Sociedade

Coronavírus. Pais preocupados, filhos obcecados

Psicóloga Rita Jonet disse ao i que há pais e filhos a lidar mal com a existência do surto. Escolas tentam manter a “tranquilidade”.

O coronavírus chegou a Portugal com os primeiros casos confirmados esta semana , mas entre as crianças também surgem preocupações quando falamos de Covid-19. Só o nome assusta e são necessárias todas as medidas de prevenção, principalmente em ambiente familiar e escolar. O que é certo é que a existência do surto está a deixar muitos pais e crianças em pânico, com indícios de obsessão, apesar de o caso em Portugal ainda não se ter tornado tão alarmante como noutros países europeus, nomeadamente em Itália, onde o número de mortes já ronda as 80.

Ao i, Rita Jonet, psicóloga infantil que acompanha os mais novos entre os quatro e os dez anos, admitiu testemunhar diariamente casos de crianças que “fantasiam” demasiado e que precisam de ser controlados. “Estão todos um bocadinho em pânico e há pais também obcecados com o assunto. Os pais preocupam-se, mas são preocupações fugazes, ou seja, são espécies de flashes, mas este assunto do coronavírus está a ser algo persistente. Na primária existem crianças mesmo obcecadas. Há pais também muito preocupados e, na maior parte das vezes, são os filhos desses mesmos pais que são os mais afetados. No entanto, temos de ajudar a perceber que a vida é feita de incertezas”, referiu a psicóloga, deixando também a nota de que existem crianças que estão “constantemente” a lavar as mãos.

Já no ambiente escolar, Rita Jonet sublinhou que tudo está a ser feito para que o alarmismo diminua entre os mais novos, que, mesmo aos professores, fazem frequentemente questões sobre o coronavírus. “Entre os professores tem havido um um bom ambiente de entreajuda. Também lecionam a disciplina de Estudo do Meio e conseguem aproveitar essa disciplina para incentivá-los a não dramatizar. As fraquezas fazem a força”, disse.

Apesar de todo o dramatismo à volta do coronavírus, tem sido com tranquilidade que os pais estão a ser acompanhados, para lidar com os filhos, segundo confirmou ao i o presidente da Confederação de Associação de Pais, Jorge Ascensão. “As crianças absorvem atitudes e não lidam com as coisas de uma forma linear. Nas escolas estamos a conseguir que haja alguma tranquilidade. As pessoas estão mais preocupadas porque ainda não há muita informação sobre o vírus, mas as escolas e as famílias, pelo que me chega, vão mantendo alguma serenidade”, contou, admitindo, no entanto, haver “alguma angústia”. “O meu filho ontem perguntou-me se podia cumprimentar os amigos com os pés, já que com as mãos não podia”, brincou Jorge Ascensão, que também referiu que com a época de Carnaval o receio aumentou. “A preocupação entre os pais cresceu. Muitos filhos saíram à rua, foram para vários sítios. Obviamente que existem incertezas”, concluiu.

só se fala do coronavírus O Covid-19 tem sido tema de conversa recorrente nos cafés, nas lojas, nos restaurantes e até mesmo nos locais de trabalho. A Saúde 24 tem recebido diariamente milhares de chamadas relacionadas com o surto e são muitas as recomendações da Direção-Geral de Saúde para evitar a propagação. No entanto, é nas camadas mais jovens que é garantidamente necessário um maior acompanhamento. Ao i, Paula Pereira, mãe de dois filhos de quatro e sete anos, confessou que o mais velho está sempre a fazer-lhe perguntas. “O que é o coronavírus?” é uma das questões mais comuns. “Questiona-me imenso, se o vírus já chegou a Portugal. O tio dele está em Valência [Espanha] e se calhar é por isso que também questiona mais”, explicou Paula Pereira, cujo filho mais velho estuda na Escola Básica Luz-Carnide, em Lisboa. “Noto também que o tema está muito presente entre os amiguinhos dele. Os amigos também fazem muitas perguntas. O meu filho mais novo ainda não fala nisso, mas na escola dele também nos deram todas as recomendações”, garantiu Paula, que se qualifica como uma “mãe descontraída”. “Claro que sigo todas as medidas de prevenção. Na escola fomos alertados, a professora também nos deu indicações”, confessou. O vírus assaltou conversas e brincadeiras nos recreios. “Chamam-se coronavírus uns aos outros”, exemplificou ao i um professor. Mas, por outro lado, também estão mais conscienciosos. “Quando alguém pede para partilhar um chupa, dizem que é para ter cuidado, por causa do coronavírus”.