Sociedade

António Sarmento. "Andar na rua de máscara, ir ao supermercado de máscara, não faz sentido"

O diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de São João, onde estão internados a maioria dos doentes, explica por que motivo é importante investir na fase de contenção.


O São João foi o primeiro hospital a receber doentes com coronavírus. Como foi esta primeira semana no hospital?

Temos oito casos, [entretanto terão sido confirmados mais dois] poderemos vir a ter mais uma vez, uma vez que tem havido uma afluência muito grande de casos suspeitos (dez a 15 por dia, mas vão provavelmente aumentar). Os profissionais estão motivados - médicos, enfermeiros e auxiliares - os circuitos têm funcionado e as pessoas sabem que é importante conseguirmos assegurar a contenção do vírus. Ainda acreditamos que possamos conter este rio e que não se passe a uma fase seguinte de transmissão interna no país, em que um caso funcione como rastilho para muitos outros. Vai ser difícil, mas acreditamos. É algo que pode acontecer em todo o mundo mas quanto mais tarde acontecer, quanto mais conseguirmos adiar a transmissão local da doença e se conseguirmos que o cenário em Portugal não fique igual ao de Itália, da  China, ou de outros países em que se estabeleceu uma cadeia de transmissão local, seria o ideal.

Mas é o cenário provável.

Cá como em todo o mundo, mas o objetivo desta fase de contenção é que em vez de haver um pico com uma afluência brutal aos serviços de saúde os casos distribuem-se mais ao longo do tempo e portanto é uma situação mais manuseável. Estamos perante um vírus que provoca mais vezes doença grave do que o vírus da gripe e não existe vacina, por isso ganhar tempo é importante. Por outro lado os vírus têm uma biologia própria. Aparecem quando querem e desaparecem quando querem. Muitas vezes têm um pico e sem que tenha intervenção tornam a desaparecer. Não sabemos como este se vai comportar, mas temos esperança que seja assim.

 

A primavera, com o aumento das temperaturas, pode estancar a epidemia?

É uma hipótese e é mais um motivo para tentarmos adiar o mais possível. Pode ser que a natureza nos ajude. O número de casos na China está em franco decréscimo. Pode dever-se às medidas de contenção, que foram muito eficazes e são difíceis de implementar noutros países, mas também ao comportamento do vírus, ter-se ‘fartado’. Isto acontece com o vírus da gripe, que tem um pico e depois diminui até se tornar residual e voltar no inverno seguinte, como pode acontecer também com este. Aconteceu com o SARS, que se tornou residual. Foi a evolução do vírus. Daí a nossa preocupação dever ser adiar ao máximo a transmissão local e se for possível, evitá-la.

 

Pessoas que regressaram por exemplo das zonas afetadas em Itália não deviam ter ficado em isolamento 14 dias?

Estamos num cenário de uma doença nova em que há muitas incertezas, ter certezas absolutas é muito difícil. Muitas vezes tem de contar o bom senso, das autoridades de saúde e da população. Penso que é importante termos uma cadeia de comando e que se faça orientações a uma só voz e essa cadeia de comando é a Direção Geral da Saúde que tem contado com o apoio de médicos.

 

Não aponta nenhuma falha? Houve problemas por exemplo com a linha SNS24.

Acho que a DGS está a fazer tudo o que é possível fazer e o que tem feito está bem feito. Estou à vontade porque não pertenço à DGS. Isto é uma situação nova, trágica e nenhum país no mundo está preparado. Nenhum. Os países estão preparados para acidentes, fazem cenários, mas nenhum está logo à partida preparado para uma catástrofe, vamo-nos preparando à medida que a situação vai evoluindo. Há sempre coisas que funcionam melhor e outras pior, mas temos de ter uma atitude de remar para o mesmo lado, colaborar e confiar na estrutura de comando.

 

Como estão os doentes internados no São João?

Estão estáveis. Não foi preciso colocar nenhum dos doentes em cuidados intensivos.

 

A DGS chegou a dizer que o hospital tinha esgotado a capacidade. Ainda conseguem receber mais casos?

É uma situação que está sempre a evoluir. Até aqui temos conseguido dar resposta, mas se de hoje para amanhã a situação se agrava, pode mudar. Os outros doentes não desapareceram. Continuamos a ter tuberculose, pneumonias, endocardites, etc.... O serviço tem 27 camas, e mais seis de cuidados intensivos. Vamos metendo doentes à medida que temos camas. Quando não tivermos, vamos tentando transferir os doentes de outras patologias. Se se chegasse a uma situação em que não podemos libertar camas, ativam-se os hospitais de segunda linha. Estamos nesse processo. A resposta vai escalando.

 

Há material de proteção suficiente para os profissionais?

Para já existe. Ninguém pode dizer o que vai acontecer nos próximos dias. Podemos estar a subir nesta epidemia ou podemos ter atingido o pico.

 

Tendo visto os primeiros casos, é possível fazer o diagnóstico da doença sem ser pelo teste?

É impossível, é igual a qualquer infeção respiratória ao inicio. Os doentes têm tosse, uma febrícula, dores de cabeça, é igual. Continuam a circular outros vírus respiratórios, por isso o diagnóstico só pelos sintomas não é possível.

 

A DGS só está a indicar o teste para pessoas com sintomas que venham de zonas afetadas ou tenham contacto com doentes, mas há laboratórios privados a disponibilizar a análise. Pessoas com esses sintomas devem fazer a análise?

De modo algum. A pessoa tem sintomas, faz o teste e dá negativo. O período de incubação é de 14 dias, amanhã pode ser positivo. Uma pessoa não vai fazer o teste todos os dias, não adianta de muito. E mesmo que seja positivo, estando a pessoa assintomática, ninguém sabe qual é o significado disso: se a pessoa vai ou não ter a doença e se não tiver doença se transmite aos outros ou não, isso ainda não é muito claro.

 

Vemos mais pessoas de máscara. É aconselhável?

Pela população no geral não. O uso de máscara faz sentido se estiver doente. Qualquer um de nós se tiver com uma infeção respiratória, até com uma gripe, e se for para o meio de muita gente, deve usar máscara. As pessoas não o fazem mas mesmo fora deste contexto deviam, por um exemplo uma pessoa com uma gripe que vai ao cinema. Diminui o risco de contagiar a pessoa ao lado. Profissionais de saúde que estão em frente a pessoas com infeções respiratórias também devem usar máscara. Agora andar na rua de máscara, ir ao supermercado de máscara, não faz sentido.