Cultura

Vasco Pulido Valente. O catequista da desolação

No dia em que fez 79 anos, morreu o cronista que há mais tempo detinha um posto sobranceiro de vigia entre nós. As muitas desilusões com a própria vida ligaram-se ao desencantamento com o país na sua prodigiosa missa negra.

A este país tem faltado a disciplina da História, dessas evidências vigorosas capazes de conferir, por si só, uma educação a um povo. Eventos em volta dos quais se teçam considerações sérias, inclinadas perante uma fria soma de factos, ao invés desta constante agitação e motim, de se juntarem uns badamecos, dando-se ares, para se porem a disputá-los, a baralhar tudo, para fazer escorrer sobre eles alguma tese atrevida e mirabolante. Falta-nos o pudor que a História ensina. Por isso se desfia o país em narrativas, embalando-o num prosaísmo insano, numa épica do faz-de-conta. Dá a sensação de que, se formos sacudir a maioria dos textos que sobre a identidade comum se debruçam, caíriam as palavras, as letrinhas todas, e a ficar alguma coisa seria a pontuação. Sempre foi isso que conferiu carácter aos textos dos nossos melhores artífices. A pontuação parece ser a única convicção servindo de barragem ao delírio que se inscreveu nos próprios caracteres da língua. De resto, quase tudo «balança entre o lugar comum e a burla». Vasco Pulido Valente ter-se-á dado conta, nas suas investigações do nosso século XIX, de como por cá se recorre a mitos sem substância para cobrir as partes pudendas, as nossas vergonhas. Tudo é uma justificação, e os pequenos e grandes patifes aproveitam-se do menor sinal de boa-fé, garantem que poriam as mãos no fogo uns pelos outros, e, enquanto isso, tudo arde. «Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita»... É o que se sabe. O cronista que há mais anos segurava uma posição na nossa imprensa, era um filho do meio das tantas fitas e crises, do rosário de pequenos dramas, das inúmeras incertezas e perpétuas indecisões, das intrigas e trapaças que se vão impondo, e habituado a tudo isto, o instinto que nele fortificou foi o de uma enorme desconfiança. Por tudo, todos os projectos, todo o almirantado, preferindo descer para junto da restante tripulação, e reformular num brado esse mal-estar que os homens confessam entredentes.    

Nascido em 1941, «nos dias mais críticos do Ocidente cristão», no próprio seio familiar Vasco Pulido Valente pôde reconhecer as tensões em confronto na vida política portuguesa. Havia a tradição republicana do avô materno, o médico e intelectual Francisco Pulido Valente – a quem Vasco foi buscar não apenas o nome, mas a atitude suspeitosa que o inoculou contra o marxismo –, e, do lado paterno, a tradição monárquica dos Correia Guedes, tudo isto destilado pela militância comunista dos pais, Maria Helena Pulido Valente e Júlio Correia Guedes. Pertencendo ambos à elite do PCP, o filho cresceu numa casa onde não era raro dar com vários intelectuais ligados à oposição ao Estado Novo, e, no entanto, Vasco tributaria mais tarde a descoberta da miséria e dos pobres ao romance Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, livro que leu na adolescência. Vasco diz que se sabia da coisa mais por ouvir falar, mas que essa miséria extrema, a que aflige e nos muda, não andava por aí ao léu, e ainda menos tinha quem lhe fizesse a justiça de definir nela figuras, personagens ricas e impactantes, que emergissem do pano de fundo, em que «os pobres apareciam como uma raça estranha, proveniente de outro universo, não inteiramente iguais às verdadeiras pessoas». Elegendo Esteiros como um dos livros da sua vida, VPV notava que, até ser confrontado com este romance pertencente «à família mais nobre dos grandes panfletos românticos contra a injustiça burguesa», estava alheado dessa condição, com os pobres a serem habitantes das trevas exteriores – «a sua própria existência permitia dúvidas»... É um livro do ano do seu nascimento, e Vasco diz-nos que, «em 1953 ou 1954, o livro estava lá em casa como não estava em casa de outra espécie de portugueses». E adianta: «Não levei muito tempo a aprender que havia ‘nós’ e havia ‘eles’; os que conheciam e se importavam com Gineto e Gatinhas [personagens do romance], e os que não conheciam nem se importavam». Apesar de reconhecer o choque que sentiu ao saber da sua existência e de que «o destino natural das criaturas da minha idade não consistia em comer bifes e ir de autocarro para o liceu», VPV assume que, se ficou tocado, não foi isso que o transformou «aos dez, aos vinte ou quarenta anos num militante comunista». E aqui já entrevemos uma nota da lucidez pingada de cinismo que viria a inverter-se e a dar-nos a receita de um dos mais influentes colunistas das últimas décadas: «Não vale a pena notar que entretanto não ardi na paixão da justiça. Só que também não se nasce impunemente onde se nasce. (...) Apesar de longas peregrinações, continuo a ser de ‘nós’ e não ‘deles’ e, à medida que envelheço, cada vez gosto menos ‘deles’.»

Logo nesses primeiros anos, na relação conturbada com os pais, com os professores, com as figuras que pretendiam encaminhá-lo, sujeitar a um rumo a sua natureza um tanto insubordinada e desordeira, se começou a desenhar o signo da desadequação que sempre o fez conspirar contra as suas chances de grandeza. Aos cinquenta anos, traçando o seu auto-retrato para a revista K, reconhecia: «Falta à minha vida ordem e finalidade (...) Se me obrigassem a escrever a minha biografia, não era capaz de escrever uma história coerente. Nem sequer com alguma arrumação de superfície. Mesmo pelas regras mais simples: infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice. Era velhíssimo na adolescência, adolescente na maturidade e toda a gente me acha simultaneamente infantil e soturno. (...) Em cinquenta anos, não notei indícios de um destino manifesto ou de um destino humildemente necessário.»

Depois de ser expulso por mau comportamento do Liceu Camões, de acumular faltas e de apresentar em casa notas miseráveis, o pai acusou-o de ser «um vadio e um parasita», enfiando com ele no Colégio Nuno Álvares, em Tomar, onde VPV ainda penou durante uns tempos, tendo descrito a experiência como a de ter sido sujeito ao regime de “uma espécie de reformatório”. Lá terá prometido que encarrilava, e a exasperação dos pais com o filho amainou, o que lhe permitiu fazer os últimos dois anos do secundário no ambiente bem mais descontraído do Colégio Moderno. Não é que o lado travesso do puto fosse sinal de desprezo pela ordem, simplesmente o seu imaginário era como um caleidoscópio, e as aventuras que se propunha sucediam-se vertiginosamente sem que nada colasse com a realidade, antes deixando um rasto de cacos à sua passagem. «Quis ser um espadachim francês do século XVII, por causa de Paul Féval, Ponson du Terrail e Alexandre Dumas. Quis ser pirata, por causa de Errol Flynn. (...) Quis ser Shane, para minha vergonha, e outras fulminantes pistolas do Oeste. (...) Quis ser detective, o Philo Vance de S.S. Van Dine e o Bogart de Chandler e de Hammet.» VPV diz-nos que houve uma altura em que saía sempre do cinema num estado de grande exaltação, a caminho de prodigiosas violências e de inconcebíveis mulheres, diz-nos que estava na primeira fila entre os voluntários para se deixar matar por Pier Angeli, Audrey Hepburn e Natalie Wood, e fica fácil perceber que padecia dessa forma de romantismo incontinente, essa prodigalidade dos entusiasmos e diletantismo afectivo que, muitas vezes, é a melhor receita para um espírito paralisado pelas suas inquietações e sonhos. Tudo isso que se lhe projectava na alma, todas aquelas aventuras, segundo nos diz, não lhe deixavam muito tempo para se afligir com os negócios do mundo. «Nunca pensei em estudar, excepto sob ameaça de represálias.» Para quem olha de fora, e não se deixa comover facilmente, seria tentador ver naquele miúdo apenas um calão.

Apesar de tudo, em Vasco Pulido Valente havia desde muito cedo o germe de uma grande recusa, aquela que mais tarde faria com que se afastasse de todos os grandes credos, dessas igrejas universais da superstição, das romarias em torno de figuras patéticas elevadas a homens de visão e grandes estadistas. O desinteresse pelos limitados recursos da realidade nascem sempre como um faro para algo que não está na vida, já não ou ainda não. «Obviamente o meu extraordinário destino não se compadecia com a mesquinha actividade de adquirir um ‘modo de vida’». E na frase que se segue conseguimos deslindar todo o ressentimento e o tão profundo sentido de fracasso que é exalado nas mais amargas frases do cronista. «O ‘modo de vida’ acabava em definitivo com a vida. Para mim, a única vida era exactamente uma vida sem ‘modo’.»

Temos de atalhar caminho, e agora que VPV já não respira, tendo desaparecido na sexta-feira do dia 21 de fevereiro, no dia em que completava 79 anos, é-nos possível deitar a sua vida como por extenso, e ver como se arrumou esse acidente da sua personalidade, «um produto de coincidências improváveis, de circunstâncias efémeras, de emoções sem substância». Ver o tempo que perdeu na Faculdade de Direito antes de se transferir para a de Letras, secção de Românicas, onde diz que passou uns meses fascinantes, isto numa altura em que foi tendo enlaces com o jornalismo, começando a colaborar com a revista Almanaque. O projecto que descreve como uma autêntica aberração do Portugal salazarista, e que surgiu no seu caminho depois de, em 1960, ter fugido de casa, «com o fácil consentimento da família e alguma ajuda financeira», quando a independência lhe exigiu que começasse a trabalhar. Paga a fundo perdido por um extraordinário homem ‘o Magalhães da Ulisseia’, VPV conta-nos como, aos 17 anos, lhe foi pedido para escrever um depoimento sobre a juventude («vergonha a que os jovens são frequência sujeitos»), e como, depois, José Cardoso Pires passou a contar com ele para colaborações regulares. Entre os redactores, além do autor de Alexandra Alpha – escritor que VPV estimava acima de Saramagos e Lobos Antunes, reconhecendo-o como o génio que verdadeiramente modernizou a literatura portuguesa –, estavam Luís de Sttau Monteiro, José Cutileiro, Augusto Abelaira, José Sesinando e Baptista-Bastos. Para o benjamim daquela redacção que, entre 1959 e 1961, enfiou um pé-de-cabra na austera e estreita cena cultural portuguesa, aquilo foi algo como uma tremenda blasfémia, interrompendo brutalmente a velha cisão entre os intelectuais alinhados com o regime e aqueles outros comprometidos com uma ditadura que haveria de chegar em nome do povo. De heresia em heresia, a Almanaque veio ajudar a aliviar «o espírito das piedades vigentes». E é a esta escola, que durou enquanto não se acabou o dinheiro do Dr. Magalhães, que VPV atribui uma mudança na sua «prosa íntima». Por essa altura, o jovem que se estreara aos 15 anos, na revista do Colégio Moderno, Gente Moça, com um artigo sobre o teatro português, tema que nunca lhe interessou, e em que plagiava «quase letra a letra» um artigo de Eça, publicado cem anos antes, ainda ambicionava tornar-se romancista, e confessa que as suas grandes ambições eram menos elevadas do que mundanas, e passavam por «vir no Paris-Match e comprar um Aston Martin como Françoise Sagan, para consolação da carne e vingança de paixões infelizes».

Sabemos que lá acabou por licenciar-se, e ser assistente por uns tempos, que antes disso foi ganhando dinheiro ajudando os colegas do Almanaque em traduções e como, em meados de 1964, entrou para O Tempo e o Modo, «uma empresa missionária com objectivo de redimir a Igreja da conivência com o regime e de a ligar às nobres querelas da liberdade e da justiça». Mas ninguém nunca se apressou mais que VPV a tirar o corpo fora de qualquer forma de idealismo, e garante que para si, «o ateu de serviço», além da oportunidade de estar onde estavam alguns amigos, lhe serviu para afinar a pontaria contra o fascismo. Foi nesse ano também que casou pela primeira vez. Casaria outras duas, antes de acabar sozinho. Em relação também a esses fracassos seria possível ouvi-lo confessar: «Não me esforcei muito.» Ou até: «Não me esforcei nada. Eu não pedia, apanhava. Amores loucos, amigos, cursos, doutoramentos. Quando se inventou o sexo, em 1963, não foi tarde demais; nem quando veio a democracia em 1974. Não sofri o suplício dos velhos matrimónios desesperadamente indissolúveis, que mataram tanta gente a torto e a direito. Nem a guerra. Nem as penas do silêncio e da servidão com que o salazarismo liquidava com brandura os seus inimigos e os seus amigos.»

Não vamos aqui analisar nem profunda e nem mesmo superficialmente a inconstante tentação que viu VPV flirtar com a política activa. Esteve ligado ao PS logo a seguir ao 25 de Abril, depois apoiou Ramalho Eanes, em 1976, Soares Carneiro em 1980. Aceitou ser secretário de Estado da Cultura no governo de Sá Carneiro, pertenceu à comissão de honra da candidatura de Soares à presidência e foi deputado pelo PSD após a substituição de Cavaco Silva por António Guterres. A promessa da liberdade acabou por servir como armadilha para VPV, que entretanto se havia doutorado em Oxford, tendo aterrado em Inglaterra em 1968, para, finalmente, pôr os pés na terra. Assim, se outros ascendiam a Oxford, VPV diz que desceu, pondo termo às suas tendências para a vadiagem. Tinha 27 anos e poucos hábitos de trabalho, «não sabia nada de coisa nenhuma», e admite que era uma criatura sem préstimo. Outra coisa que tinha era ficha na PIDE, mas entre a irritação que veio a produzir mais tarde em tantos dos que hoje se amarram aos poderes, nesses tempos as suas provocações não davam para mais do que causar cócegas, e se passou dois meses em Caxias, isto deveu-se apenas a ter recebido uma carta de uma amiga que viajara para a Jugoslávia e, por piada, lhe enviou uma carta de lá, tendo escrito no envelope: «Camaradas, a revolução está a caminho».

«Nestas condições, Oxford vinha espontaneamente ao espírito para eu polir as arestas da alma e perfazer a minha educação com um brilhante doutoramento.» VPV escreve isto em tom de troça, mas é um facto que, nos quatro anos de «ociosidade criativa» que viveu em Inglaterra, escreveu um livro, e essa obra extraída da sua tese, O Poder e o Povo: A Revolução de 1910, publicada em 1976, viria a afirmar-se como uma obra de referência, e teve um impacto significativo na historiografia portuguesa, então ainda muito devedora da influência francesa. Talvez um dos aspectos mais originais da sua abordagem é o ter reconhecido que não se trata de uma ciência mas de um ramo da literatura, e, fiel a essa noção, a sua obra como historiador, além da seriedade da investigação, da busca de ângulos invulgares, tem todo o investimento literário, a prosa muitíssimo burilada, que leva a que o historiador tenha hoje evidentes vantagens face a uma geração de ficcionistas que efabulam (mas pouco e tão pobremente) a partir desses poucos palmos da realidade que experimentam sem se desviarem muito do seu quotidiano. Quando a literatura vive quase só de «auto-transfusões de sangue sobre-oxigenado» é natural que um historiador – ainda para mais um que não perde tempo a disfarçar, antes assume orgulhosamente a dívida para com os mais prodigiosos estilistas desta língua, com Eça à cabeça –, cause rubores aos toscos ficcionistas que os 'críticos' de suplementos nos impingem semanalmente.

E se como historiador andou a espiolhar tombos e gavetas, foi saber como uma coisa levou à outra, essa à seguinte, e como viemos dar a este ponto morto, como cronista tornou-se uma espécie de médico legista da actualidade. Este seu registo, como Carlos Maria Bobone frisou, tornou-se o exercício mais regular de análise da nossa democracia, mesmo se muitíssimo enviesado,  a resmunguice do tom serve a sua própria chave de leitura, e basta estar atento, fazendo uma carta de rumo para apreciar nuances nas suas guinadas. «Durante anos», sublinha Bobone, «o regime foi escrutinado ao dia ou à semana pelo seu olho desencantado, imune a euforias e a quem o sentido da História sempre livrou de megalomanias ou ideias de grandeza». Nesta leitura da sina que VPV fazia do nosso quadro político e social, com o seu feroz discernimento, aquela prosa imaculada era, na verdade, uma malha perversa, e nela há muito de birra e caprichos, patifarias, crueldades, ajustes de conta de toda a ordem, grosseiras injustiças e, até, pura e simples má criação. Foi assim, de resto, que João César Monteiro o classificou, especificando que, no género, mais que desagradável era «extremamente verrinoso, em especial com os mais fracos e, por outro lado, muitíssimo cuidadoso com as pessoas do poder». César Monteiro já não acompanhou o VPV dos últimos anos, que certamente fez bastante para que o peso pendesse mais para o outro lado da balança, ferrando duramente quem nos governou nestas duas décadas do XXI.

Vasco Pulido Valente foi um pouco de tudo o que exprime o fracasso desta nação, de um povo que cansa a memória com as proezas realizadas por alguns transviados, os tais conquistadores, essa imagem impossível e que, na comparação, faz da sua descendência um bando degenerado em sedentários. Cerzia máximas como quem, usando o seu tão ufano e, às vezes, até beato sentido de decência parecia torcer contra o seu país, tornando-se o aforista-mor do nosso desespero histórico e cultural. Mas se debitava semanalmente as suas tiradas incendiárias, não o fazia por mero gosto do escândalo, mas também por um certo desespero, uma inconformidade, uma tristeza bestial, por estar condenado a escolher entre o insípido e o atroz. Assim, no aprumo daquela prosa, debaixo, foram ficando as garras, uma espécie de demência verbal, a ferocidade alimentando-se de si própria. O seu monólogo fazia-se com uma certa qualidade dramática apesar de tudo. Muitas vezes, em frente ao espelho, o que justifica uma certa melancolia, feita de crueldade reabsorvida. Daí os infinitos recursos do seu cinismo. Ele conhecia bem, e até certo ponto execrava, os seus leitores, essa classe perita em torpeza, os que se congratulavam com a imensa decepção que a utopia revelou ser, o regozijo diante do «espectáculo de uma grande ideia desfigurada». Essa decepção, serviu como «ponto de apoio providencial para o burguês que disso vive e disso extrai a razão da sua segurança» (Cioran). Ora, VPV dirigiu-se a essa classe satisfeitíssima com os vícios e iniquidades  que se desenvolveram no seio da nova sociedade, e que acabou por permitir à velha manter-se e até consolidar-se. Mas este cronista percebia bem o pacto desolador que nos aprisiona neste manso descalabro, a «miséria de uma raça que tem de se degradar de um lado para se tornar nobre do outro». Escrevendo para uma gente que não acredita em nada, sabia que apenas buscavam o consolo de uma prosa vigorosa como um corrimão para as suas consciências amargas, como uma congregação de beatas mesquinhas que se juntam em volta de um pregador que lhes garante essa eloquência degradante que nos assegura que todo o progresso merece as maiores suspeitas. VPV sabia como o seu percurso de falhanços, acabou por fazer dele essa espécie de catequista da desolação, e se, não perdeu, apesar de tudo, o ouvido e a sensibilidade para «essas palavras de néctar e de cianeto, tão condizentes com as exigências de uma agonia» (Cioran, uma vez mais), era esse o seu castigo. Sabendo que «as misérias previsíveis não excitam as imaginações», sabia-se condenado a entregar a sua hóstia a uma comunidade resignada, cuja religião é a mais pura má-fé.