Falar Baixinho

Como sobreviver a uma quarentena com crianças

É só abrir o Facebook ou falar com amigos para percebermos o receio de muitos pais com a quarentena que se inicia agora.

As variáveis ‘crianças’ e ‘fechado’ são incompatíveis e a dificuldade aumentará consoante o número de filhos. A todos os pais que estiverem em teletrabalho, tiro-lhes o chapéu. Por melhor que as crianças pareçam compreender que os pais precisam de trabalhar o seu entendimento é relativo. Percebem que naquele momento não podemos ir à praia ou jogar à bola, mas não percebem que não podemos ser interrompidos. Por exemplo será difícil escrever esta crónica até ao fim quando, passado estes dois pequenos parágrafos, já fui interrompida umas boas dezenas de vezes com pedidos, exibições e perguntas que são feitas em simultâneo.

Mas não é o fim e não temos de chegar à Páscoa com a nossa sanidade mental afetada. Pelo contrário. Esta pode ser aquela oportunidade de ouro que há tanto desejávamos para estarmos com os mais pequenos. Para os conhecermos melhor e partilharmos momentos memoráveis.

Para que tudo corra bem a primeira dica é descontração. Em algumas alturas é possível que olhemos para a nossa casa e nos pareça que passou ali um tsunami. Devemos fazer para que haja ordem e incutir que no final de cada brincadeira se arrume tudo, mas temos de ser descontraídos e levar as coisas com calma e compreensão.

É importante manter as rotinas e não cair no desleixo em relação ao vestir ou à higiene, por exemplo. Alguma ordem só vai ajudar, mas sem rigidez.

É possível que algumas crianças também se sintam ansiosas com esta situação, mediante o que lhes foi dito na escola ou ao que vão ouvindo na comunicação social, pelo que, não deixando de acompanhar as notícias será importante poupá-las sobretudo às que possam causar medo e ansiedade.

Na hora de ir ao supermercado não temos de ser muito exigentes ou rigorosos, mas organizados e podemos juntar à lista uma coisa que cada um queira e também ingredientes para fazer um bolinho ou uma sobremesa em conjunto. As refeições poderão ser feitas com os pequenos ajudantes e uma boa dose de paciência. Também é bom que possam estar envolvidos em algumas tarefas da casa, que terão de ser levadas com descontração.

As crianças devem manter-se em contacto com os familiares e amigos por telefone, computador ou escrevendo cartas a que tiram fotografias e enviam.

Depois há várias coisas que podemos fazer, como assembleias em que se decide o dia ou se reflete sobre o mesmo, trabalhos manuais, trabalhar em projetos sugeridos pelos mais pequenos, concursos, danças, ginástica, pintar qualquer coisa que esteja mesmo a precisar, fazer arranjos, desenhos, brincadeiras, jogos, ver um filme, ler livros, dar um passeio ao ar livre sem ser em parques ou sítios com outras pessoas.

A calma, a descontração e o envolvimento de todos serão as chaves de ouro. Já sabemos como será difícil. As crianças não têm o nosso entendimento nem maturidade, estão cheias de energia, muitas vezes são pouco habilidosas e cuidadosas, muito insistentes, fazem birras, mas também são amorosas e estão sedentas da nossa companhia. Em certas coisas teremos de ser mais compreensivos e talvez mais permissivos. Para o bem de todos. E possivelmente assim chegaremos ao final desta quarentena felizes, mais próximos e repletos de bons momentos.

Finalmente, deixo o meu agradecimento e reconhecimento a todos os pais que se vão manter a trabalhar, muitas vezes em profissões de risco, para cuidar de todos nós e por isso têm de deixar os seus filhos ao cuidado de outros. Esses, como diria uma amiga, serão os nossos heróis.