínas, gripes das aves e quejandas ameaças, continuam a assobiar para o lado com suas rotinas e afazeres normais.

Não há planos de contingência no Estado e nas empresas (com excepção da Altice, desde ontem)? E nas escolas? O que foi feito ou está previsto?

Não há motivo para histerias coletivas ou alarmismos estéreis. Nunca há. De nada adiantam e só atrasam.

Mas quando a ameaça, como a do Covid-19, é real e o risco de pandemia também é real não pode continuar a agir-se como se nada fosse e nada se passasse.

Apesar dos esforços da diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, e dos seus antecessores Francisco George e Constantino Sakellarides, não há mínima consciência cívica sobre os procedimentos a adotar desde já e antes que seja tarde.

É obrigatório adotar sem mais delongas os procedimentos adequados, preventivos e reativos, e sensibilizar a população para a necessidade, ou melhor para a obrigatoriedade de os respeitar.

Se é um facto que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está nas condições de precariedade que todos reconhecem, após anos e anos de desinvestimento público, não pode e não deve confiar-se que tenha capacidade de resposta para enfrentar uma epidemia com as características que têm vindo a revelar-se não só na China mas já um pouco e cada vez mais por todo o mundo.

Mesmo que o Presidente Marcelo, com a sua bonomia, garanta que está tudo a postos no SNS para dar eficaz resposta.

A verdade é que não será demais dizer-se  que se alguém sentir ou julgar sentir sintomas associados à epidemia deve imediatamente isolar-se (incluindo dos seus próprios familiares) e telefonar para a linha SNS24 ou Saúde24 (808 24 24 24) e seguir todas as orientações que lhe são dadas. Bem como o deve fazer quem tenha viajado ou estado em contacto com quem tenha viajado em zonas em que o vírus já tenha casos confirmados.

Nos últimos dias, se há casos conhecidos de suspeitos de contaminação isolados nos hospitais Curry Cabral de Lisboa e São João do Porto, há inúmeros casos de doentes com sintomas passíveis de suspeição que aparecem nos centros de saúde ou nos hospitais acompanhados por familiares (incluindo acompanhantes grávidas), que ficam a aguardar nas salas de espera tranquilamente em contacto com todos os demais utentes até comunicarem a um médico ou profissional de saúde que, incluindo com risco próprio, só então há de encaminhá-lo para o necessário isolamento.

Ora, o que tem vindo também a acontecer, por manifesta desinformação e falta de consciencialização coletiva, é que mesmo perante a ordem de isolamento dada por médicos ou outros profissionais de saúde, há doentes que se recusam e reagem até com violência à ordem de reclusão e isolamento. Seja porque consideram não poderem ser privados da sua liberdade, seja por simplesmente insistirem em manter-se acompanhados (ou a acompanhar) por serem familiares e já terem estado em contacto com o doente.

Não será possível impedir que o Covid-19 chegue a Portugal. Mas é possível evitar males maiores.

Não temos de andar todos de máscara nem fechar fronteiras, mas podemos simplesmente  tomar as precauções mais elementares – como lavar as mãos com a maior frequência possível ou evitar espirrar ou tossir sem proteger a boca e o nariz – ou outras como a que António Costa veio aconselhar, como cancelar viagens de finalistas ou outras a locais no estrangeiro mais vulneráveis à epidemia.

Não é por alarmismo, é por responsabilidade e bom senso.

Cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. E é melhor do que colocar trancas na porta depois da casa arrombada ou chorar sobre leite derramado.