Politica

André Ventura: "Quero ficar à frente do PCP nas próximas eleições"

André Ventura acredita que vai crescer nas próximas legislativas e garante que não vai desistir da candidatura a Belém. 

Apresentou, há uma semana, a sua candidatura à presidência. Quer ser Presidente da República?

Quero. Quero mesmo ser Presidente da República porque estou convencido de que, apesar da maioria dos meus eleitores me querer como primeiro-ministro e me querer no Parlamento em funções executivas, essa é a única forma que temos, em Portugal, de conseguir fazer as alterações profundíssimas que o Chega quer fazer. Temos propostas extremamente radicais para Portugal e isso é assumido. Nunca escondi ao que vinha e espero nas próximas eleições ter um enorme grupo parlamentar.

Quantos deputados quer eleger nas próximas eleições?

Nas próximas eleições vamos ser a terceira ou a quarta força politica. É uma luta difícil nomeadamente com o Bloco de Esquerda, mas vamos superar o PCP, o PAN e o CDS. Daqui a oito anos queremos ser o maior grupo parlamentar. Mas precisamos de mudar o sistema e o primeiro abalo para o sistema será quando um Presidente da República antissistema for eleito. As pessoas podem não conhecer o Chega, mas conhecem o André Ventura, sabem o que pensa André Ventura. O André Ventura não mentiu na apresentação da candidatura. Queremos outra República, não queremos esta, não gosto desta Constituição, queremos outra. A melhor forma que teremos para combater este regime é com a eleição do Presidente da República do Chega.

Está mesmo convencido de que vai ter um bom resultado nas presidenciais? Estamos a falar de um dos presidentes mais populares da nossa democracia.

Estou convencido de que vamos ter, pelo menos, uma segunda volta. Marcelo Rebelo de Sousa sabe a quem é que falhou e sabe que esse eleitorado vai desesperadamente procurar uma alternativa. Esta alternativa, neste momento, só posso ser eu. Não há outra candidatura, vincadamente de direita, que assuma que é de rutura e que não vai estar ao lado do Governo. António Costa sabe que terá os dias contados se eu vencer as eleições presidenciais. Não escondo que venho para exercer uma Presidência de rutura e o professor Marcelo Rebelo de Sousa vem para fazer uma Presidência de continuidade.

Como é que concilia o lugar de deputado com a candidatura à Presidência e os comentários sobre futebol na televisão?

Não é fácil. Vou continuar a ser deputado durante os próximos meses. Vai haver um momento em que suspenderei e serei substituído pelo Diogo Pacheco Amorim, que é o número dois na lista por Lisboa. Não decidi ainda qual é o momento, mas quero fazê-lo com algum tempo para poder fazer campanha na rua. Quero fazer uma campanha de proximidade e percorrer o país todo. Quero que as pessoas conheçam melhor o homem que está por trás da figura televisiva.

Por que não cumpriu a promessa de assumir o mandato em exclusividade?

Eu disse que iria manter o comentário desportivo...

No seu programa está que iria cumprir o mandato em exclusividade.

Não nego isso, e na altura informei o partido de que não concordava, pessoalmente, com essa proposta. Temos no programa algumas medidas que foram aprovadas por maioria, em que apresentei o meu voto de discordância. Somos um partido. Mas, antes de ser eleito, disse que queria manter-me como comentador porque não via aqui incompatibilidade nenhuma.

Mas também deu uma entrevista em que disse que iria assumir o mandato em exclusividade.

Sim e logo que tive oportunidade corrigi. Não fui claro naquela explicação, mas depois clarifiquei e disse que, para mim, isso não se aplica ao comentário televisivo. Mas quero deixar claro que, em julho, abandonarei a restante atividade privada honrando os acordos que tinha com estas entidades e ficarei no Parlamento e no comentário.

Por que não quer deixar o comentário?

Não vejo em que é que eu ser comentador de justiça ou de casos de futebol pode chocar com a minha atividade de deputado. É uma espécie de complemento de prestação pública de informação.

Admite que não cumpriu essa promessa?

Houve um elemento mal explicado. Admito que sim, não foi bem explicado, por isso é que aproveito esta oportunidade para esclarecer que vou deixar a restante atividade privada. Quero manter-me no comentário porque é, neste tempo em que alguns me querem cortar a voz, fundamental que eu tenha presença no espaço público. Não me conseguirão calar. Muitos dos que me estão a atacar politicamente não me querem no espaço público. Naquilo que depender de mim continuarei no comentário televisivo.

Não é incompatível com o lugar de deputado estar numa televisão a defender um clube de futebol?

As pessoas sabem que sou apaixonado pelo Benfica. Sou do Benfica, amo o Benfica desde pequeno e não vejo que seja incompatível. Não sou representante do Benfica. Não recebo um cêntimo do Benfica. Isso sim, seria incompatível. Não tenho nenhuma ligação à direção do Benfica. Faço o meu comentário desportivo como faço comentário de justiça.

Se não fosse comentador provavelmente não havia o Chega...

A minha visibilidade pública começou com o comentário. Muitas das propostas que defendo já as tinha escrito antes de ser político.

As pessoas dentro do PSD sabiam que tinha algumas ideias radicais ou só descobriram quando foi candidato à câmara de Loures?

Quando olho para trás, acho que o meu verdadeiro nascimento político foi nessa campanha eleitoral. Não partidariamente, porque fui do PSD desde muito jovem. Mas foi o meu momento de viragem política. Foi quando percebi que tínhamos posições completamente diferentes. Percebi que não podia falar da comunidade cigana, do combate aos pedófilos, do enriquecimento ilícito… Era mais cómodo para mim ter ficado no PSD. Era dirigente nacional, provavelmente teria sido candidato à liderança, mas fiz o que era mais difícil, que foi sair e, do nada, porque não sou rico (não sou o Trump nem o Berlusconi…), formar um partido só com as convicções. E em poucos meses o partido consegue eleger um deputado para a Assembleia da República e ser mais votado que os outros dois novos partidos que também estavam em disputa. Acho que nunca aconteceu na história da democracia.

O Chega tem ganho militantes nos últimos tempos por causa da sua presença no Parlamento?

Houve dias, na semana passada, em que entraram quase 300 militantes. Já superámos os 10 mil militantes e vamos caminhar para os 15 mil. Isto é extraordinário porque acontece num país em que as pessoas se estão a afastar dos partidos. As pessoas dizem-me: ‘Entreguei hoje o meu cartão do PSD, do CDS, do PCP...’.

Militantes do PCP estão a mudar para o Chega?

Sim. No Alentejo estamos a receber transferência direta de militantes do PCP para o Chega. Isto mostra que, em Portugal, não havia pacto de regime nenhum. Havia uma enorme hipocrisia que ao mínimo abanão começou a vacilar. Connosco não vai faltar guerra ali dentro [no Parlamento]. Este sistema teve anos a mais sem guerra nenhuma. Vamos fazer a guerra que tivermos de fazer e quanto mais nos atacam mais guerra vão ter. Eles têm estruturas grandes, têm meios que nós não temos, têm uma grande parte da imprensa, mas vamos continuar a travar esta luta. Essa é a nossa força. Não sou perfeito, vou continuar a errar, se calhar às vezes vou exagerar; a minha vida não é perfeita, mas as pessoas reconhecem que sou autêntico e vou à luta.

O que quis dizer quando afirmou que vai fazer ‘uma clarificação em sentido inverso’ do programa do Chega?

A palavra inversão não foi minha. Disse que iria fazer uma clarificação. Acusam-me de querer destruir o Serviço Nacional de Saúde (SNS) , mas se isso fosse verdade nunca teria votado pelo reforço de meios do SNS ao lado do PCP e do Bloco de Esquerda.

O que está a dizer entra em contradição com o programa do Chega. O programa diz que ‘o Estado não deverá interferir como prestador de bens e serviços no mercado de saúde mas ser, apenas, um árbitro imparcial’.

É fundamental uma clarificação. O que defendemos é o mercado regulado e no mercado regulado há árbitros. Reconheço que, eventualmente, será preciso mudar a Constituição porque o SNS é visto como o sistema e o resto são pequenos complementos – o privado e o social. O que nós defendemos é uma coisa completamente diferente. É um mercado em que todos estejam em posição de competitividade.

Mas assume que o que está no programa é acabar com o SNS?

Não, não é. É isso que vamos clarificar, porque não é esse o sentido das nossas palavras.

Se o Estado não interfere como prestador de bens, não poderá garantir o SNS...

Quando dizemos que não interfere, mas fiscaliza e regula, estamos a pensar num plano de longo prazo. Dou-lhe o exemplo da PPP de Braga, em que tínhamos um modelo que o Estado revogou. Lá vão agora não sei quantos milhões. A população de Braga vai ficar melhor? Não.

Defende que esse modelo deve ser generalizado?

Sim. É isso que defendemos. Queremos um modelo em que funciona o seguro social e onde o mercado de seguros é amplificado para que quem não tem dinheiro possa ter o mesmo acesso, através do seguro social, e quem [dinheiro] tem possa ter outros meios de acesso à saúde. Mas sobretudo que haja competitividade. As pessoas podem escolher entre o público e o privado.

E quem não tem dinheiro para pagar um seguro?

O Estado comparticipa. Assim é que deve ser. É assim em muitos países. Veja a Suécia, por exemplo. Se quero um hospital privado, porque é que tenho de ir para o público? Na Educação é a mesma coisa. Porque é que um pai não pode escolher a escola privada se o Estado pagaria o mesmo que ia gastar com ele na escola pública? Não quero acabar com o ensino público. Mas vamos explicar, detalhadamente, o que queremos. Não quero que nas próximas eleições digam outra vez que não sabiam ao que iam. Vai ser, provavelmente, o programa mais extenso de todos. Vai lá estar tudo.

Acha que tem sido discriminado pelo Presidente da Assembleia da República por causa da proposta dos abusos sobre menores?

Não gosto de me vitimizar, mas isso é evidente. Aquilo que aconteceu com a expressão ‘vergonha’ é um exemplo. Chegámos a ponderar pedir a destituição de Ferro Rodrigues, porque ele disse: ‘Isto tem de ser travado a tempo’. Isto o quê? O Presidente da Assembleia da República não trava nada. São os portugueses que votam.

O que ele queria dizer é que o populismo tem de ser travado.

Mas não é o Presidente da Assembleia da República que decide isso. Os portugueses é que decidem se me querem, ou não, no Parlamento.

Há quem o compare ao Bolsonaro e ao Trump?

Neste país, tudo o que é contra o sistema tornou-se populismo. Vou-lhe dar o exemplo da castração química. Espanha vai aprovar uma lei de castração química. Há vários países no mundo que têm e são democracias. E, portanto, populismo é tudo aquilo que eles não gostam. A prisão perpétua também dizem que é populismo, mas até acho que a maioria dos portugueses não concorda com a prisão perpétua e eu não vou deixar de a propor por causa disso.

Porque é que insiste tanto na prisão perpétua?

Durante a campanha fui ao distrito de Aveiro porque um indivíduo violou e assassinou uma freira. Podia ser minha mãe, sua mãe, podia ser minha namorada, sua namorada... Podia ser qualquer pessoa. Este indivíduo já tinha estado duas ou três vezes em liberdade condicional, já andava a perseguir mulheres há não sei quanto tempo e não se podia fazer nada, porque já tinha cumprido a sua pena e andava à solta. Ou seja, para casos em que a recuperação não aconteceu, ficar atrás das grades é a solução. Na nossa proposta o que vai constar é um regime de prisão perpétua que seja revista de 25 em 25 anos. Se a pessoa já estiver reabilitada poderá ser restituída à liberdade. Mas se não estiver fica. O que temos hoje é pedófilos a levar penas suspensas, a voltarem para a casa onde tinham agredido os menores, ou violadores a voltarem para a casa onde tinham agredido as companheiras. Imagine alguém que violou dez mulheres. Ele pode sair da prisão nas mesmas condições em que entrou porque pode não aceitar ser tratado. No nosso sistema pode recusar qualquer tratamento porque não se pode impor tratamentos a ninguém. Quem garante à sociedade que este pedófilo não volta a ser uma ameaça? Estamos sempre a pensar no agressor e nunca nas vítimas. Choca-me muito que o Pedro Dias daqui a uns anos esteja cá fora. O Pedro Dias matou um casal que ia para uma consulta de fertilidade. Matou-os a sangue frio.

Ainda não percebi se defende ou não a pena de morte. Quer clarificar a sua posição?

Tudo o que é irreversível é perigoso. Já tivemos vários casos nos Estado Unidos em que depois de as pessoas serem executadas se verificou que estavam inocentes. Eu, por princípio, sou contra a pena de morte. Mas se me perguntar: ficava chocado se o Pedro Dias tivesse sido executado? Não ficava. Ficava chocado se aquela mãe que matou a filha e deu de comer aos porcos no Algarve tivesse sido executada? Não ficava. Alguém que viola mulheres e as mata de seguida?… Não ficava. É quase um conflito dentro de mim próprio.

Imagine que era possível uma proposta dessas ir ao Parlamento, como é que votaria?

Em princípio, não viabilizaria a proposta. Mas reconheço que há um conflito interno. É uma espécie de conflito entre a minha natureza cristã e o meu pensamento político mais radical.

O Chega é acusado de ser um partido populista. Reconhece que tem pontos em comum com outros líderes populistas europeus?

Os políticos acham que usar a linguagem comum e usar propostas comuns é ser populista. Ser populista é, por exemplo, dar aumentos à Função Pública a meses das eleições, mas aí ninguém acusa os Governos de serem populistas. Vou dar-lhe um exemplo: defendemos um sistema fiscal, tendencialmente, de taxa única. Isto não é muito popular, mas a verdade é que temos hoje um sistema em que a classe média está a pagar para quem não quer fazer nada.

Acha que o número de pessoas que em Portugal ‘não quer fazer nada’ é significativo?

Acho que sim. Não é muito popular dizer isto, mas é o que acho. Temos uma parte do país que acha que pode viver à conta dos outros. Reconheço que há situações em que as pessoas têm de ser apoiadas pelo Estado. Isso é evidente. Perder o emprego aos 60 anos não é o mesmo que perder aos 25. Mas o que temos hoje é um sistema muito diferente. Em Portugal, quem trabalha mais, quem se esforça mais, quem dá mais de si, o que é que tem como prémio? Mais impostos para andar a distribuir. A habitação pública, por exemplo, revolta-me. O que estamos a fazer, nalguns casos, é a distribuir casas a pessoas que depois têm Mercedes à porta. E nós andamos a pagar para quem não quer fazer nada.

Havia muitos Porsches e Audis na apresentação da candidatura presidencial. Esse é o eleitorado do Chega? A classe média-alta?

Acredite que não é. Basta ver a votação. Onde tivemos menos votação foi em zonas como no Parque das Nações, na Lapa, onde existe maior poder de compra. Onde tivemos mais votos foi na Grande Lisboa, onde as pessoas sentem estes problemas a que me estou a referir. Em Queluz, na Amadora, em Mem Martins, nas Mercês.... Porque aí as pessoas não são ricas e vivem com esses problemas de que falo todos os dias. Sabem o que é usar transportes públicos atoladíssimos, apesar de pagarem impostos. Quando digo que estão uns a trabalhar para os outros, eles sentem o que é ter dois filhos, trabalhar das 9 da manhã às 6 da tarde e haver, a 1 km de distância, aqueles que não fazem nada e estão o dia todo na rua. Só falta não pagarem gasóleo. Ainda vamos chegar ao ponto em que eles têm umas senhas para usar nas bombas.

Até que ponto é que se identifica com o rótulo da extrema-direita?

Não me identifico com nenhum rótulo que seja de extrema-direita, muito menos com neo-nazismos.

Como definiria o Chega?

É um partido no espaço da direita. A melhor descrição, e aquilo que essencialmente tenho dito, é que é um partido antissistema. O Chega tem esta particularidade que em Portugal nunca houve: temos, muitas vezes, votado ao lado do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. E tenho votado ao lado do PAN em muitas das propostas de criminalização de maus tratos a animais, que normalmente são bandeiras da esquerda. Mas, acho que podem ser bandeiras nossas. Quem maltrata animais revela muito do seu caráter. Dizer que isto é extrema-direita é não saber o que é a extrema-direita. Temos de alertar as autoridades de que existe um problema. Claro que vão dizer assim: ‘Lá está ele obcecado com os ciganos porque tem um problema com os ciganos’.

E não tem?

Não tenho problema nenhum com os ciganos. Até tenho amigos ciganos. Custa-me é que não se possa falar. Andamos pelo Algarve e pelo Alentejo e a forma como a maioria dos ciganos trata os cavalos, os burros, os cães, é de cair no chão. Adoro animais e custa-me imenso. Não somos contra os ciganos, queremos é que cumpram as mesmas regras que os outros. O país ficou indignado – e bem – com os galgos do João Moura, mas basta andar pelo Alentejo para ver cavalos completamente subnutridos e burros a serem tratados de uma forma miserável. Toda a gente sabe a forma como eles tratam os animais e ninguém faz nada. Já tínhamos o problema da subsidiodependência, o problema dos direitos das mulheres e agora temos o problema dos animais. A comunidade cigana vive numa bolha de impunidade.

Não teme estar a ser injusto para uma comunidade ao generalizar determinados comportamentos?

Prefiro ser injusto e resolver um problema do que fazer como nos últimos 45 anos. Há um problema com a comunidade cigana. Não vale a pena mentirmos. Há um problema de impunidade.